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Iniciativa26/04/2017 | 07h00Atualizada em 26/04/2017 | 07h00

Professores se unem para formar cursinho pré-vestibular em Alvorada

Aulas de curso pré-vestibular gratuito de Alvorada enchem de ânimo jovens e adultos que sonham em entrar na universidade

Professores se unem para formar cursinho pré-vestibular em Alvorada Omar Freitas/Agencia RBS
Aulas gratuitas ocorrem segunda a sexta-feira, das 19h às 22h Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Um grupo de professores de Alvorada está fazendo a diferença na vida de estudantes que tinham poucas expectativas em relação ao próprio futuro. Dezoito profissionais se uniram para formar um curso pré-vestibular gratuito para alunos da cidade.

São 50 estudantes, entre jovens e adultos, que têm aulas de segunda a sexta-feira, das 19h às 22h, em uma sala disponibilizada no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do RS (IFRS), localizado no Bairro Montes Verdes. A largada ocorreu na semana passada, com aula inaugural – uma injeção de ânimo para quem sonha em entrar em uma universidade federal e se dar bem no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

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A iniciativa começou a ser pensada em janeiro, quando o Coletivo Negro Mineirinho de Oliveira começou a refletir sobre o que fazer para mudar o cenário da cidade. A ideia de um pré-vestibular ganhou força ao conquistar apoio de professores que estavam dispostos a darem aulas de forma voluntária.

— A gente vê pouco alvoradense na Ufrgs. Mas há um espaço que pode ser nosso, e o cursinho preparatório é fundamental para chegar lá — considera o enfermeiro Rafael Melo, 25 anos, um dos responsáveis por pensar o curso e que se tornou auxiliar administrativo do pré-vestibular.

Foto: Omar Freitas / Agencia RBS


Oportunidades

Ao longos dos meses de janeiro e fevereiro, o grupo se reunia aos sábados para montar o projeto. A primeira dificuldade foi encontrar espaço para as aulas nas escolas da cidade. Sem resposta positiva de instituições municipais e estaduais, o IFRS abriu as portas para receber a ideia. O local disponibiliza, além de sala de aula, laboratório de informática, biblioteca, auditório, estacionamento e cozinha.

— Os alunos se formam no terceiro ano (do ensino médio) sem ânimo, achando que acabou ali, e acabam indo trabalhar de empacotador de supermercado. Com o projeto, a gente quer mostrar que há muito além disso — explica a professora de Literatura e uma das coordenadoras pedagógicas do curso, Janice Gomes. 

"Estes alunos vão virar exemplo dentro de casa"


Neste primeiro ano, a turma servirá como projeto piloto. Ao todo, 112 pessoas se inscreveram ao longo de março para tentar uma vaga. Todos os candidatos foram entrevistados e selecionados por critérios sociais, raciais e de gênero. Também era necessário ser aluno de escola pública ou bolsista de escola particular e nunca ter feito cursinho pré-vestibular particular.

Com 14 disciplinas distribuídas pela grade de aula semanal, o curso é divido em três módulos: aquecimento, de abril a julho, imersão, de agosto a até a data do Enem, e revisão Ufrgs, em novembro e dezembro. Na primeira semana de maio, os alunos receberão apostilas de 250 páginas com conteúdos preparados pelos professores de cada uma das disciplinas. O material foi pago com uma rifa de Páscoa, que arrecadou R$ 700, e o valor da inscrição do curso, de R$ 20. Nenhum tipo de mensalidade será cobrada.

Os professores bancam o transporte até o IFRS com dinheiro do próprio bolso. A professora de Química Graziela Traçante, 27 anos, moradora da Lomba do Pinheiro, na Capital, abriu mão de uma das duas únicas noites de folga da semana para lecionar dois períodos da disciplina:

— Vejo ex-alunos meus no curso que nunca tinham pensado no futuro e que, agora, estão começando a querer algo para si. A gente percebe a dedicação deles.

— Estamos sonhando alto. Estes alunos vão virar exemplo dentro de casa — afirma o professor de português e cultura e cidadania, Leandro Gomes, 43 anos. Ele tem 15 anos de experiência com cursinho e sala de aula. 

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Mãe e filho estudam juntos

Entre os 50 alunos do cursinho, histórias de determinação se misturam. A auxiliar de produção Jacqueline Soares Montanet, 44 anos, moradora do Bairro Intersul, voltou a estudar ao lado do filho Gabriel, 18 anos. Ela quer cursar Serviço Social e ele, Medicina. A mãe terminou o ensino médio aos 23 anos, quando sonhava ser juíza, e aos 25 engravidou e abriu mão dos planos. Com a oportunidade do curso, quer retomar o que deixou para trás.

— Por ser mãe solteira e negra, às vezes, a gente já acha que isso não é pra ti. Mas esses professores são nossos super-heróis, eles nos motivam, e meu esforço também é por eles.

Adriane, Jacqueline e Gabriel: juntos para passar no vestibular Foto: Omar Freitas / Agencia RBS


Jacqueline não foi a única a chegar não acreditando em si. Muitos dos alunos têm autoestima baixa e acham que não é possível ingressar no ensino superior.

— Nosso compromisso também é mostrar que eles podem — afirma Janice.

Com o cursinho, Gabriel ganhou uma nova perspectiva para realizar seu sonho e quer dar o máximo para vencer o desafio de passar no vestibular. Até o início das aulas do pré-vestibular, estudava sozinho em casa porque não tinha como pagar um cursinho particular:

— É muito mais difícil estudar sem curso, a gente fica sem direção. Cheguei a ver o valor de um pré-vestibular que custa R$ 5 mil para o ano, não tenho de onde tirar este dinheiro. Aqui, os professores incentivam e a gente se identifica com as histórias dos outros alunos

.Outro incentivo vem da namorada Adriane Fernandes, 18 anos, que pretende tentar uma vaga no curso de Psicologia. Ela sonha em se tornar a primeira pessoa da família a ter curso superior.

"Me sinto acolhida"

Moradora do Bairro Umbu, Ana Paula Silva dos Santos, 37 anos, está desempregada, mas não quer mais deixar os estudos de lado. Deixou a sala de aula aos 13 anos, trabalhou dez anos vendendo balas no Centro da Capital, concluiu os ensinos fundamental e médio depois dos 30 anos.

Ana Paula busca um futuro melhor Foto: Omar Freitas / Agencia RBS


Agora, quer se preparar para um desafio maior, fazer vestibular para Ciências Sociais e ser professora. E, ao mesmo tempo, não vai desistir de procurar uma colocação no mercado de trabalho:

— Sempre tive muita dificuldade para conseguir emprego, mas, aqui, estou me sentindo acolhida. Somos abandonados (no Bairro Umbu) e estou achando esse curso um grande ganho para a cidade.

Ana Paula conta que se deu conta de que precisava voltar para a sala de aula quando percebeu que a educação estava fazendo a diferença na vida de pessoas próximas:

— Comecei a ver conhecidos vencendo na vida porque estavam estudando, e eu também quero isso. Passei muito tempo sem enxergar a importância de se estar na sala de aula.

Para ajudar
Interessados em ajudar, colaborando com a confecção de novas apostilas, podem entrar em contato com Janice Gomes pelo telefone e WhatsApp:
(51) 99879-6425. 


 
 
 

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