Felipe Bortolanza: "Saudade da sineta da tia Ozilia"  - Notícias

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Opinião28/02/2018 | 14h48Atualizada em 28/02/2018 | 14h48

Felipe Bortolanza: "Saudade da sineta da tia Ozilia" 

Colunista relembra os recreios da infância

Felipe Bortolanza: "Saudade da sineta da tia Ozilia"  Anselmo Cunha/Agência RBS
Gurizada da Escola Maria Chiká aproveita o primeiro recreio em sete anos Foto: Anselmo Cunha / Agência RBS

Passadas três décadas, preciso fazer uma confissão. O som da sineta da tia Ozilia segue na minha memória. De todo o meu tempo de Ensino Fundamental no Centro Educacional São José, nos ano 1980, guardo com muito carinho o tilintar às 15h35min, de segunda a sexta. Afinal, era hora do recreio! A sinfonia da tia Ozilia, responsável por este momento sagrado, decretava uma pausa nos livros. Quando se é criança, tem coisa melhor do que correr no pátio do colégio?

Como ninguém tinha celular, fazia-se de tudo no recreio: uns corriam, outros lanchavam, alguns lanchavam enquanto corriam. Também se jogava bola, batia figurinha, pulava elástico e amarelinha. A piazada na puberdade já trocava olhares pensando na "reunião dançante" do sábado. Tudo em 15 minutos. Faceiros, voltávamos aos cadernos suados, mas renovados.

O recreio é básico para a aprendizagem. E ter recreio bem divertido é metade da nota garantida. Oxigena o cérebro, ativa a adrenalina. Graças a ele, sempre fui um aluno com boas notas – e com relativo sucesso nas "reuniões dançantes" das garagens (sucesso era não passar a noite toda com vergonha de convidar alguém para dançar).

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Mas isso eu conto em outra crônica. Preciso voltar ao tema recreio. O assunto me comoveu nesta semana a partir de uma reportagem da colega Jeniffer Gularte. Ela foi testemunha da inauguração de espaços em uma escola estadual na Lomba do Pinheiro que, acreditem, passou SETE ANOS sem pátio para recreios. A piazada fazia lanche rápido, na sala mesmo, em função da estrutura precária na escola Maria Chiká.

A repórter percebeu que muitas crianças do sétimo ano nem reagiram ao som do recreio. Afinal, não sabiam o que fazer. Mais tarde, uma educadora concluiu sobre a falta de um pátio: "Um dano irreparável à infância".

Que triste isso! Na hora lembrei da história do pássaro que, por ter nascido dentro de uma gaiola, não voou ao ver a porta aberta pela primeira vez. Ao ver as fotos das crianças correndo, me emocionei. Lembrei da tia Ozilia e das alegrias que vivi nos pátios da minha infância. Óbvio que há graves problemas na educação pública do país. Mas acreditem: não há como ter esperança em um país melhor se for roubado das crianças o direito a um recreio diário num pátio.



 

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