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Seu Problema é Nosso16/04/2020 | 14h31Atualizada em 16/04/2020 | 15h21

Iniciativa em São Leopoldo combate a fome de comida e de afeto

Desde julho do ano passado, José Carlos prepara refeições servidas no Almoço Humanitário, que são distribuídas gratuitamente para a comunidade da região

Iniciativa em São Leopoldo combate a fome de comida e de afeto Omar Freitas/Agencia RBS
Liderando as panelas, José Carlos enche as quentinhas Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Arroz, feijão, frango ao molho e moranga. Esse foi o cardápio de quem, pelo meio-dia de ontem, bateu palmas em frente ao número 312 da Rua Um, no bairro Santos Dumont, em São Leopoldo. Ali, desde julho do ano passado, é servido o Almoço Humanitário, com refeições distribuídas gratuitamente para a comunidade da região. 

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A iniciativa surgiu dos amigos e pastores da Igreja Batista José Carlos Paz, 54 anos, e Carlesso Lameira, 43 anos, diante do desejo de fazerem a sua parte para ajudar a combater o que se configura como um dos maiores problemas sociais do Brasil: a fome. 

Hoje, cerca de 80 pessoas consomem, de segunda a sexta-feira, as iguarias que saem das panelas de José Carlos, frutos de pequenas doações que possibilitam a manutenção o projeto. Sem contar com qualquer tipo de patrocínio, é a solidariedade que dá o toque especial no sabor da comida, cujo principal tempero é o amor. 

— Isso acontece na minha casa. É uma coisa bem singela, sem muita estrutura, mas que ganhou outra dimensão agora. A necessidade aumentou devido à quarentena, que deixou muita gente sem renda — comenta José Carlos, que é responsável pelo preparo e distribuição dos alimentos, enquanto o parceiro Carlesso cuida do planejamento e de questões logísticas da iniciativa, como abusca por doações. 

 SÃO LEOPOLDO, RS, BRASIL - 15.04.2020 - Desde julho do ano passado, José Carlos oferece, em sua própria residência, um almoço coletivo para as pessoas de sua comunidade que necessitam. (Foto: Omar Freitas/Agencia RBS)Indexador: Omar Freitas<!-- NICAID(14477737) -->
A ação de José Carlos é para ajudar quem precisaFoto: Omar Freitas / Agencia RBS

Partilha 

Inicialmente, as refeições eram servidas e consumidas no próprio local, com mesas distribuídas pelo pátio da residência, que virou um restaurante improvisado. O objetivo é que cada almoço seja uma experiência comunitária. Assim, muito além de ter acesso a um prato de comida, quem busca o alimento pode desfrutar também de um ambiente de partilha e convívio. 

Contudo, em razão da pandemia do novo coronavírus e respeitando orientações para que se evitem aglomerações, o prato do dia passou a ser distribuído em quentinhas, para levar. Ainda assim, segundo José Carlos, o objetivo não mudou: 

— Não queremos compartilhar só a comida. Muitas dessas pessoas estão tão machucadas pela vida que a carência material acaba sendo amais visível, mas não é a única. Quando você começa a ouvi-las, percebe carências emocionais e afetivas. A ideia, então, é compartilhar também uma palavra de conforto e de esperança, além do alimento. 

 SÃO LEOPOLDO, RS, BRASIL - 15.04.2020 - Desde julho do ano passado, José Carlos oferece, em sua própria residência, um almoço coletivo para as pessoas de sua comunidade que necessitam. Na imagem: Valdecir Klein. (Foto: Omar Freitas/Agencia RBS)Indexador: Omar Freitas<!-- NICAID(14477733) -->
O reciclador Valdecir é uma das pessoas que buscam a comida prontaFoto: Omar Freitas / Agencia RBS

Para quem consome as refeições, como o reciclador Valdecir Klein, 56 anos, o sentimento é de gratidão. Sem conseguir trabalhar devido à pandemia, ele conta que o almoço humanitário tem sido sua única refeição. O tempero agrada, mas o carinho recebido é o diferencial: 

— O almoço é muito bom. Agora, com essa pandemia, estamos pegando para levar. Mas, antes, agente se reunia para almoçar, conversávamos, era uma coisa maravilhosa, fiz muitas amizades. Sinto muita falta, porque era um conforto.

Parceria de dupla é antiga

Amigos de longa data, essa não é a primeira iniciativa tocada por José Carlos e Carlesso. Durante oito anos, a dupla realizou ações como a distribuição de sopões para a população em situação de rua e prestação de serviços a comunidades terapêuticas que oferecem tratamento a dependentes químicos. 

Porém, em 2018, Carlesso desenvolveu paralisia de Bell – inflamação do nervo facial que causa paralisia de parte do rosto –e precisou ficar afastado das atividades por cerca de oito meses. Neste período, idealizou o projeto de montar um restaurante comunitário e acionou o antigo parceiro José Carlos, que abraçou a causa. 

— Procurei um local para sediar,mas não consegui. Então, tivemos a ideia de abrir na própria casa do Zé (José Carlos),que fica em um bairro periférico que já tem bastante necessidade. Aí, começamos o trabalho, na cozinha normal dele mesmo. Como ele é um bom cozinheiro, eu trazia o alimento e ele preparava. Hoje, chegamos em um ponto onde as pessoas doam, mas minha parte é não deixar faltar nada –relembra Carlesso. 

 SÃO LEOPOLDO, RS, BRASIL - 15.04.2020 - Desde julho do ano passado, José Carlos oferece, em sua própria residência, um almoço coletivo para as pessoas de sua comunidade que necessitam. (Foto: Omar Freitas/Agencia RBS)Indexador: Omar Freitas<!-- NICAID(14477714) -->
José Carlos valoriza doações que chegamFoto: Omar Freitas / Agencia RBS

De quilo em quilo 

Segundo os idealizadores, o Almoço Humanitário é mantido apenas por pequenas doações, de quilo em quilo. Por vezes, a cozinha foi cenário de um “milagre da multiplicação”, necessário para fazer com que o alimento fosse suficiente para saciar a todos. Nessas horas, a criatividade do cozinheiro é testada. 

— Devemos muito respeito a quem nos doa, pois são pessoas que se dispõem a dividir o alimento da sua família conosco. Certa vez, chegou no portão uma senhora trazendo um pacotinho de carcaça de galinha e duas batatas. Quase chorei, porque a conhecia e sabia das condições em que ela vive. Então, sei que não está compartilhando aquilo que sobra, mas tirando da própria mesa para nos ajudar. Valorizamos muito isso — relata José Carlos.

Pensando nas consequências que a pandemia deve trazer, aumentando o número de desempregados e, em consequência, a questão da fome, a dupla almeja ampliar a iniciativa e sonha em atender outras áreas da cidade. Para isso, precisa de um local para a abertura de um segundo restaurante e voluntários dispostos a trabalharem. 

Porém, a principal necessidade segue sendo a doação de alimentos e auxílio com as despesas de gás, luz e água, fundamentais para a manutenção do projeto mesmo nos moldes atuais —que, hoje, demanda cerca de 40 quilos de arroz, 30 quilos de feijão e 40 quilos de proteína semanalmente, além de um botijão de gás a cada 15 dias e cerca de R$ 400 ao mês com luz e água.

Como ajudar 

/// Para conhecer formas de contribuir com o Almoço  Humanitário, contate José Carlos por meio do WhatsApp (51) 99189-3256. 

/// Doações de alimentos também podem ser feitas presencialmente, na casa de José: Rua Um, 312, bairro Santos Dumont, São Leopoldo.

Produção: Camila Bengo

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