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Eu Sou do Samba14/05/2020 | 05h00Atualizada em 14/05/2020 | 05h00

Por que o enredo da Mangueira de 1988 continua atual

Tema era o aniversário da Lei Áurea. Porém, discutia se a liberdade havia sido efetivamente oferecida aos negros

Por que o enredo da Mangueira de 1988 continua atual Public Domain/Wikipedia/Reprodução
Desfile da Mangueira na Sapucaí em 1988 Foto: Public Domain/Wikipedia / Reprodução
Liliane Pereira
Liliane Pereira

Em 1988, a Estação Primeira de Mangueira, do Rio de Janeiro, desenvolveu na Sapucaí o tema 100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?. O assunto eram os 100 anos da abolição da escravatura no Brasil. O samba era lindo e trazia à tona a reflexão a respeito da liberdade do negro, concedida por meio da Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888.

A data é, sem dúvida, um marco. Mas há um motivo, porém, pelo qual ela não é celebrada pelo movimento negro. 

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A discussão gira em torno do fato de que, por muito tempo, dava-se exclusivamente à princesa Isabel o crédito por ter acabado com a escravidão no Brasil. O que diversos estudos mostram, porém, é que houve participação ativa de parte da sociedade, de negros (libertos ou não) e não negros.

Complexidade

De acordo com a professora de História da UFRGS e coordenadora nacional do GT Emancipações e Pós-abolição da Associação Nacional de História (Anpuh), Fernanda Oliveira, a questão tem a ver com o significado da data.

– Geralmente, a tendência é valorizar única e exclusivamente a ação da princesa. Mas, na verdade, o 13 de maio é fruto de uma luta bastante complexa que envolveu diferentes setores da sociedade, incluindo elite, grupos populares, pessoas negras e não negras nos dois grupos e muitos abolicionistas negros. Falar sobre o 13 de maio exige que falemos sobre as disputas e sobre a complexidade do momento – afirma a doutora em História, que completa:

– Não temos por ideal dizer que a data não foi importante, muito pelo contrário, o que é equivocado é engessar o 13 de maio como se ele tivesse sido uma concessão da princesa.

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Outra discussão é o fato de que o projeto abolicionista não foi seguido de um processo de inserção dos negros na sociedade. A liberdade não se tornou uma realidade imediata. Muitos permaneceram com seus antigos donos em troca de comida e moradia.

Tal fato é um dos principais motivos que levaram essa parcela da população a tamanha desigualdade, pois permaneceram marginalizados. Desigualdade que, 132 depois, ainda é tão latente. 

Já dizia o samba: “Será que já raiou a liberdade, ou se foi tudo ilusão? Será, oh, será que a lei áurea tão sonhada, há tanto tempo assinada, não foi o fim da escravidão? Hoje dentro da realidade, onde está a liberdade? Onde está, que ninguém viu? Moço, não se esqueça que o negro também construiu as riquezas do nosso Brasil”.

 
 
 
 
 
 
 
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