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Ensino no RS04/06/2020 | 22h24Atualizada em 04/06/2020 | 22h24

Com início lento, retomada das aulas na rede pública pouco altera rotina dos alunos

Apesar de formação de professores e oferta de aulas preparatórias para o Enem ter andado, escolas seguem as práticas já adotadas e estudantes sem internet ainda se veem desamparados

Com início lento, retomada das aulas na rede pública pouco altera rotina dos alunos André Ávila/Agencia RBS
Escola Senador Ernesto Dornelles imprime apostilas e materiais didáticos para alunos sem acesso a internet, além de doações Foto: André Ávila / Agencia RBS

Na prática, a implantação das aulas remotas na rede estadual de educação pouco mudou a rotina dos alunos. Desde segunda-feira (1), quando teve início o plano de retomada gradual do ensino no Rio Grande do Sul, os professores que não tinham equipamentos para promover lições online continuam sem equipamentos, os estudantes sem acesso à internet continuam na mesma situação e as escolas que não sabiam como orientar os educadores sobre esse processo continuam, em grande parte, sem saber.

Apesar de ter anunciado diversos planos de ação para combater esses problemas que atingem em cheio a rede pública, a Secretaria Estadual da Educação (Seduc), apesar do sucesso na implementação de alguns (confira no quadro), ainda não tem previsão concreta de quando medidas como o apoio tecnológico a estudantes e professores vão vigorar de fato. E, nestes primeiros dias de retomada, as dificuldades têm ficado claras.

Em vez de aulas remotas em um ambiente unificado, o que realmente vem acontecendo nesses últimos dias é uma etapa chamada de "ambientação digital", que prevê a inserção dos professores e alunos na plataforma Google Classroom e segue até 13 de junho. A partir de 8 de junho, em etapa concomitante, a previsão é de que ocorra o "letramento digital", fornecendo aos professores o conhecimento para a preparação de aulas na forma não presencial. Os conhecimentos digitais dos alunos também serão avaliados nessa etapa.

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Para a presidente do Cpers, Helenir Schürer, isso evidencia a desconexão do governo com a realidade.

— Então o professor, que não recebe o salário em dia há tanto tempo, tem que programar aula, dar aula, assistir os cursos, corrigir os trabalhos, tudo isso junto? O governo está exigindo que a gente faça hora extra sem nem pagar hora extra. Os professores estão doentes, estressados, endividados, e ainda com uma sobrecarga de trabalho que eu não acredito que a Seduc não tenha noção da dificuldade que é — avalia Helenir.

A professora explica que não só um número grande de alunos tem pouco ou nenhum acesso à internet: também muitos professores, com remuneração atrasada, acabam tendo de cortar os gastos com planos de telefonia, e até agora não receberam quaisquer planos ou equipamentos da secretaria para contornar esse problema. Em resposta, a Seduc informa que "para aqueles que não possuem aparelho celular, as escolas funcionarão em regime de plantão com agendamento, respeitando todos os protocolos de saúde, para que possam utilizar a estrutura da instituição de ensino".

Quanto ao retorno às aulas, somente a partir de 29 de junho, dias antes da previsão de retomada gradual das aulas presenciais, é que devem ter início as lições que utilizam a Matriz de Referência, definida por componente curricular de cada ano. Essa etapa, a ser realizada quase no segundo semestre do ano, será norteadora das aprendizagens para esse novo modelo híbrido proposto pelo governo, com ensino presencial e não presencial.

Professores relatam dificuldades

Desconhecendo quando serão implementadas mais medidas do governo previstas para suprir as dificuldades de acesso à internet de alunos e professores, as escolas continuam improvisando para tentar atingir os estudantes durante o distanciamento social.

— Cada um está se virando como pode. Nenhum professor teve nenhuma formação específica para uso de mídias. Criamos grupos de WhatsApp com as turmas, mandamos conteúdo por ali ou por e-mail, e os alunos vão se virando — conta a diretora da Escola Estadual Ernesto Dornelles, Isabel Lopes, que convidou alunos para buscarem livros e materiais de apoio diretamente na escola nesta quinta-feira (4).

Do começo da semana até agora, conforme Isabel, foi realizada apenas uma webconferência com diretores das escolas para apresentar a plataforma e anunciar treinamentos. A diretora explica, porém, que não foi dado prazo para o início dos treinamentos nem houve maiores detalhes de como deve funcionar. O governo diz que a implantação do sistema deve ocorrer “ao longo do mês de junho”.

Na escola de 1,1 mil alunos, os professores têm trabalhado, principalmente, via WhatsApp, distribuindo atividades para os grupos criados para cada turma. Os estudantes que não têm acesso à internet — cerca de 20%, estima a diretora — precisam ir até a escola para buscar o material impresso. O processo esbarra em dificuldades: alguns dos alunos não têm sequer telefone para contato, e precisam ser avisados por outros estudantes quando há algo disponível — o que resulta em baixa procura.

No Colégio Piratini, no bairro Auxiliadora, a demora do Estado em apresentar soluções para o período de distanciamento social fez com que o diretor, Maurício Girardi, comprasse um domínio para a escola. Agora, os professores utilizam a plataforma virtual como repositório para os conteúdos, que também são disponibilizados pelo Google Drive.

— Fomos migrando, do WhatsApp para o e-mail, e o do e-mail para a página. Vamos aderir à plataforma do governo, mas também vamos manter o domínio que criamos — conta.

Girardi explica que também não pretende esperar pelo governo do Estado para treinar os docentes para usar o Google Classroom. Um professor já se disponibilizou e deve atuar como mediador, ajudando os colegas, a partir dos próximos dias.

Segundo o diretor, cerca de 90% dos 380 alunos têm condições de acessar o material _ os outros 10% dependem da ajuda de colegas para terem acesso às atividades. Apesar do bom alcance, ele observa que o período de ensino remoto expôs problemas de planejamento de alguns professores, que disponibilizam material em formato diferente do orientado pela direção — alguns enviam fotos de páginas de livros, por exemplo.

Enquanto os diretores aguardam por orientações claras da secretaria de Educação para direcionar as equipes, parte dos professores amarga frustração nos primeiros meses em casa. Acostumados ao presencial, educadores de escolas localizadas em regiões de periferia, onde o acesso à internet é precário ou inexistente em boa parte dos lares, eles enfrentam barreiras para avançar no conteúdo com os alunos.

Professora de língua portuguesa na Escola Estadual de Ensino Fundamental Baependi, no bairro Glória, Maria Denise Bandeira diz que a maior parte de seus alunos de 6° a 9° anos não tem realizado as atividades propostas nos últimos meses.

— Os alunos precisam de orientação. Temos vários que têm dificuldades de aprendizagem, e cujos pais têm muitas dificuldades também. Quem vai ajudar o aluno em casa? Estou triste. Nunca pensei em passar por uma situação assim — relata a professora.

Denise é pessimista quanto à implantação do sistema remoto na rede. Segundo ela, parte dos alunos da escola vive em uma área quilombola onde o acesso à internet é precário, e outros moram com várias pessoas e precisam compartilhar celulares, o que dificulta o acesso.

—  O que eu acho que vai acontecer, na prática, é que vamos retomar as aulas presenciais em setembro e ter de fazer um intensivo com eles para conseguir recuperar, no mínimo, até janeiro — projeta.

A Seduc informa que está realizando, durante o mês de junho, o mapeamento dos estudantes que não possuem acesso à internet. A ação ocorre de forma concomitante ao processo de ambientação digital dos alunos e professores na plataforma Google Classroom. Em relação ao contrato com operadoras de telefonia para disponibilização de dados nos celulares cadastrados, o processo encontra-se em fase de tramitação e ajuste para decreto orçamentário entre Secretaria Estadual da Educação, Secretaria Estadual da Fazenda e Assembleia Legislativa.

O que andou

Treinamento de professores
Foram oferecidas as chamadas "aulas programadas", entre 19 de março e 30 de abril, com orientações para que os recursos tecnológicos fossem amplamente usados no planejamento dos conteúdos e preparação das dinâmicas pedagógicas. Educadores de escolas estaduais usaram recursos tecnológicos como o Google Classroom e o Google Drive, canais no YouTube, blogs e e-mail, além de redes sociais como o Facebook e WhatsApp para compartilhar textos, fotos e vídeos das tarefas planejadas. Nem todos os professores, porém, participaram dessa etapa. Assim, treinamentos semelhantes continuam sendo oferecidos. A Secretaria Estadual da Educação calcula, ao final do processo, a capacitação de todos os mais de 60 mil professores da rede.

Pré-Enem Seduc RS
Aulas preparatórias voltadas especificamente para o Exame Nacional do Ensino Médio começaram no dia 18 de maio, com transmissão pela TVE, e estão sendo veiculadas diariamente, de segunda a sexta-feira, das 19h às 23h, até 31 de outubro, totalizando 464 horas de preparação para todos os componentes curriculares. Os alunos também têm acesso às aulas pelo YouTube, por meio do canal TV Seduc RS, e pelos links disponíveis no Portal da Educação e no site da Seduc. Foram selecionados 13 professores da rede estadual de ensino e quatro tradutoras-intérpretes para lecionar durante o projeto. Os docentes foram selecionados entre 325 inscritos.

O que ainda não andou

Mapeamento dos estudantes que não possuem acesso à internet
Por meio das 30 Coordenadorias Regionais de Educação (CREs), a Seduc ainda está realizando, durante o mês de junho, o mapeamento dos estudantes que não possuem acesso à internet. Em um primeiro momento, será avaliado se o estudante consegue ter acesso às aulas pelo celular de um pai ou responsável. Depois, na inexistência de qualquer dispositivo digital, as escolas deverão funcionar em regime de plantão para garantir o acesso do aluno. Nos casos daqueles que não tenham nenhuma possibilidade de acesso digital, nem condições de ir até a instituição de ensino, as escolas deverão fazer a entrega de conteúdo diretamente na casa dos estudantes.

Custeio de acesso à internet para alunos
A Seduc informa que vai disponibilizar internet patrocinada no celular, exclusivamente para conteúdos educacionais, para alunos e professores que não possuem acesso. Mas o processo ainda está em fase de tramitação e ajuste para decreto orçamentário entre Secretaria Estadual da Educação, Secretaria Estadual da Fazenda e Assembleia Legislativa.

Apoio tecnológico a estudantes e professores
Como o governo definiu que as aulas devem ser ministradas pelos professores a partir de suas casas, a secretaria da Educação decidiu pela realização de um processo de aquisição de Chromebooks, computadores com a finalidade específica de utilização na área educacional que serão disponibilizados para todos os educadores da rede. Porém esses equipamentos, quando adquiridos, só serão disponibilizados após a conclusão do mapeamento dos alunos e professores que necessitam utilizar o serviço de internet patrocinada no celular. A partir deste diagnóstico, serão avaliadas as necessidades e o número de dispositivos que serão disponibilizados em cada CRE.

 
 
 
 
 
 
 
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