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Eu Sou do Samba06/08/2020 | 05h00Atualizada em 06/08/2020 | 05h00

Liliane Pereira apresenta a história de uma médica e carnavalesca, com muito orgulho

Khadija Santos Deodoro, 31 anos, conta que já enfrentou preconceitos na profissião

Liliane Pereira apresenta a história de uma médica e carnavalesca, com muito orgulho Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Khadija está estudando cirurgia vascular Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal
Liliane Pereira
Liliane Pereira

Há poucos dias, um estudo que foi publicado em dezembro do ano passado, mas que ganhou mídia recentemente, teve uma repercussão grande na área médica. Especificamente entre as mulheres.

A pesquisa, divulgada na publicação americana especializada em medicina Journal of Vascular Surgery, sugere que o paciente, ao optar pelo seu médico, deve levar em consideração o conteúdo divulgado pelo profissional em suas mídias digitais. Em resumo, os pesquisadores consideraram que fotos mostrando o consumo de álcool, o uso de linguagem inapropriada e fotos de biquíni demonstravam um comportamento classificado como antiprofissional.

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Bom, parece claro que quando um estudo fala sobre o uso de biquíni, está julgando o comportamento das mulheres. E se vocês estiverem se perguntando o que isso tem a ver com Carnaval, eu digo: todos os assuntos incidem sobre os carnavalescos, pois a comunidade do samba é formada por pessoas de todas as classes, gêneros e profissões. Inclusive médicos.

Laços fortes

E, por isso, eu conversei com a médica Khadija Santos Deodoro, 31 anos. Ela contou um pouco dos preconceitos que já enfrentou na profissão e como o Carnaval sempre fez parte da sua vida.

A família da Kaká, como é chamada, sempre teve fortes laços com o Carnaval de Porto Alegre. E desde muito pequena ela desfilou na avenida com a ala do grupo Afro-Sul, comandado por sua mãe, Iara Deodoro, e do qual ela faz parte desde sempre. A companhia de dança Afro-Sul é muito tradicional no nosso Carnaval e na Capital.

– Eu praticamente nasci em um palco. Uma semana antes de eu nascer a minha mãe ainda dançava e dava aulas de dança. E pouco tempo após meu nascimento, já retornou aos palcos e Avenidas, comigo a tiracolo, assim como foi com as minhas irmãs – conta Khadija.

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Kaká só se afastou da folia quando mudou de cidade para cursar Medicina em Santa Maria. Mas nunca abandonou, de fato, a Avenida e os palcos.

– Sempre que eu tinha alguma folga que coincidisse com os desfiles das escolas de samba ou com apresentações do grupo eu tentava estar presente, então isso nunca deixou de ser uma influência forte na minha trajetória — relata.

Os desafios da Medicina

Khadija conta que o processo entre prestar vários vestibulares até conseguir entrar em uma faculdade pública foi muito difícil, pois teve que abdicar de muitas coisas para se dedicar ao estudo. E, ao ingressar no curso de Medicina, as coisas não ficaram mais fáceis.

Khadija Santos Deodoro (D) com a mãe, Iara Deodoro
Em um dos desfiles, ao lado de sua mãeFoto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

— Foram muitos finais de semana em casa estudando, muitas festas que deixei de ir, muitas noites de sono maldormidas e muitas comemorações em família que perdi. E eu, enquanto mulher negra e estudante de Medicina, sentia que precisava sempre fazer o dobro do trabalho pra ter metade do reconhecimento que outros colegas homens e brancos recebiam, assim como é na sociedade em geral. Mas isso nunca me impediu de atingir meus objetivos — relata Kaká, que prossegue:

— Um fato que a grande maioria das mulheres médicas vivencia é que os pacientes costumam presumir que somos de outras áreas da saúde. Já no que se refere aos colegas homens, mesmo de outras áreas, os pacientes costumam pensar que eles sejam médicos. Isso mostra que a profissão ainda é erroneamente vista como um cargo de prestígio e poder associado aos homens, e que a nossa sociedade ainda tem muita dificuldade de aceitar mulheres ocupando esses espaços.

Khadija relata que ao longo da trajetória de seis anos de faculdade, seguida por dois anos de especialização em cirurgia geral, até o momento, em que está cursando a segunda especialização, agora, em cirurgia vascular, que vai durar mais três anos, passou por diversas situações de machismo e racismo.

— Infelizmente, o nosso comportamento pessoal, enquanto mulheres, pode influenciar negativamente na nossa vida profissional, uma vez que a sociedade espera um certo padrão de comportamento e estilo de vida, especialmente de médicas. A todo o momento nossa competência profissional é colocada à prova com base no que ouvimos, bebemos, vestimos e falamos. O que não ocorre com tanta frequência com os homens, que muitas vezes recebem reconhecimento positivo por comportamentos iguais aos que recriminam em mulheres.

Kaká prossegue:

— Posto isso, apesar de ter cada vez mais mulheres e negros nas áreas médicas, o machismo e o racismo ainda predominam, e eu sinto isso quase que diariamente. Entretanto, tenho visto cada vez mais pessoas se posicionando contra essas opressões e violências e contribuindo para a redução dessas desigualdades. O caminho ainda é muito longo e exige sacrifícios, mas somos fortes e determinadas e nada vai nos parar.


 
 
 
 
 
 
 
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