Fila por atendimento em saúde mental de Porto Alegre tem aumento de 40% em 12 meses  - Notícias

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Via SUS02/10/2020 | 05h00Atualizada em 02/10/2020 | 05h00

Fila por atendimento em saúde mental de Porto Alegre tem aumento de 40% em 12 meses 

Situação tem relação direta com a pandemia de coronavírus. Para especialistas, tendência é de crescimento ainda maior.

Fila por atendimento em saúde mental de Porto Alegre tem aumento de 40% em 12 meses  Isadora Neumann/Agencia RBS
Rede básica de saúde é a porta de entrada para os atendimentos Foto: Isadora Neumann / Agencia RBS

Classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como “extremamente preocupante”, o impacto da pandemia na saúde mental já pode ser verificado nos índices fornecidos pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Porto Alegre. Conforme dados da SMS, a fila de espera na especialidade de saúde mental adulta cresceu 40,9% nos últimos 12 meses. Enquanto 1.690 solicitações aguardavam atendimento em agosto de 2019, no mesmo mês deste ano, o número saltou para 2.382. 

Conforme os dados da fila municipal do SUS, divulgados mensalmente pela SMS, a demanda começou a crescer ainda no final de 2019, antes da pandemia. 

E o mês com mais solicitações acumuladas foi março, quando a Capital chegou a uma fila com 2.733 pedidos de atendimento em saúde mental adulta. Além desta especialidade, Porto Alegre tem outras quatro filas de saúde mental: infantil, de álcool e drogas (adulto e pediátrico) e de transexualidade. Estas três apresentaram redução de solicitações no mesmo período.

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Entretanto, a própria administração municipal ainda acredita que o crescimento da fila no último ano tem uma ligação com a “demanda reprimida” – ou seja, casos menos graves que estão se acumulando –, e que os efeitos da pandemia serão sentidos de maneira mais forte ao longo dos próximos meses.

– Nós ainda estamos no meio da situação, que é a pandemia. Por isso, ficamos num estado mais de alerta, adrenalina. Conforme isso for passando, as pessoas irão sentir mais as questões de saúde mental, e aí a procura por atendimento será ainda maior. Entre os cenários que avaliamos, pode haver um crescimento de até 25% na demanda – projeta o coordenador de Atenção à Saúde Mental da SMS, Maximiliano das Chagas Marques.

Atualmente, conforme Maximiliano, a prefeitura tem feito um trabalho de reavaliação dos pacientes que já estão na fila. O objetivo é fazer uma espécie de nova triagem com auxílio da telemedicina. Assim, alguns casos podem ser resolvidos ainda no atendimento na rede primária, sem a necessidade encaminhamento para outros serviços do sistema público. 

– Temos uma fila em que muitas solicitações poderiam ter sido resolvidas ainda no posto de saúde. Os casos mais comuns são quadros iniciais de ansiedade ou depressão, que podem ser tratados pelos profissionais da unidade mais próxima do paciente – aponta.

O atendimento na Capital

Em Porto Alegre, a porta de entrada para os atendimentos em saúde mental é a rede básica, com exceção de urgências e emergências. Conforme o coordenador da área na SMS, Maximiliano das Chagas Marques, dado o passo inicial de buscar a unidade de saúde mais próxima de casa, o paciente receberá o atendimento adequado:

– Transtornos de ansiedade, por exemplo, como dormir mal ou roer as unhas, algo que não chega a perturbar a vida, mas causa desconforto, são os casos clássicos da saúde primária. Ali, o médico de saúde da família pode indicar um tratamento. É a nossa primeira linha de acesso. 

Caso o profissional identifique a necessidade de acompanhamento de psicoterapia por mais tempo, poderá fazer o encaminhamento para um serviço especializado. A cidade é dividida em oito distritos de saúde, sendo cada um com uma equipe especializada para a saúde mental e uma extra – no total, são 18 equipes.

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O terceiro nível do atendimento é para os casos mais graves, que necessitam de tratamento para reabilitação ou ressocialização, por exemplo. Nestas situações, o paciente é encaminhado para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Em Porto Alegre, são 15 CAPS, divididos entre atendimentos gerais, pediátricos ou para tratamento de vício em álcool e drogas. Estes últimos funcionam no sistema portas abertas, o paciente procura diretamente o local.

Por fim, o nível mais grave é classificado por quatro situações: surtos psicóticos, risco de agredir alguém ou a si próprio, a ideação suicida – quando não só se pensa no suicídio, mas se tem planos para isso – e as intoxicações agudas. Nestes casos, o atendimento pode ser feito pelo Samu, que levará o paciente para uns dos oito hospitais ou dois pronto-atendimentos – postões IAPI e Cruzeiro – habilitados. 

São 448 leitos voltados para a saúde mental em Porto Alegre.

Como acessar a rede de saúde

- Os serviços de saúde mental da rede pública da Capital podem ser encontrados neste site

- Informações também poder ser obtidas pelo telefone 156.

- O primeiro atendimento sempre pode ser o posto de saúde do seu bairro.

É hora de procurar auxílio?

Uma das grandes barreiras que o cuidado com a saúde mental enfrenta é o preconceito. Muitas vezes, pacientes não aceitam ou não entendem que quadros como a depressão podem ser tão graves como qualquer outra doença. Como explica a professora dos cursos de Psicologia e Medicina da Universidade Feevale, Carmen Esther Rimet, no Brasil há uma cultura de que a saúde mental não é importante. E essa ideia precisa ser superada.

Conforme Carmen, a ideia que algumas pessoas têm de que questões emocionais podem ser superadas sozinhas é errada. O apoio é essencial:

– Na depressão, por exemplo, a pessoa precisa de uma força que ela não tem para coisas simples, como sair da cama. É uma doença muito incapacitante.

Carmen, que também é coordenadora do Centro Integrado de Psicologia da Feevale, concorda que os quadros de saúde mental irão aumentar ainda mais conforme a pandemia for passando. Por isso, é preciso estar atento a alguns sinais de alerta.

– Mudanças bruscas de comportamento, como tristeza excessiva ou deixar de fazer algo que a pessoa gostava muito. A necessidade de resolver pendências, como fazer testamento, ou doar coisas que a pessoa sempre teve muito apreço, se ligada com estes outros sentimentos, também pode apontar a necessidade de tratamento – pontua Carmen, referindo-se à depressão.

 
 
 
 
 
 
 
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