Para atender o filho autista, pai faz curso de barbeiro e passa a cortar o cabelo do menino em casa - Notícias

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Região Metropolitana17/06/2021 | 21h10Atualizada em 17/06/2021 | 21h10

Para atender o filho autista, pai faz curso de barbeiro e passa a cortar o cabelo do menino em casa

Vídeo do momento em que Augusto é atendido pelo pai viralizou nas redes sociais

Enquanto outros alunos buscavam um caminho, Michael Kratina, 32 anos, sabia exatamente qual seria o seu destino. O representante comercial dedicou parte do seu tempo em um curso de barbeiro, com um único objetivo: atender o filho, Augusto, que irá completar quatro anos no mês de julho. 

O menino é autista e deixou de frequentar o salão próximo de casa, em Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre, após um episódio que o traumatizou. Outra criança, atendida no mesmo horário, começou a chorar, fato que levou Augusto a uma crise de pânico. Incomodou a tal ponto que teve de deixar o local e, até hoje, sequer pode passar em frente ao prédio.  

— A gente nunca vai embora, nunca tira ele do ambiente e desiste. Tentamos reincluir ele na situação. Eu ajoelhei e expliquei que o menino estava com medo, que não era com ele, mas qualquer barulho já passou a incomodar mais — relembra o pai.  

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Na última terça-feira (15), Michael finalizou as lições que possibilitam o corte do cabelo de Augusto em casa. O curso durou cerca de duas semanas. No dia da última aula, o instrutor, Júlio Slaski, 27 anos, postou nas redes sociais um depoimento. Contou que a grande maioria de seus clientes busca uma nova profissão. No vídeo, disse ter chamado sua atenção, principalmente, o esforço do pai para dar mais qualidade de vida ao filho. E afirmou estar com um sentimento de dever cumprido. 

— Até que ponto a pessoa chega para fazer o bem, o bem da família dele — complementa o profissional da N6 Barbearia.

A gravação do menino sendo atendido pelo pai não tem qualquer momento da tensão descrita no passado, dentro da barbearia. Ele acompanha atentamente o tablet, sentado em uma cadeirinha instalada na varanda da residência. Tranquilo, ouve uma canção infantil, visivelmente sem se importar com o pente e a tesoura. O pai sorri para o único e mais importante cliente que teve ou terá. 

— A gente se emociona. Ele lutou muito para estar com a gente. Fez muito esforço. E a gente luta muito para dar o melhor para ele sempre. Não tem o que eu não faça pelo Augusto — complementa o barbeiro amador, no melhor sentido da palavra. 

Assista ao vídeo:

Quando diz que o filho batalhou para estar junto dos pais, Michael remete à gravidez. Gabriele Vargas teve o parto aos seis meses de gestação — Augusto nasceu com 950 gramas. Ela teve de interromper a faculdade de Educação Física para se dedicar à maternidade, sua ocupação principal até hoje, aos 30 anos. Garante, no entanto, ter ganho outros ensinamentos. 

— Aprendemos com ele diariamente. O Augusto é uma faculdade de vida, de amor, de tudo. Qualquer coisa que vamos fazer, a gente não sabe se vai ser concluída. Ver ele cortando o cabelo com o pai é emocionante demais — define. 

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O garoto passa por uma série de tratamentos para desenvolver a fala e outras funções motoras. Faz fisioterapia, acompanhamento psicológico e terapia ocupacional. Porém, o alto custo impede que os pais paguem os R$ 11 mil em tratamentos necessários para ele alcançar a evolução máxima definida pelos neurologistas — em torno de 20% desse valor é despendido pelo casal mensalmente.   

Em casa, além dos momentos de atenção plena dedicados pela mãe, o menino tem outra fonte de energia: assustadora para quem não conhece, dócil ao primeiro contato, a pitbull Margot rola no chão e aceita os carinhos de quem se aproxima. Vira de barriga para cima e estende a pata em direção ao garoto. As palavras, ainda não formadas, saem de Augusto em forma de gritinhos, certamente agradecimentos pelo cuidado da família. 



 
 
 
 
 
 
 
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