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Elogios e críticas13/07/2021 | 21h14Atualizada em 13/07/2021 | 21h14

Como é a vida no novo lar dos moradores que deixaram a Vila Nazaré para a ampliação da pista do aeroporto

Condomínios populares nos bairros Sarandi e Mario Quintana receberam as 1.011 famílias reassentadas  

Jéssica Rebeca Weber
Jéssica Rebeca Weber

jessica.weber@zerohora.com.br

Com suas casas demolidas para viabilizar as obras de ampliação da pista do Aeroporto Internacional Salgado Filho, os moradores da Vila Nazaré se habituam ao novo lar em dois grandes condomínios populares de Porto Alegre. Ao todo, 343 famílias foram reassentadas no loteamento Senhor do Bom Fim, no bairro Sarandi, e 668 no Irmãos Marista, no bairro Mário Quintana. Ambos foram construídos através de recursos federais, por meio do Programa Minha Casa, Minha Vida.

GZH visitou os dois espaços nesta terça-feira (13), um dia após a última família se mudar para permitir o avanço das obras da Fraport, que administra o terminal aeroviário da Capital. 

Embora tenha gente faceira com a moradia nova e a infraestrutura dos condomínios — incluindo iluminação pública, coleta de lixo e o calçamento das ruas —, a satisfação não é unanimidade. Há quem relate problemas estruturais, infiltrações e saudade do lugar onde criou vínculos.

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O loteamento Irmãos Maristas é um dos maiores complexos de habitação popular de Porto Alegre: tem 1,2 mil apartamentos de 40 metros quadrados, em prédios de cinco andares, e 98 casas de 37 metros quadrados. Ainda está recebendo moradores de outras comunidades, como Parque Chico Mendes, Jardim das Cachoeiras e Vila Pepino, mas quando sua ocupação for concluída, deve abrigar cerca de 5 mil pessoas. Há 230 municípios gaúchos com população inferior a isso.

A área terá duas praças e uma unidade básica de saúde, que ainda não foram construídas. A prefeitura confirmou que construirá o posto de saúde, com investimento de R$ 2 milhões, mas o secretário municipal de Habitação e Regularização Fundiária e diretor-geral do Demhab, André Machado, destaca que, conversando com lideranças locais, se optou por priorizar a abertura de uma escola de Educação Infantil.

— Entendemos que a demanda urgente era a creche — afirma.

A creche com capacidade para 120 crianças chegou a ser construída em 2014, antes de sair o loteamento, mas não abriu as portas. Vandalizada, com paredes quebradas e infiltração, está tendo as obras bancadas pela Fraport. A previsão é de que elas fiquem prontas até outubro.

A dona de casa Beloni Marion Machado, 57 anos, morou por 40 anos na Nazaré e está há pouco mais de um no loteamento Irmãos Maristas. Chegou a chorar quando deixou sua casa, porque adorava sua vila, mas não sente saudade nenhuma da água que invadia a sala quando chovia demais. No novo endereço, que divide com a mãe de 80 anos e o filho de 15, não há alagamentos.

— Está tudo bem aqui. O lugar é a gente que faz — diz ela, com um sorriso.

Mas a moradora de outro prédio, Solange Aparecida Machado, reclama do mofo que mancha a parede. Ela conta que pintou com tinta para esconder, mas não resolveu o problema. A queixa de Fernanda da Silva Andrade, 34 anos, é relacionada a trabalho: ela é recicladora e utilizava o pátio de casa para o serviço na Vila Nazaré, coisa que não tem como fazer no apartamento novo.

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Machado destaca que é prioridade da prefeitura a construção de uma unidade de reciclagem de lixo nas imediações do Irmãos Maristas.

— Já buscamos uma área do Demhab para a unidade. Em pouco tempo, teremos ela funcionando provisoriamente — diz, sem delimitar prazo.

Já no loteamento Senhor do Bom Fim, havia a promessa de construir um centro comercial, para que os moradores pudessem abrir seus pontos de comércio. Mas não há hoje previsão orçamentária para isso — Machado diz que a prefeitura busca parcerias.

Nas esquinas das ruas, há 16 pequenos prédios para receber os comerciantes da Vila Nazaré. GZH encontrou apenas o bazar da Jocelia Raquel Figueiredo, 45 anos, funcionando. Ali ela vende panos de prato, roupa, calcinhas, arranjos de flor, edredons e outros artigos, isso desde o mês passado, quando recebeu a chave. Mas ela já havia se mudado para o loteamento há dois anos.

— Fiquei esse tempo todo sem ganho. A escola do meu filho, que tem autismo, que me ajudava com cestas básicas — conta.

A Secretaria de Habitação informa que está trabalhando para liberar os pontos de comércio dos dois loteamentos — no Irmãos Maristas, há 47. Machado relata que falta ainda instalar extintores de incêndio, fazer pintura e outros "pequenos detalhes de acabamento" para que os bombeiros façam a vistoria e autorizem as operações.

O vigilante aposentado Roni Escalant Franco, 77 anos, está satisfeito demais com sua casa de dois quartos, com cozinha e sala conjugados. Ele divide a moradia com uma amiga, que encheu o pátio de rosas e amores-perfeitos.

— Está 100% melhor — diz.

Cadeirante, ele tinha grande dificuldade de se locomover na Nazaré, em razão do chão batido esburacado, enquanto há calçamento em todo o Senhor do Bom Fim.

Já Eva Terezinha da Luz Linhares, 55 anos, que mora em apartamento, tem outra perspectiva. Ela mostrou à reportagem o gesso que caiu, provavelmente em razão de uma infiltração no apartamento superior. Também relata que o cheiro é insuportável quando o vizinho de cima usa o banheiro:

— Faço bico de faxina, lavo lixeira, varro rua. Não tenho dinheiro para arrumar isso, vai ser sempre assim.

GZH pediu contraponto sobre os problemas estruturais à Caixa Econômica Federal, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

 
 
 
 
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