Sapatilhas de balé doadas a projeto de Alvorada são esquecidas em carro de app: "Crianças ganhariam calçados novos pela primeira vez" - Notícias

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Em busca do motorista31/05/2022 | 20h57Atualizada em 01/06/2022 | 09h01

Sapatilhas de balé doadas a projeto de Alvorada são esquecidas em carro de app: "Crianças ganhariam calçados novos pela primeira vez"

 A professora Cristiane dos Santos Ataya deixou o material no porta-malas do veículo na última quinta-feira

Sapatilhas de balé doadas a projeto de Alvorada são esquecidas em carro de app: "Crianças ganhariam calçados novos pela primeira vez" Tiago Boff / Agencia RBS/Agencia RBS
Os pares usados atualmente pelos alunos estão desgastados Foto: Tiago Boff / Agencia RBS / Agencia RBS

Vinte pares de sapatilha de balé, ensacados e sem qualquer marca de uso, tinham como destino as crianças do projeto Mãos do Futuro, de Alvorada, na Região Metropolitana. Só que na manhã da última quinta-feira (26), os acessórios acabaram esquecidos no porta-malas de um carro que faz transporte por aplicativo, em corrida que teve início no Centro Cultural 25 de Julho, no bairro Auxiliadora, em Porto Alegre — a escola é parceira na iniciativa e doou os calçados. 

— Um aluno estava um pouco enjoado, eu desci correndo do carro e a sacola ficou no porta-malas — conta a professora Cristiane dos Santos Ataya, 45 anos, idealizadora do projeto.

A viagem no veículo de transporte por aplicativo ocorreu próximo ao meio-dia da última quinta-feira. Ficaram no porta-malas ainda outras três sacolas com roupas e pacotes de arroz, massa e mais alguns alimentos. Pelo chat da plataforma, a usuária do aplicativo tentou contato, mas não teve sucesso.

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Somado, o valor dos calçados é estimado em R$ 1 mil. Para a voluntária, recuperar as sapatilhas tem outro valor: 

— As crianças ganhariam calçados novos pela primeira vez.

Nas mãos ela mostra os pares utilizados atualmente, desgastados e encardidos.

Publicação circula 

A professora acredita que o condutor não tenha se dado conta que as sapatilhas ficaram no porta-malas. Outra hipótese é a de que, pela distância, o motorista tenha desistido de voltar ao endereço, pois teria prejuízo pelo tempo perdido e combustível que seria consumido.

Uma publicação, com os dados do carro, foi feita nas redes sociais do projeto (@projetomaosdo) e também circula na página de vizinhos e admiradores do trabalho.

O veículo é um Versa, de cor branca, e o motorista no histórico de corridas é Éverton, com nota cinco estrelas na plataforma. A boa avaliação do perfil aumenta a esperança de que os itens não foram recuperados por um desencontro.

— Talvez ele nem tenha visto. E se não puder trazer até aqui, pode deixar lá no Centro 25 de Julho ou fazer contato comigo que a gente dá um jeito, tem gente se prontificando a buscar — complementa a professora.

100% voluntário 

O Mãos do Futuro funciona na garagem da casa da professora. Desempregada desde o início da pandemia, a professora precisou usar seu auxílio emergencial para não deixar os estudantes desassistidos, como contou reportagem do DG em novembro do ano passado.

O projeto, registrado como associação com intuito educativo, mantém as portas abertas graças a solidariedade: a mestre em capoeira não cobra nada, o produtor rural vende frutas com desconto e até um jogador do futebol europeu empresta seu vocabulário para ensinar espanhol para a molecada.

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— Esporte, cultura, educação, isso tudo salva. Eu, que saí da vila, quando imaginaria que poderia estar ensinando outro idioma? — diz Wellington Luís, 27 anos, goleiro do Almería.

Em visita ao Brasil, na manhã desta terça-feira (31), o defensor foi até a sede da associação, corrigiu cadernos dos "chiquititos" e ensinou um pouco mais do idioma. Vindo das categorias de base do Inter, o atleta se mostra motivado pela causa em especial quando relembra o seu próprio início, época em que ganhou o apelido pelo qual é conhecido: Quindim.

— Sou da Quinta do Portal, lá na Lomba (do Pinheiro) e na época eu treinava com um uniforme todo amarelo, feito pelas mães — ri, complementando: 

— O que a Cris faz aqui é incrível. É transformador.

Ajuda começa a chegar espontaneamente  

As idas até a escola de balé ocorrem, em média, uma vez por mês. A maior dificuldade para deixar Alvorada é bancar o deslocamento: cerca de R$ 35 cada viagem, total que dobra se considerada a ida e a volta.

Ao vivo no programa Timeline, da Rádio Gaúcha, a professora fez um apelo em busca dos pertences. Minutos após divulgar o número de celular, pelo qual também recebe contribuições via Pix, chegou uma mensagem especial.

— Olha só, essa senhora disse: “Só tenho R$ 19,61 na conta”. E ela doou exatamente R$ 19,61. Vai pagar uma caixa de banana que dou de lanche — sorri, emocionada.

 
 
 
 
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