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Direto da Redação

Guilherme Freling: Perdi a melhor história da minha vida

Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano

18/02/2026 - 05h00min


Guilherme Freling*
Guilherme Freling*
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Agência RBS/Agência RBS
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Outro dia aproveitei o Porto Verão Alegre para assistir à peça Colapso e Destruição da Cidade de Porto Alegre. Era para ser só uma ida ao teatro, mas descobri que perdi a maior história da minha vida. Tenho certeza que seria muito lida, as pessoas adorariam, e eu sairia como um explorador do cotidiano dessa cidade.

A tragédia começa em algum momento de 2022. Eu dava uma de sacola vazia e deixava o vento me guiar pelo Centro. Entrei em uma livraria ainda desconhecida e que cheirava a novidade, apesar das lombadas amarelas, na Borges. Achei curioso o nome – Absurda – e puxei papo com a atendente. 

Ela explicou: absurda era a ideia de abrir uma livraria hoje em dia. Soltei aquele arzinho cúmplice do humor e concordei. "Baita história, vou fazer uma reportagem sobre isso", pensei. Como quem não quer nada, a moça também comentou que o dono era escritor, mas sobre isso não fui tão generoso. Zombei internamente: "Todo mundo acha que é escritor". 

O tempo passou, e eu fui deixando aquela pérola pra trás. Vez ou outra lembrava do lugar, mas achava que não era o momento de voltar.

Pois bem, antes de entrarmos no teatro, o diretor do grupo reuniu a plateia e começou a explicar: a peça era uma reunião de escritos montada especialmente para a Cia. Espaço em Branco. O autor, Julio Zanotta, morto em 2024, era um dos maiores escritores e dramaturgos do RS, quiçá do país e do mundo. Tinha deixado como legado uma obra imensa. Também como quem não quer nada, comentou sobre uma livraria que Julio abrira. Era a Absurda. 

Na hora, o colapso foi meu. Escanteei aquela história por anos. Lembrei da minha falta de sensibilidade com o detalhe sobre o dono. O nome da livraria já valia a pauta, mas mais legal teria sido descobrir – e contar pra todo mundo – que ela pertencia a um gênio. Daqueles de se orgulhar de conhecer. Perdi a história, perdi de contá-la e, pior de tudo, perdi de conhecer o Julio. Quem sabe eu encontre uma livraria "Disparate" por aí.




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