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Gabi Valente inaugura em Porto Alegre a primeira sede da Escola da Diarista

Nas sextas-feiras, o colunista Émerson Santos escreve sobre educação, cultura, inovação e toda a diversidade presente nas comunidades

22/05/2026 - 08h00min


Émerson Santos
Émerson Santos
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A primeira sede da Escola da Diarista não poderia ser diferente. Um espaço com cara e espírito de casa.  

— Eu sabia que poderia fazer mais turmas, alcançar mais mulheres, ampliar o ensino, fazer mais. Para poder realizar tudo isso, eu precisava de um lugar meu. Esse sempre foi um sonho. 

Este relato é de Gabi Valente, uma mulher, cria da Restinga, que é muitas ao mesmo tempo: empreendedora, palestrante, mãe, professora e uma apaixonada por impactar positivamente a vida de outras pessoas. E esse sonho a que ela se refere é a inauguração de um espaço próprio que conquistou para a Escola da Diarista (Rua Nobuko Kiriyama 2.105), projeto que oferece qualificação gratuita para profissionais da sua área. O espaço abre suas portas oficialmente no sábado (22), a partir das 10h. 

Trajetória em construção 

O caminho para chegar até a realização desse grande sonho vem de longe. Gabi cresceu em uma família de domésticas. Mãe e tias exerceram essa profissão. Ela explica que, ao longo da vida, atuou em diferentes serviços, tendo as faxinas apenas como uma renda extra. Mas isso muda em 2019. 

Moradora da zona sul de Porto Alegre, naquele ano atuava como recepcionista no outro lado da cidade. Diariamente, saía da Restinga e atravessava a Capital até chegar à Zona Norte, em um trajeto de duas horas dentro de ônibus.  

— Estava me desgastando muito. E eu já estava com aquela sensação de que estou ficando velha. E o que eu tenho de demais na minha vida, o que eu faço de diferente, o que eu faço de legal, que profissão eu tenho? Estava me sentindo muito sem direção — relembra. 

Na época, estava com 36 anos. Tomou a decisão ousada de pedir demissão do emprego com carteira assinada e focar na atuação como diarista. Foi um gesto arriscado, mas de coragem. O marido estava desempregado e tinha duas crianças em casa. Mas, para se firmar na área, Gabi investiu em qualificação:  

— Eu precisava entender mais do meu trabalho. Não podia ser só uma vassoura, uma clorofina e um detergente. Tinha que ter alguma coisa a mais. 

E assim vieram os cursos de limpeza, de revestimentos, de higienização de vidro, formações sobre tipos de produto e diversos outros conhecimentos técnicos. Também estudou sobre o processo de 

formalização de um microempreendedor individual (MEI), noções de empreendedorismo e como se manter como profissional autônoma. Esse esforço todo deu resultados. 

Uma virada em seu percurso

Foi na pandemia, pouco tempo após ingressar na vida de empreendedora, que Gabi Valente escutou um relato que lhe afetou profundamente. Uma outra faxineira, colega de profissão, deu uma entrevista para a Rádio Gaúcha relatando dificuldades para manter a família: 

— Falando que estava sem nada para comer, porque todas as clientes tinham dispensado ela. Então, ela ia para a sinaleira para tentar conseguir uma marmita, qualquer coisa para ela e para os filhos. Eu consigo manter o mínimo da dignidade na minha casa, e essa mulher tem que estar indo pedir um prato de comida na sinaleira. 

Esse caso a jogou em uma reflexão profunda. Ambas com a mesma atuação, mas em situações completamente diferentes. Isso a mobilizou a querer ajudar outras mulheres. Entendeu, então, que foi o fato de ter adquirido conhecimentos para além de panos molhados e vassouras o que deu a ela um diferencial no mercado. Decidiu passar para as colegas esses saberes e, assim, fundou a Escola da Diarista.

A empreendedora conta que sua mãe trabalhou como doméstica por 50 anos. Por essa relação próxima com o universo da faxina, Gabi cresceu sem nenhuma visão negativa para a profissão. 

— No Brasil, se pensa que só é diarista quem não teve chances, quem é semi-analfabeta, quem não teve a oportunidade de fazer mais nada. É assim que as pessoas enxergam. E eu enxerguei diferente desde o início.

O braço social do seu negócio 

 Foi a partir da limpeza de residências que ela realizou sonhos. E, para que outras mulheres também alcançassem suas autonomias financeiras, reuniu pela primeira vez uma turma em 2023 e deu início à Escola de Diarista. O projeto ajuda essas profissionais com o ensino de técnicas que aprimoram suas habilidades, mas, para além disso, auxilia na autoestima e na construção de um olhar empreendedor. 

De lá para cá, diversos grupos se formaram. E, com a nova sede, o trabalho será ampliado. Antes, as aulas ocorriam em espaços emprestados. Agora, de largada, já serão três turmas simultâneas. Gabi conta com uma equipe de voluntárias que ajuda nas formações. Terá até aulas de marketing e acompanhamento psicológico para as alunas. Tudo gratuito. 

— Tenho alunas que fazem hoje R$ 13 mil por mês. Alunas que largaram um casamento em que elas apanhavam. Mulheres que se mudaram de bairro, alugaram casa, voltaram a estudar, compraram carro. E essa é a minha missão de vida, fazer as pessoas enxergarem o valor do trabalho, da limpeza.

Novas turmas

  • O novo espaço abre suas portas já com novidade: o projeto terá três novas turmas, com início marcado para o dia 6 de junho. Será aos sábados, das 14h às 18h; e nas terças-feiras, das 8h às 12h e das 19h às 22h. 
  • As alunas recebem, ao fim do curso, um kit com produtos e equipamentos durante uma cerimônia de formatura. 
  • Todas essas diaristas farão parte de um cadastro, no site da Gabi, onde clientes que desejem ter acesso a essas profissionais formadas poderão localizá-las e fazer o contato direto com elas. 
  • Também dá para acompanhar o trabalho da Gabi Valente pelo Instagram @gabivalentesolucoes.

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