Direto da Redação
Elisa Heinski: "Perder-se também é caminho"
Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano


Há alguns anos, fiz minha primeira tatuagem. A decisão foi tomada no auge da rebeldia juvenil de quem a recém tinha completado 18 anos e esperava ansiosamente essa data para se sentir “livre”. Aproveitei e coloquei dois piercings nesse período também. Um deles não tenho mais. Nessa época, não tinha medo de não gostar. Tinha medo de poucas coisas.
Mas a questão foi a frase que eu escolhi pra riscar permanentemente minha pele, depois de muitos “tem certeza?” da minha mãe: “Perder-se também é caminho”, escrito pela Clarice Lispector. Nem lembro como encontrei esse dito, só sei que acertei ao eternizá-lo. Tem gente que se arrepende da primeira tatuagem, e das decisões que tomou no início da vida adulta. Eu não.
Boa vida
Desde quando desembolsei uns bons pilas pra sentir a dor da agulha pigmentando meu braço pela primeira vez, me perdi muitas vezes. Eu diria que, na verdade, ainda estou um pouco perdida. Mas que se encontrar é superestimado. Do caos também emergem coisas lindas.
Aqueles momentos em que mais me senti sem rumo, sem saber para onde ir, foram quando ocorreram as mais incríveis mudanças na minha rotina. De uma incerteza profissional, surgiu um novo trabalho. De uma solidão sem fim, uma paixão. De um problema de saúde, novos hábitos.
Não conseguir encontrar uma direção imediata, apesar de ser angustiante, não é de todo ruim. Às vezes, é apenas a vida dizendo que precisamos respirar fundo e nos reconectar com a nossa essência, nossos valores e com quem queremos ser no futuro. É ter coragem para ressignificar atitudes e se entregar à metamorfose.
Na semana passada, fiz mais duas tatuagens. Agora, tenho cinco, no total. Dessa vez, minha mãe nem questionou. Além de uma borboleta no ombro, rabisquei um “boa vida” no antebraço. Uma música do Cazuza que muito fala sobre esperança. Afinal, depois de encontrar um caminho no meio da incerteza, a vida fica boa. E boa demais.