Situação crítica
Com pacientes nos corredores, UPA Moacyr Scliar opera quatro vezes acima da capacidade em Porto Alegre
Reportagem teve acesso às alas internas e constatou pacientes sendo monitorados e medicados em macas e poltronas improvisadas

Com capacidade para 17 leitos, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Moacyr Scliar, na zona norte de Porto Alegre, atendia 54 pessoas às 9h desta sexta-feira (7). Uma hora depois, o número subiu para 68, ou seja, quatro vezes acima do que o local está preparado.
Na recepção da unidade, um aviso fixado no vidro informa aos usuários que o local enfrenta superlotação e não tem previsão de novos atendimentos. Apesar do comunicado, pacientes seguem sendo recebidos e classificados conforme o grau de gravidade. A estrutura, no entanto, precisa ser improvisada para dar conta da alta demanda.
Outros três pronto atendimentos da Capital também enfrentam superlotação. Segundo o painel de atualizações da prefeitura, as unidades da Lomba do Pinheiro, Bom Jesus e Cruzeiro do Sul operavam com capacidade acima de 300% nesta manhã.
A reportagem teve acesso às alas internas e constatou pacientes sendo monitorados e medicados em macas e poltronas improvisadas pelos corredores, além de salas que serviam para outras funções, como a área para administração de medicações, que está sendo dividida com internados.
O espaço que deveria servir para casos de isolamento também passou a ser utilizado, não havendo mais um lugar específico para este tipo de atendimento.
— A classificação de risco menos urgente a gente tem uma previsão de tempo maior para atendimento. Então a orientação é que, em dias úteis, das 8h às 17h, as pessoas procurem seus postos de saúde ou a UPA do seu município. A classificação laranja, que é mais urgente, a gente consegue fazer entre 15 e 30 minutos — esclarece o gerente da UPA, Jesse James Selistre.
Selistre explica que os 54 pacientes atendidos às 9h, 18 eram da Região Metropolitana — metade deles de Alvorada. A procura por moradores de outros municípios, somada à dificuldade de encaminhamento para hospitais, são os maiores desafios no momento, segundo ele:
— Tem vários fatores que, juntos, causam a superlotação. O primeiro deles é a falta de leitos no município, que causa a demora na liberação desses leitos nos hospitais de retaguarda, e esses pacientes que deveriam ficar 24 horas acabam ficando dois, três, cinco, sete dias conosco. O segundo fator é a questão da Região Metropolitana, principalmente Alvorada, junto de Cachoeirinha, Gravataí e Viamão, os habitantes desses municípios optam em vir para a UPA Moacyr Scliar em vez de usar a UPA do seu município — explica Selistre.
O gerente ainda elenca a demora do Estado para contra regular os pacientes que estão internados para retornar às suas regiões e o fechamento de outras emergências em hospitais, que restringem as opções de atendimento e sobrecarregam a unidade.
— Paralelo a isso as emergências fechadas na cidade de Porto Alegre acabam empurrando esses usuários que não correm risco de morte para serem atendidos na UPA, então a UPA se tornou uma das poucas portas de entrada no sistema único de saúde. Os hospitais que deveriam ser retaguarda da UPA. Hoje a UPA é o lugar onde os hospitais respiram um pouco deixando os pacientes alguns dias até se organizarem internamente — observa.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria Estadual de Saúde e aguarda posicionamento. O espaço está aberto para manifestações.
Já a Secretaria Municipal de Saúde se manifestou através de uma nota (leia a íntegra abaixo), salientando que a procura aumenta com pacientes que não apresentam casos de maior gravidade e devido ao fechamento de atendimentos na Grande Porto Alegre.
Nota da Secretaria Municipal de Saúde
“A Secretaria Municipal de Saúde informa que a procura pelos prontos-atendimentos da Capital e UPA Moacyr Scliar tem sido motivada por uma ampla variedade de sintomas clínicos, respiratórios, digestivos, cardiovasculares e dermatológicos.
No entanto, observa-se que muitos desses casos são de menor gravidade e poderiam ser atendidos nas unidades de saúde, evitando a sobrecarga dos serviços de urgência e emergência. Os prontos-atendimentos são destinados prioritariamente a situações de urgência e emergência, seguindo o Protocolo de Manchester, que classifica a gravidade dos pacientes e garante que os casos mais graves sejam atendidos primeiro. Diversas unidades de saúde contam com horários diferenciados, entre 18 e 22 horas. Os canais do 156 ajudam a esclarecer dúvidas.
Os leitos clínicos de enfermaria são os mais demandados pela UPA e pelos PAs, e a taxa de ocupação de 90% indica que a maioria dos leitos está ocupada, resultando em dificuldades para acomodar novos pacientes e aumentando o tempo de espera.
Cabe ressaltar que a demanda aumentou ainda mais com o fechamento de serviços na região metropolitana, fazendo com que as pessoas procurem a Capital. Mais de 40% dos atendimentos da UPA Moacyr Scliar são da Grande Porto Alegre e outros mais de 15% nos demais prontos atendimentos (Cruzeiro do Sul, Bom Jesus e Lomba do Pinheiro)”.