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Longa espera

Filas por consultas e exames pelo SUS atingem maior patamar em quatro anos na Capital  

São 206 mil solicitações para atendimentos com especialistas e 167 mil para testes. Dados da SMS apontam a oftalmologia e a radiografia simples como as áreas com maior demanda 

02/04/2025 - 10h04min

Atualizada em: 02/04/2025 - 10h04min


Lisielle Zanchettin
Lisielle Zanchettin
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André Ávila/Agencia RBS
Cristiane Nobles aguarda por exames pelo SUS.

O número de pessoas que esperam por consultas e exames pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Porto Alegre atingiu o maior patamar em quatro anos. Dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), disponíveis no Portal da Transparência, mostram que em fevereiro de 2025 a fila para consultas somava 206 mil pedidos e para exames, 167 mil. A espera para atendimento pode chegar a 2 mil dias.   

A espera por atendimentos é um desafio histórico da administração da Capital, que atualmente também enfrenta cenário de superlotação na saúde pública. Os dados do setor de transparência apontam que 206.267 pedidos de consultas especializadas estão em aberto. O montante inclui consultas médicas e odontológicas. 

Desse total, 18.108 são de pacientes de outras cidades. Na comparação com fevereiro do ano passado, o aumento no número de solicitações é de 19,6%

Em relação aos exames, os dados também preocupam, já que são essenciais para diagnósticos e definições de conduta e tratamentos. São 167.305 pedidos entre exames simples e outros mais complexos. 

Conforme análise dos dados, a partir de outubro de 2021 o número de encaminhamentos para consultas ultrapassou os 100 mil. Em relação aos exames, o crescimento é visto a partir de 2022, quando o número saltou de 65 mil para mais de 100 mil solicitações. 

Oftalmologia apresenta a maior demanda 

No cenário atual, a maior demanda é para atendimento com oftalmologistas. A situação se repete desde janeiro de 2021. Nesta área são 14 tipos de especialidades – como glaucoma, catarata, pediátrica e córnea – com tempos de espera distintos. Somando todas, são 47.766 pedidos por consulta na área de oftalmo, o que representa 23,1% do total de solicitações. 

A oftalmologia geral adulta possui 35.101 pedidos em aberto. O salto é de 91% em relação ao mesmo período do ano passado, quando 18.286 pessoas aguardavam por uma consulta. Se analisado, o acumulado se explica. Enquanto 2.561 novos pedidos entraram na fila em fevereiro, 988 atendidos foram ofertados.

Em relação ao tempo de espera para o atendimento geral, os casos considerados de "baixa complexidade" levam até 515 dias, ou seja, o paciente aguarda até um ano e cinco meses para ter o atendimento necessário. Na fila para uma consulta com especialista de estrabismo a espera chega a 2.037 dias – cinco anos completos. Atualmente, 2.880 pedidos aguardam atendimento. 

A demora ainda é vista nas solicitações para neurologista e nutricionista. Na área de neurologia, são 7.625 solicitações de adultos. Em fevereiro, 524 novos pedidos entraram no sistema e 219 consultas foram realizadas. A neurologia pediátrica tem um cenário parecido: são 3.321 solicitações de crianças que aguardam por atendimento do especialista na área. 

É o caso do Arthur, um menino de 8 anos, que espera desde agosto de 2024 uma consulta com o especialista. A criança, que mora no bairro Partenon, na Capital, passou por uma avaliação com um neurologista do Hospital da Criança Santo Antônio. O pedido do médico era para que ele retornasse em novembro, o que não ocorreu. 

A avó paterna, Bernadete Silveira, entende que o caso de Arthur devia ser prioridade. O menino, que já passou por transplante renal, investiga um quadro de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, além do espectro autista. 

— Já fui na secretaria de saúde e na ouvidoria, mas nada adianta. Já são mais de 200 dias de espera por uma consulta urgente para o diagnóstico do meu neto. A gente fica de mãos atadas, sem saber o que fazer — contou a avó. 

A solicitação entrou na longa fila da prefeitura e segue sem andamento. No portal "Minhas consultas e exames no SUS", o caso está elencado como prioridade amarela e com tempo médio de espera em 421 dias

— Ele precisa passar pelo neurologista para receber um tratamento e medicação. Isso vai melhorar a qualidade de vida e desenvolvimento. Meu neto não consegue ficar em uma sala de aula devido à Hiperatividade. 

Já a diarista Lucia Dias, 46 anos, moradora do bairro Cascata, consultou pela primeira vez com o especialista em joelhos em setembro de 2024. O retorno, no entanto, foi agendado para janeiro de 2025, mas a consulta não aconteceu. Isso porque o retorno foi remarcado para o próximo ano. 

— Dias antes da consulta, me encaminharam uma mensagem pelo WhatsApp informando que a consulta havia sido remarcada para 2026. Eu cheguei a pagar um exame para tentar agilizar e facilitar quando voltasse com o médico, mas pelo visto, não vai adiantar. As dores estão atrapalhando meu trabalho, mas não tenho o que fazer — contou. 

Segundo a SMS, em casos de menor gravidade, a espera por uma consulta com o ortopedista especialista em joelhos pode chegar a 238 dias. A espera da diarista deve levar o dobro.

58 mil solicitações para exame

Dos 167.305 pedidos em aberto para exames pelo SUS, 58.028 são de radiografia (raio-X) simples. Em fevereiro, mais de 11 mil solicitações foram feitas junto à prefeitura. Já a oferta do município foi de 5.910. 

A tomografia computorizada possui maior precisão do que uma radiografia normal e por isso, também possui grande demanda junto ao SUS. São 20.453 pedidos em aberto para a realização do exame. Em casos considerados de "alta prioridade", o tempo de espera é de duas semanas. Mas, em casos de menor gravidade, o número aumenta para 410 dias. 

Entre as maiores demandas também está a colonoscopia. O exame que avalia o intestino é utilizado principalmente para diagnóstico de doenças que causam dor, diarreia e sangramento intestinal, inclusive doenças malignas. Porto Alegre tem 19.753 solicitações aguardando andamento e uma delas é da faxineira Cristiane Nobles, 42 anos. 

A moradora do bairro Cavalhada foi encaminhada pela médica da Unidade Básica de Saúde em 8 de janeiro de 2024 para a fila da realização do exame e desde então, aguarda ser chamada.

— Na minha família tem alguns casos de câncer e eu tive alterações em outros exames. Por isso, a médica pediu a colonoscopia. Eu fico nervosa, ansiosa e angustiada. Na minha situação, eu não sei se é algo sério ou não. E se for sério, será que vou estar viva quando me chamarem para o exame? — questiona. 

Além da espera pela colonoscopia, Cristiane aguarda uma consulta com reumatologista. O pedido, enviado pelo posto em fevereiro, não consta no sistema de saúde da Capital. 

Durante o mês de fevereiro foram ofertados 207 exames de colonoscopia, enquanto 785 pedidos se somaram à fila. Conforme os dados da SMS, o tempo médio de espera para casos de alta prioridade chega a 515 dias.

O que diz a Secretaria Municipal de Saúde 

Procurada pela reportagem de Zero Hora, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) afirmou em nota que segue avançando na ampliação da rede hospitalar e na redução das filas com ações concretas. Entre as medidas, está a reabertura de leitos no Hospital Santa Ana, aumentando assim a capacidade de internação de média complexidade. 

Novos serviços para reduzir a fila da oftalmologia estão em implementação. Segundo a SMS, isso irá agilizar a demanda reprimida, junto da adesão ao Programa Mais Acesso a Especialistas, do governo federal.

Conforme a secretaria, Porto Alegre vive um cenário de superlotação devido ao volume de pacientes da Região Metropolitana e do Interior, o que pressiona a capacidade dos hospitais.

A situação foi pauta entre o governador Eduardo Leite e o prefeito Sebastião Melo. Na reunião, foram anunciadas medidas concretas para aliviar a pressão do sistema de saúde. As ações imediatas incluem a triplicação dos recursos destinados à unidade de queimados do Hospital de Pronto Socorro, elevando o repasse de R$ 3,6 milhões para quase R$ 10 milhões anuais e destinação de R$ 16 milhões para acelerar obras em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) da cidade. 

O que diz a Secretaria Estadual da Saúde 

A Secretaria Estadual da Saúde (SES) informou que acompanha as filas por exames e consultas da Capital. Segundo a SES, o RS foi o primeiro Estado a aderir o Programa Mais Acesso a Especialistas, que reduzirá o tempo de espera por consultas e oferecer tratamento integrado.

A SES afirma que o Estado aumentou 72% o valor repassado ao município em incentivos, criou o programa Assistir e retirou 20 especialidades referências de Porto Alegre. 


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