Primeira vítima
Corpo de jornalista morto na Revolução Farroupilha pode estar enterrado no Parque da Redenção
O legalista Antônio José da Silva Monteiro, conhecido como "Prosódia", foi morto por um golpe de lança em 19 de setembro de 1835


O corpo de um jornalista morto à véspera do começo da Revolução Farroupilha (1835-1845) pode estar enterrado onde hoje está situado o Parque da Redenção, em Porto Alegre. Trata-se de um episódio ocorrido no início do conflito, quando os legalistas, então comandados pelo Visconde de Camamu, foram surpreendidos pelos rebeldes na Ponte da Azenha.
O jornalista era Antônio José da Silva Monteiro, conhecido como "Prosódia". Havia fundado, em fevereiro de 1834, o jornal O Pobre, no qual atuou como redator. Entre 31 de janeiro de 1835 e a data de sua morte também lançou e foi redator no periódico O Mestre Barbeiro, publicação que criticava o Partido Farroupilha e tinha um formato diminuto — 11 centímetros por 16cm. Curiosamente, teve apenas 32 edições.
Natural do Estado, Prosódia morava no Beco da Ópera (atual Rua Uruguai) e era poeta. Foi Tenente Quartel-Mestre da Guarda Nacional. Por isso, integrava o grupo do Visconde de Camamu.
Na noite de 19 de setembro de 1835, os farroupilhas surpreenderam a defesa da cidade e colocaram os legalistas para correr. Na fuga, Prosódia caiu do cavalo. Um farrapo pensou ser um companheiro e foi ajudá-lo. Nesse momento, o jornalista disparou um tiro contra o rebelde. Mas errou o alvo.
O oponente acabou matando o legalista com uma lança, após o adversário oferecer resistência à captura. Ele teria sido a primeira vítima do combate. Não sabe-se qual era a sua idade.
Enterrado na Várzea

Em A Epopeia Farroupilha (1963), Walter Spalding escreve que o jornalista teria sido enterrado no centro da Várzea, como era conhecida a região do Parque Farroupilha naquela época.
A informação reproduzida por Spalding havia sido dada primeiro pelo historiador Alfredo Ferreira Rodrigues, fundador do Almanaque Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul e grande conhecedor da Revolução Farroupilha. O enterro teria ocorrido na madrugada de 20 de setembro.
Jornalista morto citado em crônica de 1884

O arquiteto e pesquisador Miguel Antônio de Oliveira Duarte, 70 anos, menciona a morte de Prosódia em seu livro Porto Alegre - Cartões-postais e crônicas (2022). O ex-diretor do Arquivo Histórico do RS afirma que há poucas referências sobre o jornalista e combatente da Guarda Nacional. Porém, o fato ocorreu:
— Interessante é que essa referência com relação ao Antônio José da Silva Monteiro aparece no jornal A Federação em 1884, no primeiro ano de publicação. Uma crônica em formato de folhetim, na primeira página inclusive, feita pelo Amaro Juvenal, pseudônimo do político Ramiro Barcelos. Em certa parte dessa crônica, que ele intitula A Barretina do Camamu, ele fala desse encontro na Ponte da Azenha e cita que o cadáver do Prosódia teria ficado na rua — detalha.
Segundo o pesquisador, que também atuou como secretário-executivo do Instituto Histórico e Geográfico do RS, a segunda referência sobre a morte do jornalista aparece em 1900 no Almanaque Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul de Alfredo Ferreira Rodrigues. Ele cita o que foi escrito:
— "(...) o Prosódia, que, na madrugada seguinte, foi enterrado no centro da Várzea".
Escaramuça sem testemunhas oculares

Conforme o historiador Sérgio da Costa Franco, em A Velha Porto Alegre (2015), o Parque Farroupilha ganhou a atual denominação em 1935, quando foi urbanizado e ajardinado. Antes foi chamado de outras maneiras, como Várzea do Portão, Campo do Bom Fim e Campo da Redenção.
Miguel Duarte diz que não se conhecem memórias de testemunhas oculares da escaramuça da Ponte da Azenha, mas o pesquisador acredita que Prosódia teria sido a primeira vítima da Revolução que se estenderia por uma década.
— Acho que foi o primeiro, porque essa tomada de Porto Alegre acontece na madrugada de 19 para 20 de setembro de 1835 (quando o legalista foi morto) — conclui.