Papo Reto
Manoel Soares: "Tia da Cozinha"
Colunista escreve no Diário Gaúcho aos sábados


Na escola onde fiz os primeiros três anos de ensino fundamental, não me recordo muito bem do rosto da professora, mas me lembro de cada detalhe da tia da cozinha. Tia Margarida usava óculos de lente grossa e armação transparente, sempre com batom rosa e buço com gotas de suor por conta do calor da cozinha. Ela costumava me tratar como um maninho e não como um aluno, falava comigo sorrindo e perguntava coisas de casa, ria junto.
Eu sempre pedia para ir ao banheiro pouco antes do sinal do recreio para falar com ela antes da bagunça da galera começar no pátio. Com o tempo, nossos encontros começaram a ter um objetivo, o que talvez para mim foi a primeira chama de responsabilidade. Ela me pedia para experimentar o achocolatado antes de servir.
A professora me liberava antes para esse momento; hoje entendo que elas tinham um acordo. Eu não gostava de faltar à aula, pois para mim esse momento era um compromisso. Ela me fazia acreditar que eu era o provador oficial. Quando cresci mais, comecei a achar que ela me chamava para me dar uma caneca a mais de achocolatado, já que eu não levava lanche. Depois, quando soube que ela perdeu um neto afogado, entendi que aquela era a forma dela lidar com uma ausência que gritava dentro dela.
Me sentir útil
Eu, no começo, ia para ganhar minha caneca diária de delícia; depois entendi que eu ia para ganhar aquele amor, o sorriso, para me sentir útil. Tia Margarida me ensinou que respeito, amor e cuidado estão mais nas ações que nas palavras. Ela nunca disse “eu te amo”, mas demonstrou amor diariamente por mim. Ela poderia não ser uma professora na sala de aula, mas era uma educadora afetiva que, como muitas tias da cozinha nas milhares de escolas de nosso Estado, fazem meninos e meninas se sentirem mais confiantes e felizes.