Centro Histórico
Passageiros relatam achaques de "flanelinhas de pedestres" em frente à rodoviária de Porto Alegre
Forças de segurança e de assistência social afirmam monitorar entorno do terminal


Uma das portas de entrada de Porto Alegre, a Estação Rodoviária, vem sendo palco de uma rotina de achaques e abordagens consideradas invasivas. A frequência e a forma surpreendem até mesmo quem está acostumado a circular pelo espaço. Uma realidade que afeta, sobretudo, passageiros que desembarcam e aguardam corridas de transporte por aplicativo do lado de fora do terminal.
A reportagem de Zero Hora acompanhou por dois dias a rotina de passageiros que desembarcam na rodoviária (veja, mais abaixo, no vídeo e na galeria de fotos).
Para justificar as abordagens, pedintes tornaram-se uma espécie de "flanelinhas de pedestres". Um serviço não solicitado, que consiste no transporte das bagagens até os automóveis ou em uma ajuda para localizar o carro mediante cobrança. Para tentar conferir um verniz de serviço oficial, alguns pedintes usam coletes reflexivos.
— Depois que você sai do desembarque, eles já ficam te observando, a gente sente muita insegurança porque eles te seguem, principalmente por ser mulher — afirma Márcia Rodrigues, que frequenta rotineiramente a rodoviária para buscar familiares que vêm de Santa Maria.
A presença de pessoas em situação de rua no entorno da rodoviária da Capital não é uma novidade. Porém, a degradação vivida pelo 4º Distrito após a pandemia e a enchente parece ter agravado o problema, segundo os frequentadores.
— É muita gente pedindo. Às vezes, um fica bravo com o outro e até dá alguma briga entre eles. E a gente está aqui perto, daí tu tens medo disso — relata a aposentada Iara Amaral, 77 anos. Moradora de Tapes, a passageira costuma viajar para Porto Alegre até duas vezes por mês.
O que diz a rodoviária
A rodoviária de Porto Alegre registra uma média de 14 e 18 mil passageiros circulando por dia. Segundo a administração do terminal, a companhia tem pouco o que fazer do lado de fora.
— Nós temos uma responsabilidade permanente e um compromisso com a segurança. É um dos itens importantes da rodoviária. No entanto, a empresa privada que atua aqui não tem poderes para agir na calçada — afirma o diretor de operações da rodoviária, Giovanni Luigi.
A reportagem identificou que a circulação de pedintes é maior no ponto de embarque e desembarque dos motoristas por aplicativo. Já onde se concentram os táxis, a presença dos taxistas do lado de fora dos automóveis ajuda a coibir a circulação dos pedintes.
O espaço conta com câmeras de monitoramento. Apesar da sensação de insegurança relatada por quem circula, a direção da rodoviária diz não registrar episódios de violência contra passageiros no local.
— Aqui é um prédio público. Até por questões de direitos humanos, nós não podemos agarrar a pessoa e empurrá-la para a calçada. O que é feito é pedir que ele não faça isso, que ele se retire do terminal, e a grande maioria dessas pessoas, quando acontece isso, obedece — explica Luigi.
Autoridades monitoram
Para a Brigada Militar, a insegurança no entorno da rodoviária envolve mais uma percepção do que uma realidade. Segundo a corporação, o indicador de roubo a pedestre registra uma queda de 31% em 2025, na comparação ao mesmo período de 2024. Os dados compreendem a região de cobertura do 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM), responsável, entre outros, pela segurança no Centro Histórico e no bairro Floresta.
— Quando somos chamados, nós fazemos a abordagem e a identificação, especialmente se houver a perturbação da ordem ou o achaque que incomoda as pessoas. Se identificado esse tipo de conduta, a gente adota as medidas legais cabíveis. Em outras situações, a gente identifica também que são casos de vulnerabilidade social e nem sempre são delinquentes — explica o major Fabrício Jung Zaniratti, subcomandante do 9º BPM.
Conforme o subcomandante, a Brigada Militar conta com um reforço de 50% no policiamento nesta época do ano. A Operação Papai Noel, iniciada em novembro, tem o apoio de outros comandos para ampliar as patrulhas na área do Centro Histórico.

A Guarda Civil Metropolitana também participa de ações no entorno da rodoviária. Entre elas, estão abordagens em conjunto com a Secretaria Municipal da Assistência Social e suporte nos casos de chamados via totem de segurança, um dispositivo instalado em frente ao terminal.
— Podemos citar como um exemplo de ação desse totem quando uma família de marroquinos o acionou durante a madrugada porque foi assaltada naquelas proximidades. Isso mostra a grande utilidade dessa ferramenta — diz Marcelo do Nascimento, comandante da Guarda Civil Metropolitana.
Em nota, a Secretaria Municipal de Assistência Social (Smas) afirma manter "atuação permanente no entorno da Estação Rodoviária, com abordagens sociais, oferta de acolhimento e encaminhamento para serviços da rede de proteção". A ação é "preventiva e com foco na proteção e abordagem humanizada".
"A prefeitura de Porto Alegre segue monitorando a área e adotando medidas para garantir a organização dos espaços públicos, a segurança e o bem-estar da população", diz o comunicado.