Vale do Sinos
Após tratamento, cão comunitário atingido por tiro de policial em Campo Bom irá para adoção: "Extremamente dócil"
Negão, como é conhecido o cachorro comunitário, teve múltiplos ferimentos nas patas traseiras e deve ficar internado por uma semana


O cão comunitário Negão, que foi baleado por um policial militar na noite de terça-feira (27) em Campo Bom, no Vale do Sinos, segue internado em situação estável em uma clínica veterinária. Após o tratamento, ele ficará disponível para adoção.
Com idade estimada entre sete e oito anos, Negão já é um velho conhecido da comunidade do bairro Barrinha. Durante a enchente de 2024, o cachorro ficou 50 dias abrigado em um ginásio, onde outros quase 300 animais também foram acolhidos.
— Após a recuperação, a gente quer aproveitar que teve bastante visualização no caso e tentar conseguir um lar para ele. O Negão é um cachorro extremamente querido, dócil, calmo, tranquilo. Já tem uma certa idade e é castrado — comenta a presidente da ONG Campo Bom Pra Cachorro, Tatiana Aumonde.
O animal foi alvo de um disparo com munição não letal. O momento foi flagrado por uma câmera de segurança (veja abaixo).
— A borracha se fragmenta e atinge como se fossem diversos tiros de chumbinho. No primeiro momento, até achamos que fosse um tiro com munição de calibre 12, que tivesse se aberto e alvejado o Negão. Mas, quando o veterinário começou a fazer a remoção, a gente percebeu que eram estilhaços de fragmentos de borracha — detalha Tatiana.
Tratamento
O tiro deixou ferimentos nas patas traseiras do cão. Conforme o veterinário Rafael de Souza Pinheiro, responsável pelo tratamento de Negão, parte da pele e da musculatura foram lesionadas. Apesar da dor, o animal consegue ficar em pé e está se alimentando bem.
— O tratamento vai ser esse cuidado com as feridas. Como estão em vários locais, não tem como a gente fechar esses pontos. A gente tem que tratar basicamente como uma ferida aberta. O tratamento que eu penso terá no mínimo uma semana, de sete a 10 dias — diz Pinheiro.
A internação é necessária para controlar a infecção nas feridas abertas. O veterinário destaca que Negão não corre risco de perder as patas. Durante esse período na clínica, o cão comunitário receberá medicação para dor, antibiótico, anti-inflamatório e terá os ferimentos higienizados duas vezes ao dia.
Durante a limpeza e avaliação dos ferimentos, também foi constatado que os tendões, essenciais para a locomoção, não foram atingidos. Para garantir que não houve nenhuma fratura óssea, o cachorro passou por um exame de raio X. Considerado dócil, Negão não precisou ser sedado para o procedimento.
Os custos do tratamento serão pagos com o recurso de doações feitas para a ONG. A campanha de arrecadação segue aberta nas redes sociais.
— Esta não é a melhor época do ano para recebermos doações. A gente entende que todo mundo tem seus compromissos, pagar imposto e tudo mais. Inclusive, já tínhamos suspendido os atendimentos para que a gente tentasse recuperar a nossa saúde financeira. Estamos com um valor em aberto em clínicas veterinárias de quase R$ 10 mil — revela a presidente da ONG.

Investigação
Além dos cuidados veterinários com o Negão, a ONG também se mobiliza pela responsabilização do policial militar envolvido no caso. Um registro de ocorrência foi feito na Polícia Civil nesta quarta-feira (28). Os ativistas também marcaram um horário para conversar com a promotora da cidade sobre o episódio.
A ação da Brigada Militar aconteceu por volta das 20h30min da terça-feira. Segundo a vereadora Kayanne Braga, a polícia realizava uma abordagem a moradores na rua, quando um dos policiais deu um passo para trás e teria pisado na pata do cão. O cachorro gritou, mas não teria atacado o PM, que mesmo assim efetuou o disparo, conforme o relato.
A vereadora, que atua na ONG de proteção animal, também informou que, após o episódio, a Brigada Militar deteve e encaminhou um grupo de pessoas para a delegacia.

Em nota, o 32º Batalhão de Polícia Militar (BPM) alega que o animal "investiu contra a guarnição, ocasionando lesão na perna direita de uma policial, em razão de mordida". "Para cessar a investida do animal, um dos policiais efetuou um disparo com munição não letal", acrescenta.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirma que determinou a "imediata apuração dos fatos". O caso será conduzido pela Corregedoria-Geral da Brigada Militar.
Contrapontos
Nota do 32º BPM:
"Durante abordagem a três indivíduos no bairro Barrinha, em Campo Bom, na noite desta terça-feira (27/01), em razão de resistência ativa e desacato por parte dos abordados, foi necessário o uso moderado e progressivo da força.
Durante a ação, um cão que se encontrava em via pública investiu contra a guarnição, ocasionando lesão na perna direita de uma policial feminina, em razão de mordida. Para cessar a investida do animal, um dos policiais efetuou um disparo com munição não letal.
Os envolvidos foram encaminhados para a realização de exames de lesões corporais e, posteriormente, à Delegacia de Polícia para a formalização da ocorrência.
As circunstâncias da abordagem estão sendo apuradas pela Brigada Militar, a fim de que todos os fatos sejam esclarecidos e não restem dúvidas quanto à atuação policial.
A Brigada Militar reafirma seu compromisso com a segurança da comunidade gaúcha e com a atuação dentro da legalidade, da técnica e do respeito aos direitos humanos e defesa dos animais."
Nota da SSP:
"A Secretaria da Segurança Pública determinou à Brigada Militar a imediata apuração dos fatos envolvendo uma abordagem a três indivíduos, na noite desta terça-feira (27), em Campo Bom, onde um cachorro foi baleado por um policial militar.
As circunstâncias da abordagem, a atuação dos PMs no local e a alegação de que durante a abordagem um policial teria sido atacado pelo cão serão objeto de apuração pela Corregedoria-geral da Brigada Militar.
A Secretaria da Segurança Pública trabalha para que logo os fatos sejam devidamente esclarecidos e reforça o compromisso e o respeito aos direitos humanos e à defesa e dos animais."