Revitalização
Arroio Dilúvio recebe 154 tubulações com esgoto, e maioria da poluição vem de bairros centrais, aponta estudo
Sistema de despoluição funcionará plenamente apenas em dias secos. Solução para descontaminação completa depende do fechamento de ligações irregulares de prédios e casas


O Arroio Dilúvio, que deveria ser um caminho privilegiado para escoamento de água da chuva dos bairros até o Guaíba, funciona como um esgoto a céu aberto em Porto Alegre. Ao longo do curso, recebe dejetos de 154 tubulações ininterruptamente.
Isso se deve ao fato de que incontáveis prédios e casas lançam — com ligações irregulares — os seus dejetos, sem qualquer tratamento, na rede pluvial em vez de despejar a carga na rede de esgoto.
O diagnóstico sobre a poluição no arroio foi produzido pelos técnicos do consórcio contratado para apresentar soluções de revitalização para o Dilúvio, dentro de um projeto mais amplo de intervenção urbana na Avenida Ipiranga.
Origem da poluição
Para identificar a origem da poluição, os técnicos monitoraram, em dias secos, o comportamento das tubulações de escoamento de água da chuva que chegam até o Dilúvio.
Segundo o engenheiro civil Sidnei Agra, da Profill Engenharia, responsável pelos estudos de saneamento e drenagem, foram mapeadas 367 tubulações conectadas ao arroio ao longo de seus 10 quilômetros. De acordo com o coordenador desse trabalho, a maior parte do esgoto aparece na parte final do Dilúvio, próximo à foz, no entorno de bairros como Menino Deus e Santana.
— A gente também percebeu que essa poluição se agrava à proporção que a gente se aproxima da foz, o que não era tão esperado — destaca Agra.
Segundo o engenheiro, era esperada maior carga de dejetos com origem em comunidades próximas à Avenida Bento Gonçalves e de Viamão.
— De fato, vem carga, principalmente muito sedimento. Mas, no ponto de vista de carga (poluente), a matéria orgânica de esgoto está presente na parte do Dilúvio que já deveria estar resolvida, a parte mais urbanizada. Eu diria que 60% da carga está na parte porque está mais adensada. É Menino Deus, Santana, os entornos da Silva Só, Azenha, Praia de Belas — relata o especialista.

Sistema de despoluição funcionará apenas em dias secos
A solução integral da despoluição do Dilúvio passa por acabar com todas as ligações irregulares existentes em dezenas de bairros da Capital. Como esse cenário é considerado muito distante, a prefeitura de Porto Alegre optou por um sistema capaz de, em tempo seco, reduzir a poluição no Dilúvio de 4,5 mil quilos para 1,5 mil quilos por dia.
Em termos de vazão, serão retirados 730 litros de esgoto por segundo de uma vazão total de 2,1 mil litros por segundo. É tanto esgoto que, ao ser retirado, é esperada uma mudança de comportamento no curso d'água.
O mecanismo, chamado de coletor de tempo seco, vai funcionar da seguinte forma:
- Serão instaladas tubulações nas duas margens do Dilúvio;
- Nos dias sem chuva, elas vão receber todo o esgoto que hoje é despejado no arroio;
- Essas tubulações vão levar o esgoto para uma estação de bombeamento na Rua Baronesa do Gravataí e, depois, para uma estação próxima do Gasômetro;
- Dali, os resíduos vão para a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Serraria, onde o material será despoluído.
— A gente vai ter uma rede que intercepta todos os tubos de drenagem que chegam. Nessa rede, tem uma caixa separadora que desvia, em tempo seco, esse esgoto em direção à estação de bombeamento. A gente usa então o emissário e vai para a ETE Serraria, onde será tratado — explicou Agra, na audiência pública para tratar do projeto, realizada na última quarta-feira (28).
O engenheiro apontou que não é viável financeiramente construir uma estrutura que dê conta de transportar, nos dias de chuva, o volume de água misturada com esgoto que chega ao Dilúvio.
— Vamos atacar o problema em tempo seco, e isso vai resolver a maior parte do problema — acrescentou.

O coletor de tempo seco não vai captar as águas que chegam ao Dilúvio vindas dos seus três maiores afluentes:
- Arroio Moinho
- Arroio São Vicente
- Arroio Cascatinha
Também poluídos, esses arroios serão alvo de projetos específicos, segundo a prefeitura, para também desfazer as ligações irregulares que os poluem.
Despoluição do Dilúvio é parte da revitalização da Ipiranga
A despoluição do Dilúvio é considerada o maior desafio da prefeitura no processo de revitalização da Avenida Ipiranga. É preciso que o curso d'água esteja majoritariamente despoluído para que haja viabilidade ambiental para se construir um parque linear nas suas margens. O projeto de revitalização prevê uma série de outras intervenções, como o enterramento de fios de energia elétrica, a melhoria dos equipamentos urbanos e a arborização.
A transformação do Dilúvio, como parte da revitalização da Avenida Ipiranga, vai acontecer, pelos planos da prefeitura, por meio de uma operação urbana consorciada. Esse instrumento jurídico permite que a prefeitura use em uma região específica da cidade todo o dinheiro arrecadado com a expansão imobiliária daquela região.

Em etapas, o plano da prefeitura para revitalizar a Ipiranga prevê um aporte público inicial de R$ 202 milhões — dinheiro que foi pedido por empréstimo ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Esse valor será usado para fazer uma espécie de "cartão de visitas" do projeto, revitalizando um pequeno trecho da Ipiranga, de até 2 quilômetros, na região do bairro Menino Deus e cercanias. Essa pequena amostra da revitalização é chamada de etapa zero da operação urbana consorciada.
Os recursos que entrarem nos cofres públicos com os novos empreendimentos imobiliários não serão destinados ao uso geral da cidade, mas ficarão reservados, visto que se trata de uma operação urbana consorciada, para investimento exclusivo na revitalização da Ipiranga.
O projeto inteiro prevê um investimento estimado de R$ 1,7 bilhão em intervenções urbanísticas desde a foz no Guaíba até o Beco dos Marianos, na Zona Leste. A prefeitura estima que a totalidade das obras seja concluída em até 30 anos.
A amostra da revitalização, apenas no trecho inicial da Ipiranga com indução direta de recursos públicos, será concluída até 2030, conforme estimativa do secretário de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus), Germano Bremm. A previsão considera que o projeto de lei que autoriza essas medidas seja aprovado ao longo de 2026 pela Câmara de Vereadores. A proposta legislativa será enviada até março pelo prefeito Sebastião Melo para análise dos vereadores.