Universidades e institutos
Bolsas, alimentação e serviços: quais áreas serão impactadas por cortes em orçamento das federais gaúchas
Déficit no planejamento das instituições para 2026 acarreta perdas no que tange ao ensino, à pesquisa e à extensão


Com o corte de R$ 44,1 milhões no orçamento de 2026, aprovado na Lei Orçamentária Anual (LOA), institutos e universidades federais gaúchas irão enfrentar dificuldades neste ano. Assistência estudantil, água, luz e serviços terceirizados, como limpeza e vigilância, são algumas das principais áreas afetadas, segundo os reitores.
Na prática, os cortes acarretam perdas no que tange ao ensino, à pesquisa e à extensão, dizem os gestores. No momento, as instituições trabalham no planejamento de 2026, avaliando o que será possível manter e quais setores terão restrições. O déficit atinge verbas destinada a despesas não obrigatórias, as chamadas despesas discricionárias.
Todas as instituições federais do Rio Grande do Sul (RS) conversaram com a reportagem de Zero Hora, exceto a Universidade Federal do Rio Grande (Furg), que não retornou até o momento. Entenda quais serão os impactos para cada uma:
Universidades
UFSM
A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) enfrentou corte de 7%, com déficit de mais de R$ 11 milhões no orçamento. Conforme a reitora Martha Adaime, essa situação vem se repetindo ano a ano, comprometendo diferentes setores. O grande risco é precisar reduzir o número de bolsas de pesquisa e extensão, mas a gestão vem buscando formas de garantir os recursos necessários.
— A gente procura preservar ao máximo a assistência estudantil. Então, sempre buscamos fazer cortes em outros setores. Até que chega um momento que acaba não sendo possível, e as bolsas também vão sofrer cortes. Ou bolsas de pesquisa, ou bolsas de extensão, e isso acaba por afetar os nossos estudantes. É bastante triste estar vivendo uma situação como essa — lamenta a reitora.
A preocupação é que, a longo prazo, isso contribua com a evasão acadêmica, uma vez que os cortes podem afetar a assistência estudantil. Com isso, as áreas de pesquisa e inovação podem sofrer consequências.
— Não adianta nós termos equipamentos de ponta que foram comprados para pesquisa, se nós não tivermos lá dentro os nossos estudantes bolsistas para operar, se não tivermos como manter a energia desses lugares, se não tivermos como manter esses laboratórios funcionando, isso nos preocupa muito — destaca Martha.
Unipampa
Na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), o principal impacto dos cortes será na manutenção dos contratos terceirizados, afetando áreas como limpeza, segurança e motoristas. A instituição sofreu déficit de cerca de R$ 4 milhões no orçamento (6,5%).
Para manter o funcionamento de serviços básicos, será preciso reduzir o número de bolsas, de acordo com o pró-reitor, pró-reitor de Planejamento, Administração e Infraestrutura, Paulo Fernando Marques Duarte Filho:
— Afeta as bolsas de fomento interno da universidade, bolsas de iniciação científica, de extensão, monitorias. Tudo isso a gente vai ter que rever e, com certeza, diminuir o número de bolsas que viemos ofertando, para poder manter a estrutura da universidade funcionando.
UFCSPA
A Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) sofreu um corte de cerca de R$ 3 milhões, do montante originalmente estimado em R$ 40 milhões (7%). Em 2025, apenas para a manutenção do funcionamento institucional, considerando contratos continuados e bolsas de pesquisa, ensino, extensão e assistência estudantil, o custo anual alcançou R$ 32 milhões.
Desse valor, aproximadamente R$ 23 milhões referem-se exclusivamente a contratos continuados, como segurança e limpeza, que, por si só, sofrem reajustes anuais estimados em torno de 5%.
“Se os cortes orçamentários forem mantidos, o orçamento disponível permitirá apenas a manutenção mínima das atividades da universidade, inviabilizando a celebração de novos contratos, a ampliação da assistência estudantil, de investimentos em pesquisa, bem como a renovação e modernização do parque tecnológico institucional”, informaram, em nota, a reitoria e a pró-reitoria de Planejamento e Administração da UFCSPA.
No ano passado, a gestão já promoveu adequações em seus contratos, não havendo margem para novas reduções sem comprometer o funcionamento da instituição. Os cortes também podem impactar as atividades dos dois novos prédios institucionais prestes a serem entregues – um acadêmico, de 21 andares, e uma Clínica da Família, que demandam alto investimento para custeio e manutenção.
UFFS
Conforme a reitoria da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), a instituição teve corte de 6,92% no orçamento, o equivalente a R$ 4,72 milhões, considerando o que estava previsto no Projeto de Lei Orçamentária Anual. Grande parte do valor diz respeito às ações de custeio da universidade, e verbas da Política Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes).
O reitor João Alfredo Braida destaca que o orçamento de 2025 já foi insuficiente para dar conta das demandas. Agora, será necessário fazer cortes em bolsas de pesquisa e em serviços de manutenção:
— Deixando de fazer manutenção, os problemas se tornam maiores, e isso acaba prejudicando também as atividades de ensino, pesquisa e extensão. O equipamento que deixa de funcionar é uma pesquisa que para. Uma sala de aula com infiltração é uma sala a menos que eu posso usar com meus estudantes. Isso traz prejuízos, embora a gente vá empurrando com a barriga — explica Braida.
UFRGS
O corte na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) atingiu R$ 14,5 milhões (7,2%). Para a reitora Márcia Barbosa, neste ano, despesas essenciais podem ser afetadas, caso não haja suplementação do recurso – tais como água, luz, serviços terceirizados, assistência estudantil e o Restaurante Universitário (RU).
Mesmo com as dificuldades, a reitoria pretende manter todos os serviços em funcionamento. A expectativa é que o executivo possa garantir mais recursos no início do ano.
— Eu me recuso a aumentar o preço do RU. Não sei o que eu vou fazer. Se precisar, eu vou fazer uma manifestação em Brasília, mas não vai ter corte no RU. Pretendo inaugurar um novo RU em março desse ano, em Porto Alegre, está quase pronto. Alimentar esses jovens é o que faz eles permanecerem na universidade — argumenta Márcia.
UFPel
Na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), haverá redução de R$ 6,4 milhões (6,8%) nos recursos federais. Despesas de manutenção, como contas de luz, limpeza e segurança, além de bolsas acadêmicas e insumos de pesquisa serão afetados.
Ao longo de 2025, devido à restrição, a instituição realizou cortes em aulas práticas, saídas de campo e atividades de extensão e, neste ano de 2026, as medidas devem se repetir. Conforme a reitora Úrsula Silva, a universidade não tem intenção de modificar os contratos com as empresas terceirizadas a fim de reduzir custos, porque isso levaria à demissão de funcionários.
— Isso não é a solução. A gente já cortou tudo o que podia cortar. Nós precisamos investir na educação, porque senão o desenvolvimento da região também vai regredir — diz.
Institutos federais
IFSul
Conforme o reitor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul), Carlos Corrêa, os impactos na instituição são diversos. O IFSul teve redução da ordem de 7,3% no orçamento, totalizando R$ 4,5 milhões de déficit.
— Normalmente já é difícil fazer fechamento das contas anuais, em função de despesas, e ainda teve o corte. É bem complicado. Em 2025, tivemos suplementação dos recursos, temos a expectativa de que isso ocorra novamente em 2026. Se não, isso vai se refletir na assistência estudantil, no atendimento especializado, fomento de projetos, e em melhorias, como na construção de novos refeitórios que planejamos — destaca o reitor.
IFFar
No Instituto Federal Farroupilha (IFFar), os cortes vão gerar perda de R$ 3 milhões no orçamento, o que equivale a 7,2%. Conforme a reitora Nídia Heringer, será preciso repensar algumas estratégias e reorganizar o planejamento para manter as atividades em funcionamento, caso sejam mantidos os cortes.
— Temos perspectiva de redução de alimentação, redução de bolsas estudantis. E isso tem um impacto muito significativo na permanência dos estudantes. Quando eles não possuem esse apoio interno nas instituições, eles vão para o mundo do trabalho, eles evadem, eles não concluem o Ensino Médio. E se estão na graduação, eles abandonam para ir procurar um emprego — lamenta Nídia.
IFRS
O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS) sofreu corte de 7,2%, o equivalente a R$ 6,6 milhões a menor no orçamento. Segundo a gestão, isso corresponde a quase 1/12 avos do orçamento institucional – é como se o recurso fosse suficiente para apenas 11 meses do ano de 2026.
“O calendário acadêmico de 2026 de todas as unidades do IFRS não deve sofrer prejuízo. As aulas serão mantidas, porém serão necessários ajustes, redução ou suspensão de atividades como visitas técnicas e projetos, que complementam a formação dos nossos estudantes, além de ajustes em serviços básicos como de limpeza, manutenção e segurança”, destaca a reitoria em nota.
Caso o Ministério da Educação (MEC) não reverta o corte, será necessário que cada campus do IFRS discuta e defina como reorganizar o planejamento para o ano de 2026 e em que áreas, serviços ou atividades terá de fazer reduções ou ajustes.