Direto da Redação
Breno Bauer: missões impossíveis de ano novo
Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano


Uso um aplicativo para organizar minhas leituras. Todo início de ano, uma notificação faz a pergunta que já estamos cansados de ouvir na ceia da virada: “Qual a meta para este ano?”. Nesse caso, preciso indicar a quantidade de livros que espero ler até o dia 31 de dezembro de 2026.
Houve um tempo em que eu era ousado. Colocava uma meta que me desafiasse — e que, via de regra, não seria alcançada. De uns tempos para cá, sou mais pé no chão: coloco uma quantidade que vou conseguir dar conta, e que talvez até seja superada, trazendo aquela sensação legal de “Uau, como estou adiantado”.
A verdade é que quero esconder de mim mesmo um fato incontestável: sou incapaz de ler na velocidade necessária para dar conta de todas as histórias que ainda quero conhecer. Vamos aos cálculos: para ler todo o catálogo ativo da maior editora do país, eu precisaria ler cem livros por ano até o meu aniversário de 106 anos. Com os avanços da medicina, posso até chegar nessa idade, mas não há milagre que me ajude a ler essa quantidade toda de livros. Isso sem contar nos livros que forem chegando nesse período.
Agora some a isso todas as outras editoras e todos os livros que ainda vão chegar nas outras editoras ou livros estrangeiros excelentes que nunca sejam traduzidos para meu bom e velho português.
Preciso aceitar: é impossível dar conta da árdua tarefa de ler tudo que eu quero.
Os não feitos
Afinal, tem coisa mais frustrante do que saber que não vamos ler, ver, ouvir, assistir ou conhecer algo? Aquela sensação de curiosidade insaciada, uma revolta irracional pelas trilhões de possibilidades que não vão se concretizar, por mais que a gente queira. Mas, ora, essa é a história da nossa vida.
Quando entramos em uma livraria ou abrimos uma plataforma de streaming, por exemplo, somos confrontadas com uma quantidade avassaladora de livros que não vamos ler, filmes que jamais assistiremos. Uma rápida ida ao centro da cidade e podemos nos deparar com centenas de pessoas cujos nomes jamais conheceremos.
Esse ano que começa vai nos brindar com uma amostra ínfima de tudo o que poderia acontecer. Feliz ano novo, pessoal. Vamos comemorar as novas 365 oportunidades de não fazer milhões de coisas.