Cuidados essenciais
Bronzeado sem proteção? Entenda os perigos do movimento antiprotetor solar
Tendência que se popularizou nas redes sociais propõe substituir o produto por receitas caseiras; especialistas alertam para possibilidade de câncer de pele


Chegou o verão e, com ele, a vontade de colocar o biquíni e se jogar ao sol em busca do tão desejado bronzeado da estação. Adeptos desse hábito, no entanto, têm deixado de lado cuidados essenciais – como o uso do protetor solar – por influência do movimento #nosunscreen, difundido nas redes sociais, especialmente entre jovens da geração Z, nascidos entre 1995 e 2010.
A ação antiprotetor solar propõe a substituição do filtro por receitas caseiras ou, em alguns casos, o abandono completo de qualquer produto. Entre os argumentos apresentados estão a busca por uma rotina de cuidados considerada mais “natural” e a crença de que a ausência do protetor possa favorecer uma melhor absorção de vitamina D, intensificando, assim, o bronzeado.
— É um movimento que questiona o uso regular do protetor solar, geralmente associando a fotoproteção ao medo excessivo ou a interesses da indústria (farmacêutica). Ele ganha espaço porque oferece respostas simples para um tema complexo e dialoga com uma busca legítima por autonomia e naturalidade. O problema surge quando essa discussão ignora evidências científicas consolidadas — explica a dermatologista Vivian Simões Pires.
Apesar da popularidade crescente – a hashtag #antisunscreen já ultrapassou 6 milhões de visualizações, e #nosunscreen, mais de 12 milhões –, a dermatologista Juliana Fonte reforça que não há qualquer base científica que sustente essa prática.
— O principal risco para a saúde ao deixar de usar o protetor solar é o desenvolvimento de câncer de pele. Somam-se a isso as chances de queimaduras solares, envelhecimento precoce e surgimento de manchas na pele — alerta a médica.
Segundo Juliana, os danos provocados pelo sol podem aparecer em diferentes prazos: poucas horas após a exposição, na forma de queimaduras; meses depois, com o surgimento de manchas; ou até anos mais tarde, quando se manifestam casos de câncer de pele. Além disso, há o risco de perda de colágeno e flacidez, que não são percebidos de imediato, mas também se manifestam com o passar do tempo.
Vivian salienta que, como alguns efeitos aparecem apenas ao longo dos anos, muitos jovens têm a percepção de que não há consequências reais no curto prazo:
— Alguns efeitos celulares ocorrem desde a primeira exposição sem proteção, mas as manifestações clínicas costumam surgir anos depois. Por isso, muitas pessoas associam os sinais de envelhecimento apenas à idade, quando, na verdade, são resultado de dano solar acumulado.
Como o movimento começou?
O movimento antiprotetor solar ganhou força após a divulgação de um estudo publicado em 2019 pela Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, que apontava a absorção de alguns filtros químicos no organismo.
Apesar de os autores afirmarem que o achado não representava risco à saúde, o estudo abriu espaço para a circulação de alegações sobre a suposta “toxicidade” do protetor solar e para sugestões de substituição por alternativas caseiras, como óleos e manteigas vegetais, que não oferecem proteção eficaz contra a radiação solar.
— Protetores solares passam por testes rigorosos para comprovar sua eficácia. Um produto com FPS 60, por exemplo, quando aplicado corretamente, protege a pele até 60 vezes mais do que se ela estivesse exposta diretamente ao sol, sem qualquer filtro, algo que nenhum produto “natural” consegue garantir — explica Juliana.
Vivian afirma que, até agora, não existe comprovação científica de que óleos ou produtos naturais – receitas frequentemente sugeridas pelos adeptos do movimento – ofereçam proteção eficaz contra a radiação UVA e UVB.
— Alguns desses produtos, inclusive, podem aumentar a penetração da radiação e potencializar o dano cutâneo. Não há evidência científica consistente que sustente a exclusão do protetor solar como uma escolha segura. Pelo contrário, há décadas de estudos mostrando seu papel na prevenção do envelhecimento precoce, de alterações pigmentares e do câncer de pele — aponta.
Conforme a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), agências regulatórias como a FDA, nos EUA, a Anvisa, no Brasil, e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), na Europa, consideram os filtros seguros.
Existe bronzeado saudável?

Segundo a SBD, não existe bronzeamento saudável. Tanto a exposição direta ao sol quanto o uso de cabines artificiais que emitem radiação ultravioleta — proibidas no Brasil desde 2009, mas ainda encontradas – podem causar queimaduras solares, envelhecimento precoce e aumentar o risco de câncer de pele. Por isso, o uso do protetor solar é fundamental, inclusive em dias nublados.
Juliana Fonte explica que, mesmo nessas condições, a radiação ultravioleta continua atingindo a pele. O risco pode ser ainda maior, já que a temperatura mais amena reduz a percepção de calor e faz com que as pessoas permaneçam mais tempo expostas ao sol sem perceber. Com isso, aumentam os casos de insolação, queimaduras solares e câncer de pele.
Vivian Pires complementa:
— A radiação UVA, responsável principalmente pelo envelhecimento da pele, atravessa nuvens e vidros. Isso significa que mesmo em ambientes internos bem iluminados ou dentro do carro há exposição relevante à radiação ultravioleta.
Segundo Vivian, para quem fica em dúvida entre seguir modismos da internet ou orientações médicas, o conselho é claro: recomendações médicas são baseadas em evidências científicas. Para ela, a desinformação em saúde raramente é neutra; ela tende a gerar consequências evitáveis, como maior incidência de doenças de pele, tratamentos mais complexos e custos mais altos para o sistema de saúde.
— Tendências são passageiras. Evidência científica é construída ao longo de anos. Em saúde, especialmente quando falamos de prevenção, a melhor escolha é aquela baseada em estudos consistentes e na orientação de profissionais capacitados, não em modismos digitais — diz a médica.
A orientação é simples: usar protetor solar todos os dias, reaplicá-lo a cada duas horas em situações de exposição solar e complementar a proteção com chapéus, óculos de sol e roupas com tecido de bloqueio UV. Além disso, é importante verificar se o protetor é de amplo espectro, protegendo contra os raios UVB e UVA.
E inserir o produto na rotina pode ser mais fácil do que parece:
— Uma dica prática é deixá-lo sempre à vista, em um local estratégico. Vale colocá-lo ao lado da escova de dentes: escovou os dentes, aplica o protetor. Assim, a proteção começa logo no início do dia e vira hábito — conclui Juliana.