RETRATOS DA VIDA
Dia da Visibilidade Trans revela novas trajetórias
Lembrada em 29 de janeiro, a data é um momento para destacar avanços, desafios e histórias de pessoas que inspiram


Ávine Fernandes chegou a Porto Alegre em 2022. Veio de Minas Gerais com a sensação de que precisava recomeçar em outro lugar. Hoje, com 29 anos, lembra que a transição de gênero aconteceu entre 2020 e 2021, em meio à pandemia e a um silêncio de referências. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Viçosa – onde foi a primeira travesti a concluir o curso –, Ávine descobriu que a arquitetura não seria seu destino. A comunicação, sim. O início foi pelas redes, em vídeos curtos sobre moda, identidade e rotina. Falava para se organizar e para explicar o que estava vivendo.
– Quando eu transicionei, eu me senti muito sozinha, porque eu não tinha referência próxima. Então comecei a gravar vídeos sobre como educar a minha própria comunidade, explicando minhas vivências e tentando oferecer uma imagem que eu mesma não tive – destaca.
Dessa vontade de não repetir a solidão veio o TravaTalk: um podcast com entrevistas somente com pessoas trans. O formato, segundo ela, muda o ambiente da conversa:
– É diferente quando a pessoa com quem você fala entende aquilo que você está contando. As conversas ficam mais diretas, mais abertas, sem a obrigação de justificar a própria existência o tempo todo. A gente pode falar de trabalho, de autoestima, de futuro, de coisas simples e de coisas complexas – diz.
Além do podcast, Ávine atua na cultura Ballroom, movimento nascido nos Estados Unidos e presente em várias capitais brasileiras. Expressão cultural, política e artística, a Ballroom é estruturada em “casas”, e realiza bailes (balls) com competições de voguing (dança) e performance, celebrando a identidade de corpos marginalizados. Em 2019, ainda em Minas, Ávine produziu e participou da sua primeira Ball. Depois vieram viagens e, já em Porto Alegre, fundou a Casa de Leopardos, coletivo com 12 integrantes.

– As casas, que não são espaços físicos, são lugares de pertencimento e de cuidado. A gente conversa sobre performance, mas também sobre vida: trabalho, saúde, dinheiro, amizades, tudo. É por isso que eu digo que é muito família, porque existe uma responsabilidade afetiva ali – explica.
A mudança para o Sul teve relação com afetos e com a transição. Ávine conta que o processo envolveu distâncias e reorganização. Estabelecer moradia, criar redes e encontrar seu povo, como define, não foi imediato.
Da luta ao cuidado
Para entender o que existe além de trajetórias individuais, a reportagem ouviu Marcelly Malta Lisboa, presidenta da ONG Igualdade RS, fundada em 1997, localizada no Centro Histórico de Porto Alegre. Marcelly começou a atuar ainda nos anos 1980, período marcado pela epidemia de HIV/Aids. Na época, a ausência de políticas públicas fazia com que acolher significasse abrir a porta de casa.
– Fui convidada a ser ativista porque eram sérias as mortes na nossa população. Eu acolhia muitas na minha casa, elas chegavam com medo e sem apoio, e muitas morreram. Isso me deu o impacto de entender que, se a gente não fizesse alguma coisa, ninguém faria por nós – conta.
O trabalho atual da ONG convive com um cenário difícil. Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) indicam que 80 pessoas trans foram assassinadas no Brasil em 2025, e que o país segue, pelo 17º ano consecutivo, como o que mais mata pessoas trans no mundo. É nesse contexto que a Igualdade RS oferece atendimento psicológico e jurídico, faz mediação com serviços públicos e atua no sistema prisional. Chegam demandas de documentação, saúde, nome social, trabalho e convivência familiar.
– A diferença que eu vejo hoje é que existem frestas: pessoas trans na universidade, na segurança pública, na comunicação, na cultura. Mas a base do nosso trabalho continua sendo ouvir, orientar e acompanhar, porque trabalhar com direitos humanos não é trabalhar uma pauta só, mas sim trabalhar todas ao mesmo tempo – diz.
Entre o TravaTalk, as Balls e a ONG, o Dia da Visibilidade Trans aparece como lembrete: essas histórias acontecem o ano inteiro. Entre viagens, mudanças, trabalhos, amizades e cuidados, o restante é vida – e se dá todos os dias, como para qualquer pessoa, sem necessidade de explicação, mas com necessidade de respeito e direitos garantidos.
*Com orientação e supervisão de Émerson Santos