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Seu problema é nosso 

"Eu sou apenas um CPF para constar em algum papel, só isso", desabafa paciente que espera por consulta há mais de um ano 

Adriana foi diagnosticada com hérnia de disco em 2024 e desde então aguarda por um atendimento com ortopedista pelo SUS.

28/01/2026 - 10h22min


Josyane Cardozo*
Josyane Cardozo*
Assistente de Conteúdo
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Arquivo Pessoal/Reprodução
A demora tem impactado o dia a dia da paciente.

Há mais de um ano, a cuidadora de idosos Adriana Stedille, 54 anos, aguarda por atendimento com especialistas em ortopedia pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de Porto Alegre. Diagnosticada com hérnia de disco, a paciente convive com dores constantes enquanto espera pelas consultas necessárias para ser encaminhada à cirurgia.

O agravamento da dor surgiu em outubro de 2024, com desconforto na perna direita. Na ocasião, ela procurou atendimento no posto de saúde Moradas da Hípica, onde foi encaminhada para exames básicos. A suspeita inicial foi de um possível reumatismo autoimune – doença em que o sistema imunológico ataca o próprio corpo, causando uma inflamação crônica.

A suspeita levou ao encaminhamento para um reumatologista no Hospital Conceição, onde a consulta ocorreu no dia 4 de novembro daquele ano. O profissional descartou a hipótese inicial e diagnosticou uma hérnia de disco. 

Idas e vindas

Após a consulta, ela foi orientada a retornar ao posto de saúde para ser encaminhada a um ortopedista. Entrou, então, pela primeira vez na fila de espera por atendimento com o especialista pelo SUS

Com a intensificação das dores, Adriana passou a buscar alternativas fora da rede pública e optou por pagar, por conta própria, exames de raio X e ressonância magnética em clínicas populares. Os resultados apontaram alterações nas comunicações nervosas.

No dia 27 de novembro, ela conseguiu consulta com um ortopedista da coluna no Hospital Independência. Durante o atendimento, o médico informou que o quadro exigia intervenção cirúrgica, mas esclareceu que a unidade não realiza procedimentos de alta complexidade.

Com essa orientação, Adriana retornou ao posto de saúde levando uma lista de profissionais e serviços aptos a realizar a cirurgia. No entanto, foi novamente inserida na fila de espera para consulta com outro ortopedista.

No início de 2025, foi chamada para uma nova consulta, mas acabou sendo direcionada ao mesmo médico do Hospital Independência. Após relatar que precisava da avaliação de outro profissional, retornou ao posto de saúde e foi recolocada na fila de espera pela terceira vez. Desde então, não foi mais chamada para o atendimento.

Enquanto aguardava, o quadro de saúde se agravou. Adriana desenvolveu uma osteoartrose no quadril e passou a necessitar de avaliações em duas especialidades distintas: ortopedia adulta, voltada à coluna, e ortopedia do quadril, o que resultou em duas filas dentro do sistema.

A falta de previsão para o andamento do tratamento é apontada por ela como um dos principais fatores de desgaste.

– O meu problema maior é que eu não sei quando é que vai resolver alguma coisa. Eu não sei quando é que vai ter um final – afirma a cuidadora.

Ansiedade e preocupação 

A demora no atendimento provocou uma interrupção abrupta na trajetória profissional de Adriana. Até então, ela atuava como cuidadora de idosos, conciliando a rotina de trabalho com os estudos. Após concluir a formação como técnica em enfermagem, precisou interromper as atividades no início dessa nova etapa.

– A primeira reação foi revolta, porque eu amava a profissão e não poderia conduzir. De repente, eu fico estagnada, assim, do nada. É como se puxassem o tapete, tirassem o meu chão – relata.

As limitações físicas tornaram inviável o exercício da profissão. Adriana afirma que o corpo “vai travando”, o que dificulta ações básicas como caminhar. Segundo ela, permanecer sentada por mais de 40 a 60 minutos “é impossível”, e a dor constante compromete a concentração e a disposição necessárias para o cuidado de terceiros.

Além da perda da atividade profissional, a condição agravou a situação financeira da família. Atualmente, ela depende exclusivamente do salário do marido, que precisa cobrir despesas básicas e os custos com medicamentos para dor. O impacto emocional se soma à sensação de paralisia imposta pela doença e pela espera simultânea por atendimento.

– Eu sou apenas um CPF para constar em algum papel, só isso – desabafa.

O que diz a secretaria de saúde?

/// A secretaria informou que a fila da ortopedia (Coluna) é considerada de alta complexidade e reúne 3.777 pacientes. Na última sexta-feira, Adriana ocupava a 341ª posição. O órgão afirma que a oferta de consultas é inferior à demanda e ressalta que o financiamento da média e alta complexidade no SUS é responsabilidade da União, do Estado e do município. 

/// Segundo o órgão, casos de traumatologia têm prioridade sobre cirurgias ortopédicas. Em relação à ortopedia de quadril, a consulta foi solicitada em 2025. A fila conta com 801 pacientes e Adriana na 406ª posição.

*Com orientação e supervisão de Émerson Santos


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