Influência no dia a dia
Fim do La Niña? Começo do El Niño? As possíveis mudanças climáticas no RS em 2026
Entre março e julho, planeta deve entrar em período de neutralidade, mas mudanças podem começar a ser sentidas na primavera

O La Niña, que vem influenciando o clima global nos últimos meses, se aproxima do fim. E os centros internacionais de meteorologia, como a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), já apontam a possibilidade de formação de um novo El Niño em 2026.
De acordo com o mais recente relatório da entidade norte-americana, há 75% de probabilidade de o La Niña encerrar seu ciclo entre janeiro e março.
Com isso, o fenômeno deve dar lugar à condição de neutralidade climática, que tende a se manter ao menos até o fim do outono de 2026 no Hemisfério Sul. A partir desse período, passa a ser observada a possibilidade de desenvolvimento do El Niño.
— A maioria dos modelos de previsão sazonal indicam para essa direção, mas oficialmente a última previsão probabilística de consenso veio com 61% de ocorrência de El Niño frente a outras categorias no trimestre entre agosto, setembro e outubro — aponta o meteorologista Vinícius Lucyrio, membro da equipe de previsão climática da Climatempo.
La Niña e El Niño são fenômenos climáticos opostos, ligados às variações da temperatura do oceano Pacífico Equatorial.
- O El Niño ocorre quando há um aquecimento acima da média dessas águas
- La Niña é marcado pelo resfriamento
- Ambos alteram os padrões de circulação da atmosfera e influencia o clima em várias partes do mundo
Conforme o meteorologista da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Murilo Lopes, no Rio Grande do Sul, o La Niña costuma estar associado a chuva abaixo da média e períodos de estiagem, principalmente na primavera e no verão.
Já o El Niño tende a provocar precipitação mais frequente e intensa. Dessa forma, quando ativo, há uma tendência maior para ocorrência de enchentes e alagamentos.

Qual deve ser a intensidade do El Niño?
Ainda que grande parte dos grandes centros de meteorologia globais apontem para a formação do El Niño, ainda não há um consenso sobre a intensidade e a duração do fenômeno.
De acordo com o meteorologista do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/INPE) Diogo Arsego, as projeções são muito iniciais para conclusões definitivas.
A expectativa é de que, com o avanço dos próximos meses, os modelos apresentem maior grau de confiabilidade.
Já o especialista Murilo Lopes diz que a tendência aponta para intensidade moderada.
— O fenômeno deve se iniciar próximo ao inverno e ir criando intensidade no fim do ano. Se observa, pelo menos, com intensidade moderada. Ainda pode mudar, porque existem algumas incertezas. Poucos modelos indicam cenário de El Niño forte ou "super El Niño" — diz.
O que é um "Super El Niño"?
"Super El Niño" é um termo informal para descrever eventos de El Niño excepcionalmente intensos, com aquecimento muito acima da média das águas do oceano Pacífico Equatorial e com impactos climáticos amplificados em escala global.
Não é uma categoria oficial da NOAA ou da Organização Mundial de Meteorologia (OMM), mas ajuda a diferenciar esses episódios extremos dos mais comuns.
Como exemplo, é possível citar o El Niño que perdurou entre 2023 e 2024 e influenciou nos episódios de enchente no Rio Grande do Sul. Mas Diogo Arsego, do INPE, pondera:
— É importante lembrar que o El Niño de 2023 e 2024 foi acima da média, de intensidade excepcional. Não é esperado que a gente repita esse fenômeno de forma sequencial.

Quais são as previsões iniciais?
Tradicionalmente, durante episódios de El Niño, o sul do Brasil torna-se mais suscetível a chuva generalizada, volumosa e frequente. Embora o fenômeno não seja fator determinante, esse padrão aumenta a vulnerabilidade dos Estados da região a enchentes.
— Mais especificamente na primavera, o risco de enchente é maior, pois é quando o fluxo de ar quente aumenta bastante. Esse ar quente é combustível para a formação de temporais, de grandes tempestades. Com o El Niño configurado, normalmente nós temos um fim de inverno e primavera mais tempestuosos e com risco aumentado para ocorrência de chuvas abrangentes e persistentes — explica Vinícius Lucyrio, da Climatempo.
Nesse contexto, segundo Murilo Lopes, áreas localizadas ao longo de grandes rios tendem a ficar mais vulneráveis sob essas condições.
Contudo, os meteorologistas reforçam que ainda é cedo para prever um cenário definitivo. O especialista da UFSM afirma que as projeções iniciais indicam maior frequência de chuva e um inverno menos rigoroso, mas ressalta que as condições podem evoluir e sofrer mudanças ao longo dos próximos meses.
Zero Hora contatou o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e a Defesa Civil do Rio Grande do Sul para verificar se os órgãos dispõem de informações e análises preliminares sobre a possibilidade de formação de um novo El Niño, mas não obteve retorno até o fechamento da matéria.
*com orientação e supervisão de Micheli Aguiar e Roberto Azambuja