Sol que racha
Forno Alegre: como concreto e asfalto criam ilhas de calor na capital gaúcha e o que pode ser feito
Apesar da presença do Guaíba e do grande número de praças e parques, Porto Alegre tem regiões com risco alto de ondas de calor nas próximas décadas


Imagine que Porto Alegre é como um radiador gigante. Durante o dia, o concreto e o asfalto absorvem o calor do sol como se estivessem “carregando uma bateria” térmica. À noite, enquanto as áreas verdes conseguem se desligar e esfriar rapidamente, as áreas muito urbanizadas continuam “ligadas”, devolvendo esse calor acumulado para o ar e impedindo que a cidade refresque antes do amanhecer.
Graças a presença do Guaíba e de mais de 700 praças e parques, além da proximidade relativa do litoral, Porto Alegre tem mais respiros para a concentração do calor do que outras capitais brasileiras. Mesmo assim, enfrenta um fenômeno comum em períodos de calor intenso: a formação de ilhas de calor e o aprisionamento da temperatura em áreas com alta impermeabilização do solo. O avanço de concreto e asfalto em algumas áreas altera o microclima urbano.
O calor sentido na rua
Em medições de superfícies que Zero Hora realizou na zona norte de Porto Alegre, a temperatura no asfalto da Avenida Assis Brasil alcançou 58ºC. A marca baixava até 10ºC quando o vento soprava ou o sol se escondia. Já sob as árvores da Praça Ponaim, no Jardim Lindoia, o termômetro registrou 33ºC, temperatura similar à registrada pelas estações meteorológicas da Capital naquele início de janeiro.
Os efeitos das ilhas de calor são percebidos por quem trabalha ao ar livre. O motoboy Tiago Diel, 22 anos, refugiava-se embaixo das árvores da Ponaim para almoçar. Para ele, a diferença entre áreas arborizadas e as dominadas pelo asfalto é imediata:
— Nossa, nem se compara. A gente trabalha nas telentregas direto, nós paramos na sinaleira, a primeira coisa que a gente procura é sempre parar embaixo de uma árvore.

Segundo o motoboy, em dias de calor intenso, praças e sombras se tornam refúgio:
— Nem em casa a gente aguenta às vezes, porque os ventiladores não dão conta. Eu e a minha esposa corremos para as praças, onde dá um ventinho.
O efeito dos arranha-céus
Geógrafo e climatologista, o professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Cassio Arthur Wollmann decidiu estudar o efeito dos arranha-céus na temperatura de Balneário Camboriú depois de ficar preso em um engarrafamento na BR-101.
— Já sabíamos que era uma cidade muito verticalizada, mas o que nos incomodou é que estávamos parados na rodovia e não sentíamos o vento, mesmo que o mar estivesse próximo — lembra Wollmann.
O estudo foi iniciado em 2019, com a instalação de equipamentos para averiguar a variação da temperatura em diferentes bairros e horários. A diferença chegou a 12ºC.

— O ar se aquece de baixo para cima. A radiação do sol que atinge o solo é a de onda curta. Ao atingi-lo, essa radiação se transforma em onda longa, que vai aquecer o ar. Quando temos elementos naturais, como vegetação, uma floresta, um campo, superfícies líquidas, água ou alguma outra superfície natural ou o menos impactada possível, a conversão dessas ondas curtas em ondas longas é bem menor, o que gera bem menos temperatura — descreve o docente.
Por outro lado, a partir de determinado nível de verticalização – a presença de muitos prédios juntos e altos –, a cidade tende a se resfriar, pois o sol não chega até aquelas ruas. Isso tem sido chamado de “cânions urbanos”, fenômeno já sentido em metrópoles como Nova York e São Paulo.
Porto Alegre, que não é tão verticalizada assim, fica no meio do caminho, sem esse efeito do sombreamento, mas com elementos que evitam a criação de ilhas de calor tão intensas, como a presença do Guaíba próximo a muitos bairros.
— As áreas mais quentes acabam sendo na Zona Norte, porque está mais distante do Guaíba, é uma região mais baixa e tem um padrão construtivo mais homogêneo: tem muitos bairros mais periféricos com casas com brasilite, que é a maior inimiga de qualquer conforto humano. (...) Mas, infelizmente, por questão de custo, é o que muitas famílias de bairros periféricos conseguem colocar em casa — lamenta Wollmann.
Na Zona Sul, que tem mais vegetação e está mais próxima do Guaíba, a variação costuma ser de, no máximo, 3ºC ao longo do dia.
Arborização e água
O professor da UFSM alerta, no entanto, que não basta criar grandes parques para gerar conforto térmico. Porto Alegre, como outras capitais brasileiras, foi planejada no século XIX, quando a arborização urbana era projetada a partir de grandes parques, mas, no decorrer do século XX, se constatou que isso, do ponto de vista climático, não resolve a questão.
— A arborização concentrada refresca onde está o parque, mas o resto da cidade não ganha nada com isso. A arborização tem que ser heterogênea e espalhada pela cidade, respeitando a largura das ruas, a altura dos prédios, com espécies nativas — cita Wollmann.
Mais recentemente, também tem se falado sobre a criação de “espaços azuis” – áreas com água, um resgate a um costume do século XVIII de instalar fontes, chafarizes e pequenos lagos pela cidade. Um exemplo de país que tem investido nisso é a Austrália.
O professor Heinrich Hasenack, do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destaca que grande parte do calor que as pessoas sentem "é pela falta de água que se tem na cidade".
— A água é um regulador térmico: se está presente, o calor, antes de aquecer o nosso corpo, vai evaporar a água presente no ar. Um ar seco não vai absorver a água que consumiria o calor, então o ar aquece — destaca.
A influência do clima
O professor da UFRGS explica que a variação do calor dependerá das condições climáticas: se há poucas nuvens e predominância do sol, o contraste térmico será maior do que em um dia nublado, no qual não há tanta presença de radiação.
— Quando há nuvens, entra menos radiação, mas, a que entra, não consegue sair. Com esse teto (céu) mais baixo, todo esse ar se torna homogêneo e eu tenho em toda cidade uma condição muito similar, que não é uma consequência aí do tipo de construção, e sim, simplesmente, de eu ter um colchão de ar que é mais estreito e que se homogeneíza em função de não ter uma grande entrada de radiação e, de noite, também não ter muita saída de radiação — pontua Hasenack.

Por isso, os pesquisadores dizem que as ilhas de calor são um fenômeno de “bom tempo”, no qual é registrada muita radiação ao longo do dia, absorvida por diferentes superfícies, como concreto, asfalto e telhado.
— Se tu tens dois prédios, um de cada lado da rua, e o sol batendo de manhã, a parede de um prédio reflete o calor para a do outro, que reflete para a rua, e fica aprisionado ali dentro esse calor. De tarde, acontece a mesma coisa no outro prédio. Então, tu tens ali um cânion, que aprisiona o calor, porque não tem céu suficiente para aquele ar sair — afirma Hasenack.
Em um lugar que tenha casa, com gramado, o professor destaca que haverá "o céu livre para o calor que se armazenou na superfície se dissipar".
Medidas em debate
A prefeitura de Porto Alegre avalia estratégias para reduzir o impacto do calor urbano, como a ampliação da arborização viária e a qualificação de espaços públicos. O secretário do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade, Germano Bremm, destaca que ações desse tipo têm efeito gradual e são essenciais para adaptar a cidade às mudanças climáticas.
Dentro do Plano de Ação Climática elaborado pela prefeitura, por exemplo, uma análise de riscos e vulnerabilidade climática aponta para quatro bairros com risco alto de ondas de calor em 2050: Vila João Pessoa, Bom Jesus, Bom Fim e Cidade Baixa.
O motivo, segundo o relatório, é a “intensa urbanização desses lugares, com presença de uma grande concentração de edificações e sistema viário”, o que “implica em maiores áreas impermeáveis e aumento da temperatura da superfície”. O documento cita como formas de influenciar adaptação da população às ondas de calor a “presença de maior arborização das ruas”.
— O que nós estamos fazendo para tentar diminuir esse problema? Plantando. Aí entram os investimentos na urbanização, na qualificação, entendendo e priorizando esses bairros dentro do nosso contrato de plantio inteligente — descreve o secretário.
O conceito de “plantio inteligente” busca compatibilizar a vegetação com a infraestrutura urbana, como redes de luz, água e gás. São utilizadas sementes de espécies nativas produzidas no Viveiro Municipal, reativado em 2023.
Outra medida foi a instalação de 10 totens de monitoramento e seis pontos de medição da qualidade do ar e da temperatura, a fim de munir a prefeitura com dados. Para prédios que adotam medidas ecológicas, como a instalação de telhados verdes e painéis fotovoltaicos, o secretário cita incentivos como o desconto de até 10% no IPTU e a permissão de aumento da altura da edificação em até 20%.