Direto da Redação
Henrique Moreira: coleira e conchinha
Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano


É a minha primeira vez nesta coluna e pensei muito sobre como começar. Pensei em falar de mim, de rotina, em frases mais inteligentes e bonitas. Mas aí cheguei em casa, abri a porta, e fui interrompido por dois gatos que agem como se eu tivesse sumido por anos, quando, na verdade, só fui ao estágio.
Então é isso. Uma apresentação honesta não começa no que penso, mas no que me espera. No que me puxa pela barra da calça, mia alto, reclama do atraso e exige presença imediata.
Kovu é um frajola. Curioso, falante e convencido de que o condomínio todo é território dele. Todos conhecem o Kovu. Inclusive os cachorros, que ele encara sem respeito à cadeia alimentar. Kovu passeia todos os dias, de peitoral e guia, pela praça do condomínio, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Aliás, você já viu um gato passear de coleira? Pois é, eu também não, agora vejo todos os dias. Ele acha ótimo. Eu viro atração turística.
O carinhoso
Tadeu é cinza e peludo. Cinza de nuvem carregada antes da chuva. Observador, carinhoso e dono de um olhar profundo que parece guardar um segredo milenar. Sempre ouvi que gatos são frios. Tadeu não recebeu esse memorando. Ele pede carinho como um cachorro, espera na porta quando chego do estágio e dorme de conchinha comigo. Ele não sabe pular alto como o irmão. Isso é um fato científico. Analisa, pensa, mede e... desiste.
Enquanto Kovu me empurra pra vida, Tadeu me permite respirar. Não sei se este texto explica quem eu sou. Mas sei que, se Kovu pudesse escrever, reclamaria da demora para publicar. E se Tadeu pudesse revisar, diria que já dá para descansar.
Eles são meu mundo. São eles que organizam meus horários, justificam meus atrasos e interrompem crises existenciais. E assim eu sigo, talvez mais atento e mais presente, porque dois gatos me esperam na porta como se eu fosse, todos os dias, absolutamente indispensável.