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Jovem da Restinga, periferia de Porto Alegre, brilha em escola de dança de Nova York

Nas sextas-feiras, o colunista Émerson Santos escreve sobre educação, cultura, inovação e toda a diversidade presente nas comunidades

09/01/2026 - 08h00min


Émerson Santos
Émerson Santos
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Nando Espinosa/Divulgação
Lucas Rieger em espetáculo da Cia Municipal de Dança da Capital.

Sabe aqueles projetos que surgem em colégios públicos com foco em ajudar os alunos a se desenvolverem? Pois um deles, lá da Restinga, na Capital, foi a porta de entrada para um guri começar a sua trajetória no mundo da dança. EntreVilas conta um pouco da história de Lucas Rieger, 19 anos, que, a partir de uma iniciativa social, saiu da periferia de Porto Alegre e chegou a uma destacada escola de Nova York, nos Estados Unidos.

Aos dez anos, ele passou a ter aulas na Escola Preparatória de Dança (EPD) Senador Alberto Pasqualini, no colégio de Ensino Fundamental onde ele estudou. Lucas resume, então, que foi essa primeira experiência com a arte, em um projeto social de seu bairro, que deu a ele uma oportunidade:

— Minha família é bem pobre, e essa era uma barreira que eu tinha para entrar no mundo da dança, que é muito caro.

Nos três anos em que ficou na EPD Pasqualini, ele diz que o espaço foi o responsável por “abrir sua mente” para a compreensão de que queria algo melhor para o seu futuro, e que esse futuro estaria ligado à dança:

— Esses projetos são o coração da arte na periferia. Vão ensinar com uma base forte entre amor e demonstração de afeto pelo que você faz. E isso é uma coisa que faz os projetos de dança serem extremamente importantes, a nossa dança se mantém viva.

Anos de dedicação

Não demorou muito para que ele começasse a alçar voos. Entre 13 e 14 anos, conseguiu uma bolsa para estudar na Petite Danse, no Rio de Janeiro. Para garantir essa vaga, além do processo seletivo, contou com a ajuda e indicação da professora Helena Paz, que dá aulas na Alberto Pasqualini.

Pelas poucas condições financeiras da família, a mãe não pôde se mudar. Então, na adolescência, ele passou a morar sozinho no Morro da Babilônia, favela do RJ. Para se manter, usava a pensão do pai e R$ 50 semanais que a mãe conseguia enviar.

Após cerca de dois anos na escola de dança carioca, conseguiu alguns trabalhos pontuais na sua área. Com o tempo, surgiu a ambição de seguir seus estudos fora do país. Ao se formar na Petite Danse, no fim de 2024, dedicou o ano seguinte a esse objetivo.

Mas a grana seguia como uma questão que pesava. Sem condições de pagar professores particulares, ensaiava sozinho para as audições. Para dar conta disso, treinava diariamente, com rotinas que iam da manhã à noite. O resultado foi passar em três instituições dos EUA, sendo uma delas a Alvin Ailey American Dance Theater School, a que ele desejava:

— Não imaginava que eu iria ganhar uma bolsa de quatro anos, porque normalmente você recebe para só um ano. Isso me surpreendeu muito. Como um menino que vem de um projeto de dança, de um projeto social, chega ao ponto de receber quatro anos de bolsa em uma escola dessa?

Sonho continua

Nando Espinosa/Divulgação
Ainda na adolescência Lucas já sonhava em estudar fora do país.

Para a viagem, precisou ainda fazer uma mobilização para arrecadar os valores para documentações e taxas necessárias para ir aos EUA. Fez vaquinha online, trabalhou como garçom e contou com outras doações.

Há cinco meses em Nova York, hoje ele mora no Queens, um distrito da cidade, e estuda na ilha de Manhattan. Para se manter, segue tendo o apoio da família e recebe um auxílio financeiro da instituição.

Ele fala que é um lugar caro de se morar, tem seus desafios, mas celebra a conquista. Já estava, inclusive, participando de ensaios com a companhia oficial da Alvin Ailey American Dance, o que pode ajudá-lo, no futuro, a ter um contrato profissional com o grupo.

Olhando para sua própria trajetória, Lucas novamente destaca o papel crucial que o projeto social desempenhou em sua caminhada:

— Dá oportunidades para crianças sonharem.

Um espaço de oportunidades

Acesso à cultura, oferecer educação qualificada e mostrar para os alunos que o mundo é maior do que o lugar onde eles moram. Esses são alguns objetivos que resumem o propósito da Escola Preparatória de Dança.

Na Emef Senador Alberto Pasqualini, a professora Helena Paz é quem coordena a ação. Ela explica que a EPD, que completou 10 anos em 2025, é uma das quatro em atividade na cidade. O projeto é uma iniciativa em parceria com a Secretaria Municipal da Cultura, que oferece as aulas para alunos da rede de ensino da cidade.

O programa é bem rico, tem estilos de dança variados, como contemporânea, afro, urbana, sapateado americano, danças populares, orientais e balé. Com uma carga horária semanal que vai de 10h a 12h, o foco é investir na qualidade da formação. E os resultados são percebidos a partir de histórias como a de Lucas e de outros vários estudantes que passaram pela EPD Alberto Pasqualini e hoje seguem atuando no mundo da dança.

Quando pensa nesses jovens que passaram pelo projeto, Helena afirma que eles se tornaram referências positivas para as novas gerações, “para que possam sonhar”.

— Sozinho é muito difícil de conseguir, mas quando a gente tem o apoio das pessoas, quando se tem uma rede de apoio, é possível — afirma, ao comentar sobre a importância de se dar oportunidades.


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