Papo Reto
Manoel Soares: "Não há cobra nem toco"
Colunista escreve no Diário Gaúcho aos sábados


Sabe quando você tem medo de dar um passo adiante por causa de uma situação vivida no passado? Isso é um instinto animal que temos, que vai além de nossa compreensão e não necessariamente é a realidade.
Isso me lembra uma história que ouvi na infância: um homem passava com seu cavalo ao fim do dia perto de um arbusto, na entrada da fazenda. De repente, o cavalo deu um pinote, pois viu enrolada em um toco uma cobra.
Ao tentar atacar o homem e o cavalo, a cobra foi golpeada com o facão, mas o cavalo continuou assustado por dias após o fato. Sempre que passava pela entrada da fazenda, o cavalo dava pulos, pois lembrava da cobra. O homem, para tentar acalmar seu cavalo, queimou o arbusto e decepou o toco, mas ainda assim o cavalo se assustava ao passar pelo local. No fim, para garantir a qualidade de suas obrigações diárias, teve que trocar de cavalo, pois o outro ficou sem utilidade por conta do trauma.
Às vezes somos como esse cavalo. Os traumas limitam nossas habilidades, nos imobilizam, e olha que não estou falando somente de traumas fatais, mas de pessoas que nos ofendem, nos traem, nos humilham, situações de decepção ou desavença. Assim como o cavalo tinha medo de uma cobra que não estava mais lá, nós tememos comportamentos que estão no passado. O toco foi decepado e a cobra foi morta, mas o impacto daquele dia fez com que o cavalo perdesse sua utilidade, precisando ser trocado.
Assim também é em nossa vida. Nem sempre o mundo vai entender nossos traumas e se moldar, às vezes seremos somente deixados para trás com nossas dores. A moral é entender que não existe mais o toco nem a cobra, podemos seguir nosso caminho, ou ficaremos parados nele.