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Em modo verão

Por que o mar do RS está mais quente e cristalino neste verão

Combinação de fatores influencia não apenas o visual da água, mas também sua temperatura e a dinâmica de nutrientes

27/01/2026 - 16h21min


Carolina Dill
Assistente de conteúdo*
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Muita gente ainda associa o mar do Rio Grande do Sul à imagem clássica de águas turvas, em tons amarronzados, e frias. O famoso: chocolatão.

Neste verão, porém, quem segue rumo ao Litoral encontra um cenário diferente: um mar majoritariamente de água clara e temperatura convidativa. Para alguns banhistas, está até mais quente.

E não é só uma percepção. A temperatura da água do mar tem girado em torno de 24ºC agora em janeiro, quase 5ºC acima do registrado em dezembro (veja no mapa abaixo). Ainda assim, não é algo raro, já que durante o verão a temperatura costuma passar dos 20ºC. 

Mas para o mar ficar com aspecto límpido e temperatura agradável é preciso uma combinação de diversos fatores naturais, como o padrão atmosférico predominante, os regimes de vento e a atuação das correntes marítimas

Juntos, tais elementos influenciam não apenas o visual da água, mas também sua temperatura e a dinâmica de nutrientes, o que afeta diretamente a presença ou ausência de organismos marinhos.

Além disso, o panorama atual reflete um período sem eventos atípicos capazes de alterar as características do litoral. Trata-se, portanto, de uma das condições naturais que o mar gaúcho pode apresentar, ainda que nem sempre seja a mais lembrada.

Temperatura da água

De acordo com Elírio Ernestino Toldo Júnior, professor do Instituto de Geociências e integrante do Centro de Estudos de Geologia Costeira e Oceânica da UFRGS, a temperatura da água no litoral do Rio Grande do Sul varia bastante ao longo do ano em razão da interação entre duas correntes oceânicas: a corrente das Malvinas, fria e de origem polar, e a corrente do Brasil, mais quente e equatorial.

No verão, a influência da corrente do Brasil costuma aumentar, criando condições para um mar mais aquecido. No entanto, a temperatura que o banhista sente depende também da ação dos ventos, especialmente os de nordeste e sudeste, que podem intensificar ou amenizar esse aquecimento.

— O vento de sudeste traz a água superficial para a costa, deixando o mar um pouco mais quente. Já o vento nordeste afasta essa água quente e faz subir a água mais fria do fundo (do mar). Por isso, o melhor banho de mar ocorre quando temos a Corrente do Brasil atuando ao longo do nosso litoral e ventos de sudeste soprando sobre ele — explica o especialista.

Embora o vento nordeste seja o predominante no verão, ele nem sempre sopra com força suficiente para provocar um resfriamento significativo

Quando está fraco, seu impacto é pequeno, e a temperatura do mar tende a se manter elevada. Mas quando sopra com intensidade e persistência traz água fria das camadas profundas e reduz o aquecimento promovido pela corrente do Brasil.

Neste verão, um fator adicional tem contribuído para deixar o mar mais ameno: a forte incidência solar. Com muitos dias de céu aberto e radiação intensa, a superfície do mar recebe mais calor e aquece com mais facilidade sempre que o vento nordeste não está atuando de forma marcante.

Mesmo assim, a temperatura da água pode oscilar bastante ao longo da estação. Há dias em que o mar está agradável e, em outros, gelado. Essa variação resulta da combinação entre a força e a direção dos ventos, mudanças rápidas nas condições atmosféricas e a constante disputa entre a corrente quente e a fria.

E o La Niña?

O Rio Grande do Sul está atualmente sob influência de um La Niña curto e fraco, que vem perdendo intensidade ao longo das últimas semanas. Esse fenômeno climático, que envolve o resfriamento relativo das águas do Pacífico equatorial, impacta indiretamente o mar gaúcho. 

Em geral, La Niña está associado a ventos e padrões atmosféricos que favorecem maior circulação de águas frias. Contudo, com a diminuição da força, esses efeitos tendem a ser mais suaves, contribuindo para períodos mais longos de mar relativamente estável, limpo e com temperatura um pouco mais elevada, como tem sido observado na costa gaúcha. 

Cor da água e o "chocolatão"

Embora o litoral gaúcho tenha, por características naturais, uma coloração mais escura do que as praias de outros Estados, o mar tem chamado a atenção dos banhistas neste verão pelo tom azulado e pela maior transparência da água

Segundo Ng Haig They, professor do Centro de Estudos Costeiros, Liminológicos e Marinhos (Ceclimar) e do Campus Litoral Norte da UFRGS, esse comportamento está diretamente ligado à predominância de dias quentes e de céu claro, além da atuação dos ventos de nordeste.

A menor passagem de frentes frias e a ausência de chuvas frequentes diminui o volume de água doce que chega ao oceano por rios e estuários. Essa redução no aporte hídrico leva a uma queda na concentração de nutrientes disponíveis no mar e, como consequência, freia a proliferação de algas e microalgas, que são os fatores que contribuem para o tom escurecido e pelo "chocolatão".

— Durante o verão, podemos ter alguns dias com a passagem de uma frente fria e aí vamos ter alguma circulação, alguma turbulência da presença de algas, mas será um pouco mais localizada. Será mais transitório, não será um fenômeno tão grande quanto no inverno — diz Ng Haig They. 

Poluição marinha

É importante destacar que transparência não é sinônimo de água limpa ou indicativo de balneabilidade. Por exemplo, conforme o professor Ng Haig They, a cor do "chocolatão" pode até parecer sujeira, mas trata-se de um fenômeno natural, resultado de fatores oceanográficos e ambientais típicos da região. 

— A cor da água não nos dá uma indicação sobre o nível de poluição. Padrões microbiológicos podem estar presentes na água transparente ou na água marrom. Outros contaminantes, como metais, pesticidas, também estão presentes e não alteram a cor da água — diz.

No momento, não existem estudos que indiquem se o mar do Rio Grande do Sul está mais ou menos poluído nesta temporada em comparação à anterior

Ainda assim, é comum que durante a estação mais movimentada aumente o acúmulo de resíduos na orla e na água, principalmente devido ao crescimento da população nas praias, reforça o também professor do Ceclimar da UFRGS, Gerson Fernandino de Andrade Neto.

Plásticos, embalagens e outros detritos podem ser carregados para o mar pelas ondas e ventos, o que afeta a qualidade da água e a vida marinha. 

— Além da poluição sólida, enfrentamos problemas relacionados à poluição química e biológica. O saneamento básico e o esgoto representam desafios significativos para o nosso litoral, já que o sistema fica extremamente sobrecarregado durante esses períodos de maior ocupação — reflete Gerson Ferdinando.

Fauna marinha

A dinâmica dos seres marinhos também está dentro do padrão esperado para o verão: as águas ficam mais quentes, mais salgadas e com poucos nutrientes, o que reduz a presença de vida microscópica. 

Com menos sedimentos e menor atividade de micro-organismos, elas também se tornam mais limpas e menos turvas.

O professor do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal de Rio Grande (FURG), Luis Gustavo Cardoso, explica que essas condições ambientais influenciam na fauna de peixes encontrada perto da costa e atraem espécies específicas que acabam sendo muito procuradas pelos pescadores de beira de praia, tanto esportivos quanto artesanais. 

Torna-se mais comum encontrar espécies como papa-terra, corvina, miraguaia (ou burriquete) e até bagres.

E as águas-vivas?

O litoral gaúcho tem registrado aumento expressivo nos casos de queimaduras causadas por águas-vivas. Dados do início de janeiro contabilizam mais de 23 mil ocorrências nesta temporada

E os gaúchos devem seguir observando a presença destes animais no verão. A corrente do Brasil, que traz águas quentes, favorece a migração das águas vivas para o litoral gaúcho

As massas marinhas e os ventos acabam carregando esses organismos e concentrando-os perto da costa, o que faz com que cheguem em maior número às praias. Além disso, as águas-vivas tendem a se reproduzir mais rápido nessas condições. 

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