Volta para casa
"Recebemos até passarinhos com asas cortadas": como é a reabilitação de aves apreendidas do tráfico
Comércio ilegal violenta os animais, ameaça a existência das espécies e provoca homogeneização da fauna


O tráfico de pássaros silvestres tem impactos profundos na vida dos animais. Ao serem resgatados pelas autoridades, precisam frequentemente passar por reabilitação e tratamento antes de retornar à natureza. Alguns nunca conseguem voltar.
Foi o que comprovou a reportagem de Zero Hora ao visitar a Área de Soltura de Animais Silvestres localizada na Quinta da Estância, em Viamão, na Região Metropolitana. É para lá que são enviados muitos dos que passam pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama em Porto Alegre.
Na Quinta da Estância, foi possível ver animais como papagaios-charões, papagaios-verdadeiros e araras-canindé. Um pássaro bigodinho, vindo de apreensão em Tubarão (SC), seria encaminhado para soltura no Estado vizinho. Entre 70 e 80 aves estavam nos viveiros.
Processo de readaptação
O biólogo Fabiano Peres Menezes, chefe do Cetas do Ibama em Porto Alegre, explica que as aves recém-capturadas por traficantes e logo apreendidas pela fiscalização têm mais condições de serem soltas imediatamente na natureza. Porém, aquelas engaiolados há mais tempo necessitam passar por um processo de readaptação à vida selvagem.
— Existem casos que os pássaros não podem ser soltos. Precisamos ter certeza de que eles não carregam nenhum patógeno que possa atingir os outros animais — diz Menezes.
Os pássaros que mais chegam para reabilitação, segundo o biólogo, são os papagaios-charões e os papagaios-verdadeiros. Estes últimos vêm de regiões distantes, como Cerrado, Pantanal e Amazônia, e, após a reabilitação, são soltos na Região Norte do país.
O mais difícil é conseguir fazer as aves se readaptarem aos perigos da natureza. Isso é o que demora mais.
FABIANO PERES MENEZES
Biólogo e chefe do Cetas do Ibama em Porto Alegre
"Manter pássaros em gaiola já é maus-tratos"
A veterinária e analista ambiental do Ibama Denise Englert diz que os animais chegam à Quinta da Estância sem força muscular para voar, muitas vezes com alimentação incorreta, estresse e machucados.
Há pessoas, segundo ela, que cortam o tendão de papagaios ou araras, casos em que não conseguem mais voltar a voar.
— Já recebemos até passarinhos com as asas cortadas — relata.
A reabilitação envolve exames, avaliações médicas e tratamento veterinário. Apenas depois desse processo é possível devolver as aves para a natureza.
— Manter pássaros em gaiola já é maus-tratos — diz Denise.

Pássaros de longa data em cativeiro
O Parque Zoológico de Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana, onde um Cetas funcionou há alguns anos atrás, abriga até hoje alguns dos animais apreendidos do tráfico que não têm condições de voltar à natureza.
— O que mais recebíamos eram pássaros de longa data em cativeiro, como tico-ticos, cardeais e canários — conta a médica-veterinária Maria do Carmo Boph, que trabalha no zoológico desde 2001.
De acordo com a profissional, os traficantes chegam a cortar galhos de árvores onde estão os ninhos com os filhotes. Ela explica que, para fazer a soltura, é preciso conhecer o local onde o animal foi capturado e saber sua procedência exata.
Não é simplesmente abrir a gaiola e dizer 'se vira'.
MARIA DO CARMO BOPH
Médica-veterinária do Parque Zoológico de Sapucaia do Sul
Homogeneização da fauna
As populações de pássaros retiradas da natureza pelo tráfico se retraem, fazendo com que aves "generalistas" ocupem aquele espaço, muitas delas de origem tropical, que estão sendo beneficiadas no Rio Grande do Sul por conta da mudança climática.
É o que explica o professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Demétrio Luis Guadagnin:
— A tendência é a fauna em geral ir se homogeneizando. Vamos encontrar as mesmas espécies em todos os lugares.
Segundo o professor, o cenário é "mais grave do que parece" e promove efeitos em cascata em vários processos ecológicos. Essa uniformização da fauna influencia a dispersão de sementes, a polinização e a predação de invertebrados, por exemplo.
— Precisamos de iniciativas para aumentar o tamanho dessas populações (das aves afetadas pelo tráfico) — afirma. — A primeira medida é ampliar a superfície de áreas protegidas. E a segunda é a busca de atividades produtivas para todas as áreas que não serão legalmente protegidas, que sejam mais amigáveis à biodiversidade.
"Rombo" na natureza
O biólogo Francisco Milanez, atual diretor técnico-científico da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), lamenta o desaparecimento de espécies até das árvores de Porto Alegre:
— Tínhamos pássaros maravilhosos, como saíra-sete-cores e pintassilgo. Estamos abrindo um rombo na natureza que não pode ser preenchido por outro animal, porque eles já estão ali há milhares de anos desenvolvendo sua função.
Para Milanez, "as pessoas têm de aprender a manter livre aquilo que amam".
— A coisa mais realizadora é ver o canto deles soltos, e não aprisionados. Já temos várias espécies de pássaros em risco de extinção ou extintas no Estado.
Grave ameaça às espécies

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) afirma, em nota à reportagem, que o tráfico de aves silvestres representa uma "grave ameaça" a essas espécies, pois "não apenas os animais são retirados da natureza, mas todos os seus possíveis descendentes são privados da vida livre no hábitat".
Entre 2020 e 2025, os Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama no país receberam mais de 370 mil animais — não apenas pássaros. Desses, 61% voltaram à natureza após tratamento ou reabilitação.
Em Porto Alegre, foram 1.062 aves apreendidas em 2024, o oitavo maior número entre os 25 Cetas do país naquele ano. A unidade da capital gaúcha passa por ajustes nas suas instalações, por isso o número de atendimentos em 2025 (91 entradas de aves até 1º de dezembro) não é um retrato fiel da realidade.
Santa Maria ganha um Cetas
Uma novidade foi a inauguração, em dezembro de 2025, de um Cetas em Santa Maria, localizado no Campus Sede da universidade federal (UFSM). É o 26º espaço do tipo no país.
Segundo o Ibama, a região apresenta vulnerabilidade ao tráfico internacional de fauna, dada sua proximidade com as fronteiras do Uruguai e da Argentina. Sua localização central, com acesso rodoviário e aeroporto, sugere rapidez no atendimento, transporte e destinação adequada dos animais silvestres.
Em 18 de dezembro, o Ibama e o governo do Estado assinaram um protocolo de intenções para a construção de um grande espaço em Sapucaia do Sul para onde seriam encaminhadas as aves apreendidas do tráfico silvestre no território gaúcho. A gestão do local será compartilhada.
Como denunciar
A Ouvidoria do Ibama é responsável por receber denúncias sobre infrações ambientais e viabilizar o tratamento e o encaminhamento adequados aos animais.
O contato pode ser feito pelo telefone 0800-061-8080 ou pela plataforma Fala.BR. As denúncias podem ser anônimas.