Cuidado precisa continuar
RS registra o menor número de mortes por dengue em quatro anos em 2025
Casos da doença tiveram redução de 80% no ano passado, em comparação com 2024, mas especialista aponta que soma segue alta


Depois de um 2024 com números alarmantes, o Rio Grande do Sul registrou uma queda nas mortes por dengue no ano que passou. A Secretaria da Saúde do Estado (SES) confirmou 52 óbitos no Rio Grande do Sul causados pela doença nos últimos 12 meses.
É o menor número desde 2021, quando o Estado contabilizou 11 mortes. Em 2024, a secretaria reportou 281 óbitos por dengue no Rio Grande do Sul — duas vezes mais do que todas as vítimas entre os anos de 2015 e 2023, que foram 140.
O período com mais mortes no ano passado foi entre a metade de março e a metade de maio. Ao longo de 10 semanas, 46 pacientes faleceram, uma média de quatro óbitos por período. Em 2023, no mesmo período (ao longo de 11 semanas), 233 pacientes morreram — uma média de 21 óbitos a cada sete dias.
De acordo com o painel da SES, mais da metade dos pacientes que morreram em decorrência da dengue tinham mais de 70 anos. A faixa etária que registrou mais óbitos foi a de 80 anos ou mais, com 17 mortos, enquanto 14 óbitos eram de pessoas de 70 a 79 anos.
No total, 53,85% das vítimas eram mulheres. Dos 52 óbitos, 25 aconteceram em Porto Alegre. O segundo município com mais vítimas da doença foi Cachoeira do Sul, com cinco.
Redução de casos
O número total de casos de dengue em 2025 também apresentou redução de 80% em comparação com o ano anterior: foram 42.135 casos confirmados, enquanto o Estado contabilizou 209.668 em 2024.
O número de ocorrências da doença no RS no ano passado supera os dados de 2023 (38.737), mas é inferior a 2022 (67.349). Para se ter uma ideia, se somarmos todas as ocorrências da doença entre os anos de 2015 e 2023 no Estado, o resultado é de 125.504 — número inferior ao de todo 2024.
A faixa etária que registrou mais infectados em 2025 foi a de 20 a 29 anos, com 7.313 casos. Por outro lado, foi o ano com o maior número de municípios infestados — 477. Houve um pequeno aumento em relação a 2024, quando o Estado reportou a doença em 474 cidades.
"Normalizamos o que não é normal"
Embora os dados de 2025 representem uma melhora em comparação ao ano anterior, é preciso frisar que 2024 foi atípico no Brasil e nas Américas, como alerta Valeska Lagranha, bióloga do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (órgão atrelado à SES).
Ela alerta que, desde 2022, os casos de dengue atingiram números expressivos. Para exemplificar, o Estado não registrou óbitos pela doença em 2019, mas foram 66 mortes três anos depois.
— Ao comparar com 2024, normalizamos o que não é normal. Para nós, os dados de 2025 são números ainda muito altos. Notamos que a dengue agora é endêmica no Estado. Antigamente, dizia-se que só havia dengue no verão. Hoje sabemos que a doença aparece no inverno também — lamenta Valeska.
Em relação ao aumento de casos nos últimos anos, a bióloga acrescenta que o Aedes aegypti (espécie transmissora da dengue) tem capacidade de adaptação. Ela ressalta que se antes o mosquito necessitava de uma lâmina de água parada, porém necessariamente limpa, hoje já se observa que o inseto se reproduz também em água que não precisa estar tão limpa assim. Ao mesmo tempo, ele também se adaptou ao ambiente do Rio Grande do Sul. Fatores como desmatamento de áreas verdes e acúmulo de lixo em grandes cidades auxiliam a proliferação.
Para o cenário alarmante de 2024, houve um evento climático atípico em setembro do ano anterior no Estado, de chuva intensa que atingiu mais de cem municípios e criou a possibilidade de novos criadouros do mosquito. A bióloga acrescenta que os anos 2023 e 2024 apresentaram períodos de temperatura mais quente, inclusive no inverno, o que acelera o ciclo de reprodução do Aedes aegypti. Consequentemente, esse cenário favoreceu o aumento de casos.
— Ao olharmos para esses dados, talvez tenhamos de aprender a lidar com a dengue sendo endêmica no Estado. Passaremos a nos preocupar com as ações de controle e de combate ao vetor não só no verão, mas a realizar toda essa rotina semanal de limpeza do nosso território, evitando o acúmulo de água parada no inverno também — reflete Valeska.
Por outro lado, a vacina da dengue começará a ser distribuída pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2026. Conforme a SES, ainda não há previsão de recebimento de doses. Ao mesmo tempo, Valeska ressalta que a vacina é uma ferramenta a mais no combate à dengue, mas não a única.
— Nós não temos a vacina para toda a população ainda, não chegou aos nossos 497 municípios. Temos de incentivar a vacinação, mas também compreender que é só mais uma estratégia. A vacina é contra a dengue, mas o Aedes transmite outras doenças, como a chikungunya e a zika. Então, as ações de combate ao vetor precisam continuar para evitarmos o surto de outras doenças — atesta.