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PIQUETCHÊ DO DG

Uma parceria além dos troféus

A jornada de uma menina, sua mãe e a égua de 17 anos que transformou afeto em força — até o dia em que a pista virou luta pela vida

05/01/2026 - 12h54min


Henrique Moreira
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Tharsis Samanta Telles dos Anjos/Arquivo pessoal
Laço de Andrielly e Bandida mistura tradição e cumplicidade.


A história da pequena Andrielly dos Anjos Pereira, hoje com 10 anos, com a égua Bandida, de 17 anos, iniciou numa estrada de terra, muito antes dos troféus, das noites sem dormir e do desespero recente. Começou quando ela ainda cavalgava com o tio pela Estrada do Rincão, na Capital, repetindo sempre o mesmo desejo — aquele que insistia em nascer dentro dela.

A mãe, Tharsis Samanta Telles dos Anjos, 31 anos, percebeu cedo que não era fantasia infantil. Tudo se confirmou no dia em que passaram pela cancha do Leco, treinador conhecido pela generosidade de deixar seu espaço aberto para quem quisesse aprender. O tio perguntou se a menina queria tentar passar pela baliza, e ela aceitou sem hesitar.

– Eu dizia para o meu tio que um dia eu ia ser “reiadora”, mesmo antes de entender o significado disso. Ele ria, achava que era coisa de criança, mas eu sabia, aqui dentro, que tinha encontrado o lugar onde eu queria crescer – afirma Andrielly.

Nesse contexto, reiadora é a forma feminina de reiador – a pessoa que compete na prova de rédeas (ou provas campeiras semelhantes, como baliza).

Nas semanas seguintes, a rotina virou compromisso. O primeiro rodeio, no Dia das Crianças do ano passado, marcou a virada: Andrielly aprendeu o percurso na hora e voltou para casa com dois troféus – segundo e quarto lugares. A partir dali vieram muitos outros, até chegara o mais importante: o troféu do mata-mata, prova decisiva que ela venceu com Bandida em um dia descrito pela família como inesquecível.

No sítio da família, Bandida se acostumou a ter atenção especial. As duas aprenderam juntas sobre tempo, ritmo e confiança. A cada fim de semana, um novo rodeio. Em um deles, a menina voltou com quatro troféus; em outro, com dois; em quase todos, subiu ao pódio.

– Eu sempre digo que a Bandida é minha máquina. Ela nunca me deixou sair de uma pista sem trazer um troféu. Ela sempre dava um jeito de fazer tudo valer a pena para mim. E eu sempre quis dar tudo para ela também – comenta.

Corpo pediu ajuda

Tharsis Samanta Telles dos Anjos/Arquivo pessoal
Égua passou por maus bocados.

Os primeiros sinais foram discretos. Em dois rodeios seguidos, Bandida entrou na pista e disparou para fora sem completar o percurso. A família imaginou que fosse dificuldade com o freio novo. A égua não demonstrava dor, apenas inquietação. No último rodeio, em dezembro de 2025, ficou impossível ignorar: a égua tentou três vezes iniciar o percurso e, nas três, disparou com força, sem direção. Fora da pista, nervosa, tentava deitar – risco grave em quadros de cólica.

A primeira veterinária realizou sondagem, aplicou soro e medicação e alertou: era fundamental impedir que Bandida deitasse. 

A família passou a madrugada inteira de pé, tentando manter a égua em segurança. Pela manhã, veio a recomendação decisiva: ela precisava ser levada ao hospital veterinário para uma cirurgia de retirada de pedras no intestino. O orçamento era de R$ 13 mil.

A mãe não hesitou. Levou a égua para a cirurgia na noite de 15 de dezembro. O procedimento foi longo, delicado e cheio de riscos. Ela demorou a despertar da anestesia e, às 4h19min, finalmente chegou a notícia que a família esperava.

– A gente não tinha garantia nenhuma, mas tinha certeza absoluta de que não ia desistir. Quando me ligaram dizendo que ela tinha acordado e estava em pé, eu desabei. Era como se alguém tivesse devolvido o fôlego para a minha filha – relata a mãe.

No dia 25 de dezembro, data da alta, Tharsis Samanta tomou uma decisão difícil: vendeu o carro para pagar tudo. Foi um presente incomum de Natal – mas o mais importante que poderiam receber.

– Se eu tivesse que vender tudo o que eu tenho, eu venderia. Vendi o carro, paguei a conta e voltei a pé para casa, mas voltei com ela viva –   afirma Tharsis Samanta.

Agora, mãe e filha moram temporariamente na chácara da família, cuidando de cada detalhe da recuperação de Bandida. Serão três meses sem montar e seis meses até voltar às pistas.

– Eu amo ela mais que tudo, sabe? Ela sempre vai estar comigo, e todos os cuidados que eu conseguir dar para ela eu sempre vou dar. Pretendo voltar aos rodeios com ela, porque eu amo andar com ela. Amo estar com ela em todos os segundos. Mesmo agora, que ela não pode ser montada, fico com ela todos os dias, porque ela é muito amada, muito querida, e a gente nunca vai deixar de cuidar dela –afirma Andrielly, com esperança.

*Com supervisão de Caroline Tidra



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