RETRATOS DA VIDA
"A história do meu filho começa quando alguém diz sim à doação de órgãos", diz pai de criança transplantada
Em Porto Alegre, procedimento devolve infância a menino do Amazonas e explica por que a Capital é referência em doação de órgãos. Segundo a Secretaria Estadual da Saúde, 2.446 transplantes foram realizados em 2025, o maior número dos últimos quatro anos


O Rio Grande do Sul registrou aumento de 8% no número de transplantes de órgãos em 2025, totalizando 2.446 procedimentos, segundo o governo do Estado. Um exemplo desse número é Miguel das Graças Nina, sete anos, nascido em Humaitá, no Amazonas. Ele voltou a beber água após receber um rim em Porto Alegre. Para o pai, o professor e pedagogo Mario Jorge da Rocha Nina, 53 anos, a estatística não cabe em gráfico: ela escorre em copo, atravessa o corpo do filho e devolve o sono da família.
Miguel tinha cinco anos quando a casa deixou de ser casa. O diagnóstico chegou rápido e brutal: síndrome nefrótica, que evoluiu para insuficiência renal crônica. A vida passou a ser feita de limites. O mais cruel cabia em um copo. Tudo o que Miguel podia ingerir não podia ultrapassar 500 mililitros por dia. Qualquer excesso fazia o corpo inchar.
– Ele chorava pela água. A fala dele era choro. E a gente precisava dizer não. Dizer não para um filho é uma dor que não cabe na gente – lembra Mario.
Quando os rins falharam, vieram as máquinas. Primeiro, a diálise peritoneal, feita em casa. Depois, a hemodiálise, feita em hospital. O sangue saía do corpo, passava por uma máquina que filtrava o que os rins já não conseguiam filtrar e voltava. Quatro horas por sessão, vários dias por semana. O tratamento mantinha Miguel vivo, mas roubava o tempo, o sono e qualquer ideia de normalidade.
A viagem
Em Porto Velho, onde o tratamento era possível por uma questão de logística, a médica que acompanhava Miguel foi direta ao olhar para o limite do que podia ser feito ali. Ela indicou não apenas um destino, mas uma rede.
– Vou mandar vocês para o melhor lugar do Brasil. Porto Alegre é referência. E vocês vão ficar na Via Vida. Lá vocês não estarão sozinhos – disse a médica, segundo o pai.
Mario e a esposa, Antônia das Graças Nina, 40 anos, chegaram a Porto Alegre em 21 de julho de 2025. Vieram com Miguel, autista de grau 3 e não verbal, e deixaram para trás uma vida inteira, além da filha Letícia, cuidada por familiares. Na ONG Via Vida, na Capital gaúcha, encontraram o que o sistema não prevê: teto, alimentação, acolhimento e uma rotina que sustenta quando tudo desmorona.
O rim veio de Curitiba. Em novembro de 2025, no Hospital Dom Vicente, na Santa Casa de Porto Alegre, Miguel foi transplantado e passou pela UTI no período mais delicado. Para Mario, aquele instante inteiro cabe em uma palavra pequena e definitiva.
– A história do meu filho começou quando essa família disse sim e eu sou muito grato por isso – afirma.
O sim que sustenta
Para a presidente da Via Vida, Clarisa Wolff Garcez, histórias como essa explicam por que a doação de órgãos não é um gesto abstrato, mas um ato concreto de continuidade. No Brasil, segundo ela, quase metade das famílias ainda diz não quando é chamada a decidir.
– Só acontece se alguém disser sim. E esse sim precisa ser dito em vida, conversado em família. Depois da morte, quem fala por nós é a família. O silêncio também decide – diz Clarisa.
Ela lembra que o Brasil tem o maior sistema público de transplantes do mundo, com cerca de 95% dos procedimentos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas que nenhuma estrutura funciona sem autorização para a doação.
Além da autorização para doação de órgãos, a Via Vida depende da solidariedade cotidiana para manter portas abertas. A vice-presidente da entidade, Noêmia Gensas, explica que o SUS não cobre despesas como hospedagem, alimentação e estadia de pacientes e acompanhantes que vêm de outros estados.
– A casa vive de doações. Cada prato de comida, cada cama, cada banho quente existe porque alguém ajudou. Sem isso, muitas famílias simplesmente não conseguiriam esperar. A gente pede que as pessoas conversem com a família sobre doação de órgãos. E, se puderem, que ajudem a Via Vida. É assim que o sim continua acontecendo – relata.
Hoje, o milagre cotidiano tem uma medida simples: dois litros. É quanto Miguel bebe de água por dia.
– Antes, a água era perigosa. Hoje, meu filho bebe dois litros de água por dia. Hoje eu durmo – resume Mario.
O menino que chorava diante do copo agora bebe sem culpa. E o professor que atravessou o país em vigília deixa uma lição para ensinar: falar sobre doação de órgãos é falar de vida. Porque, em algum lugar, pode haver uma criança esperando apenas um sim para poder beber água.
Seja um doador
A ONG Via Vida acolhe pacientes de todo o Brasil que aguardam transplante e seus acompanhantes em Porto Alegre, oferecendo hospedagem, alimentação, apoio psicológico, assistência social e conscientização sobre doação de órgãos.
/// Endereço: Avenida Taquara, 579, bairro Petrópolis, Porto Alegre
/// Instagram: @viavidapro
/// WhatsApp: (51) 99602-7844
/// PIX (CNPJ): 04.043.606/0001-65 VIA Pró-Doações e Transplantes
*Com orientação e supervisão de Caroline Tidra