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Circularidade

Bandeja de plástico: entenda por que há materiais recicláveis que não são reciclados

Mesmo quando o descarte é feito corretamente pelo consumidor, é bem possível que o resíduo acabe no aterro

26/02/2026 - 09h36min


Isabella Sander
Isabella Sander
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Você vai ao supermercado e compra, por exemplo, um corte de carne que vem dentro de uma bandeja de plástico. Ao retirar o alimento, você passa uma água no recipiente, para retirar os restos orgânicos, e o descarta no lixo seco. Assim, ao chegar ao centro de triagem, o resíduo será encaminhado para reciclagem. Certo? Bom, nem sempre.

Devido a questões como dificuldades logísticas, baixo valor de mercado, pigmentação ou mistura com outros materiais, muitas embalagens que poderiam ser recicladas – e com selo de recicláveis – não são reaproveitadas. Sem interessados na compra daqueles resíduos, os centros de triagem acabam sem opção que não seja encaminhar os produtos para aterros sanitários.

Conhecida por seu trabalho de educação ambiental no Instagram, com mais de 15 mil seguidores, a recicladora Sirlei Batista de Souza produz vídeos falando sobre mitos e verdades do mundo da reciclagem. A influenciadora coordena o Centro de Triagem da Vila Pinto, no bairro Bom Jesus, em Porto Alegre, identificou que um material que costumava ser comprado, deixou de ter interessados: a bandeja de plástico transparente, que costuma armazenar frutas cortadas, biscoitos, bolos, entre outros.

— As bandejas de PET colorido sempre foram um problema: a gente recebe e já manda diretamente para o aterro sanitário, porque não tem venda. Já as transparentes nós conseguíamos vender até o mês passado, mas, agora, não temos mais comprador, e estão indo para o aterro também — explica Sirlei.

Esse tipo de bandeja costuma conter o símbolo da reciclagem com o número 7 – que indica material não especificado. Por outro lado, plásticos definidos e mais duros, como os tipos 1, 2 e 5, têm procura maior por empresas de reciclagem, especialmente quando são transparentes, e não pigmentados. Também são altamente reciclados o alumínio e o papelão.

Mesmo que a compra volte a acontecer em algum momento, Sirlei lamenta que tanto material reciclável – em torno de 224 quilos por mês – vá parar embaixo da terra.

— Eu acho que a empresa que fabrica já está fazendo errado quando coloca o símbolo de reciclável em uma coisa que não é reciclada — defende Sirlei, que é formada em Gestão Ambiental.

Procurado, o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) informou que as unidades de triagem tratam diretamente da questão mercadológica, e que o município não interfere nessa comercialização.

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Segundo Sirlei, 224 quilos de bandejas plásticas transparentes que eram recicladas estão, agora, indo para o aterro.

Motivos da mudança

Segundo Istefani de Paula, professora de Engenharia de Produção da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um dos motivos que leva essas bandejas a não serem recicladas é a falta de uma descrição clara do tipo de material utilizado na sua fabricação.

— Para a cooperativa (de reciclagem) fazer essa identificação de se aquilo é PET ou PVC é complexo, difícil, trabalhoso e demorado. Então, muitas vezes, o reciclador não compra porque tem medo de que a carga tenha misturas de PVC, que tem um ponto de fusão diferente do PET e, se for misturado, faz com que se perca a carga toda — descreve a docente.

Essa falta de clareza, conforme Istefani, se deve à pouca fiscalização da fabricação dessas bandejas e à carência de uma pressão para que o supermercadista, que costuma comprar esses recipientes, adquira produtos em que o material utilizado esteja descrito na embalagem.

Para a Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), o baixo preço vigente atualmente para matérias-primas virgens como os plásticos desestimulou o uso de materiais recicláveis, o que tem feito com que grandes empresas tenham preferido a resina virgem à compra de embalagens com conteúdo reciclado.

“Quem mais sofre com isso são os catadores que, embora possam coletar o material, ficam sem ter para quem vender. Também os recicladores estão sofrendo, com várias fábricas de reciclagem paradas ou funcionando parcialmente, com muita ociosidade”, descreveu, em nota, a Abipet.

A expectativa da entidade é de que o mercado melhore a partir do segundo trimestre de 2026, quando começa o verão no hemisfério norte e a demanda por embalagens PET e de outros tipos de plástico costuma crescer, gerando recuperação dos preços.

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Embalagens acabam sendo levadas para aterro sanitário.

Gravimetria

Contratado pela Abipet e realizado pelo Centro de Triagem da Vila Pinto, em parceria com a UFRGS, um estudo de gravimetria – ferramenta na qual é avaliado o tipo e a quantidade de lixo gerado naquele espaço – busca entender por que embalagens recicláveis acabam não sendo recicladas. O projeto abrange resíduos recebidos em unidades de triagem de bairros como Restinga, Lami, Petrópolis, Higienópolis e Bom Jesus.

Quando Zero Hora esteve no Centro de Triagem da Vila Pinto, Sirlei coletava a amostra de número 24 do estudo, que terá 30 amostras recolhidas até o dia 6 de março. A análise culminará em uma cartilha que indicará quais os materiais recicláveis que mais vão para aterros sanitários, o motivo desse encaminhamento e quais as marcas que mais utilizam esses materiais.

Conforme dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), em 2021, a taxa de cobertura do serviço de coleta seletiva porta a porta em relação à população urbana dos 480 municípios gaúchos que responderam à pesquisa era de 94,5%, índice acima da média brasileira (65,1%).

Do total coletado, apenas 4,9% eram materiais recicláveis que foram recuperados. Embora a taxa de recuperação seja baixa, era aproximadamente o dobro da taxa brasileira, de 2,4%. O material mais recuperado foi o papel/papelão (34,4%), seguido pelos plásticos (31,2%) e pelos vidros (17,4%).

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