Tua Saúde
Carnaval e álcool: o que você precisa saber para curtir com segurança
Especialista alerta que não há dose da substância sem perigos e recomenda precauções importantes durante a época


Estamos a uma semana de uma das maiores festividades do nosso país: o Carnaval. Com a celebração coletiva, a folia reúne tradições como os bloquinhos de rua, os quais envolvem música, dança, alegria e, muitas vezes, o consumo de bebidas alcoólicas.
Com a proximidade da festa, circulam informações sobre como prevenir a famosa ressaca, os efeitos do álcool após a ingestão; porém, o tema ainda é cercado de mitos.
Para esclarecer como realizar um consumo consciente, atentar a riscos e identificar sinais de desidratação e alertas para sintomas mais graves, a coluna Tua Saúde conversou com Felix Kessler, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e chefe do Serviço de Psiquiatria de Adições e Forense do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Os possíveis impactos na saúde
O especialista destaca que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não há uma dose de álcool que seja considerada totalmente segura:
– Atualmente, diretrizes internacionais recomendam o consumo mínimo possível. O guideline (orientação) canadense, por exemplo, sugere que o limite seja de apenas duas doses por semana.
O consumo de álcool está diretamente associado ao aumento do risco de transtornos mentais, especialmente depressão, ansiedade e irritabilidade, além de comportamentos de risco e violência. Os sintomas podem persistir ou se intensificar nos dias seguintes após o consumo.
Felix também aponta que o álcool interfere na tomada de decisões racionais e aumenta a impulsividade.
Padrões de consumo
O consumo de grandes quantidades em um curto período de tempo, com o objetivo de intoxicação, é considerado muito danoso a órgãos como fígado e cérebro, alerta o médico.
– Quanto maior a dose e menor o tempo, maior é a alcoolemia (nível de álcool no sangue) e os riscos associados – afirma.
Esse padrão de comportamento, associado a comemorações e conhecido como “estilo festa”, é considerado mais prejudicial ao organismo do que o chamado “estilo mediterrâneo”, o qual é caracterizado pelo consumo de pequenas doses ao longo da semana. Esse tipo de excesso pode causar inflamações graves, como hepatite alcoólica e pancreatite.
Outro ponto de atenção é a mistura de álcool com estimulantes. Um exemplo comum são os chamados “kits”, que combinam destilados com bebidas energéticas. Os estimulantes não cortam o efeito do álcool e podem aumentar o risco de problemas cardiovasculares e outras complicações clínicas, segundo Felix.
– Essa mistura pode mascarar o efeito depressor inicial do álcool, levando a pessoa a consumir ainda mais.
Grupo de risco
Para pessoas com doenças pré-existentes, os riscos são ainda maiores. É o caso de pacientes hipertensos, que podem apresentar picos de pressão ou quedas bruscas, em razão da desidratação e da interação do álcool com medicamentos, e de pessoas com depressão que fazem uso de medicações.
O especialista reforça que, na prática médica atual, evita-se falar em “uso seguro” de álcool. A orientação é optar por bebidas sem álcool, buscando romper a associação cultural entre diversão e o consumo de álcool.
Posso prevenir a ressaca?
Segundo o médico, não há evidências científicas de medicamentos ou “fórmulas mágicas” capazes de prevenir a ressaca. A forma mais eficaz de evitá-la é beber o mínimo possível ou não consumir álcool. Ainda assim, algumas estratégias ajudam a reduzir os efeitos:
/// Alternar o consumo com água ou bebidas sem álcool
/// Alimentar-se de modo adequado: evitar beber em jejum, o que intensifica os efeitos do álcool
/// Beber devagar: ingerir pequenas quantidades, com intervalos
/// Evitar misturas: café e energéticos não previnem a ressaca nem anulam o efeito do álcool
A ressaca ocorre devido ao acúmulo de substâncias como o acetaldeído durante o metabolismo do álcool. Por isso, reduzir a quantidade ingerida é a única forma comprovada de evitar os sintomas.
Desidratação
O Carnaval ocorre no verão, o que aumenta o risco de desidratação. Felix explica que o álcool pode ter efeito direto sobre o equilíbrio do organismo.
Ele não hidrata como a água e pode intensificar a perda de líquidos. Os sinais de alerta são: boca seca; dor de cabeça; mal-estar; e alteração da consciência.
– A orientação é aproveitar a festa de outras formas, sem associar a diversão ao consumo de álcool. É possível buscar prazer sem essa imposição cultural – conclui.
* Com orientação e supervisão de Émerson Santos