ESTRELAS DA PERIFERIA
Do Partenon, Hit The Kria transforma vivência em identidade
Após hiato de dois anos, artista retorna à cena com o lançamento da mixtape "Tava com Sdd? Né", no próximo domingo


Criado no bairro Partenon, em Porto Alegre, Hit The Kria, ou Ian Kria, 31 anos, cresceu cercado pela força da cultura de comunidade. A música sempre esteve por perto: samba, charme, soul e rap faziam parte do cotidiano familiar e das ruas. Ainda criança, acompanhava a mãe em eventos do bairro e viu de perto como o hip hop ocupava as esquinas não só como diversão, mas como ferramenta de expressão e compromisso social.
– Ali, vi shows de rap organizados pelos mais velhos, que já eram referências, como Da Guedes, Revolução RS e também a banda Ultramen. Eu frequentava esses e outros eventos com a minha mãe, e essa vivência moldou minha visão – explica.
O primeiro passo veio de forma espontânea, com a composição da música Mó Cilada, escrita a partir da rotina da Rua C e que acabou virando um hino local e o levou ao primeiro palco.
– O divisor de águas foi um evento da Negra Jaque. Eu nunca tinha cantado em público, mas meus amigos me incentivaram a subir no palco para apresentar essa única música.
A resposta da comunidade foi imediata e abriu caminho para integrar a formação clássica do grupo Real Família, experiência que marcou a virada como artista. Foi ali que o rap deixou de ser apenas pessoal e passou a ter peso profissional para Ian.
Com o tempo, a inquietação falou mais alto. Da vontade de ir além da música, Ian, PF Kria e DJ Drey fundaram o coletivo Kria Partenon, pensado em um movimento que unia som, visual e atitude. O objetivo era mostrar que a periferia também cria tendência, estilo e narrativa própria. Em 2018, o grupo lançou o EP Quem Mandou Convidar?
– A real importância do grupo foi mostrar para o guri da vila que ele podia ser o que quisesse. A gente quebrou aquele preconceito de que o rap gaúcho tinha que ser só cara fechada e reclamação. Mostramos que o rap também é estilo, comportamento e autoestima. O jovem da periferia viu que ele não precisa só consumir o que vem de fora, ele pode ser o dono da sua própria história e da sua própria marca – conta.
Versatilidade
Musicalmente, sua trajetória sempre foi atravessada pela mistura, com o rap sendo apenas a base. As raízes musicais de Ian são um reflexo das festas de família onde o samba e o pagode dos primos sempre estavam presentes.
– Aos 18 anos, após atravessar uma fase pessoal caótica e de muita reflexão, decidi que não precisava escolher um gênero só. Passei a ouvir conscientemente tudo o que eu amava, me permitindo crescer musicalmente para incorporar todas essas referências – revela ele.
Foi através dessa consciência que hoje possui um currículo extenso de sucessos, como Festa na Favela, Melhoria e Não Curte Minha Vida. Além disso, tem uma trajetória marcada pela presença em palcos fundamentais da cultura hip-hop, como o Festival Quilombo e o Cohab Só Rap.
Recomeços
Em 2024, após anos de estrada, Ian decidiu fazer uma pausa na carreira, a qual define como “o silêncio necessário para tratar a arte como ela merece”. A falta de estrutura, o pouco retorno financeiro e a sensação de estagnação o levaram a repensar caminhos. Mudou de cidade, silenciou e usou o tempo para se reorganizar criativamente e pessoalmente.
– Precisei desse tempo para questionar onde estava o erro. Cheguei a duvidar se era artista o suficiente. O caos da cidade, somado a essas frustrações, me forçou a mudar o rumo, a rota e a própria cidade. Mudar para Florianópolis me trouxe uma nova visão.
Após dois anos de hiato, o retorno à cena será no próximo domingo, com o lançamento da mixtape Tava Com Sdd, Né?, e o single de destaque Mudei, que funciona como um recado direto:
– É o meu manifesto de que o corre nunca parou, ele só mudou de forma. O título carrega a certeza de que deixei um legado musical que as pessoas ainda lembram. Mais do que uma apresentação do meu amadurecimento artístico e pessoal, esse projeto é a prova de que tudo se reestrutura, mas a essência nunca morre.
Hoje, após 15 anos de caminhada, Ian segue fazendo música movido pela vontade de transformar vivência em registro e levar o nome do Partenon cada vez mais longe.
– A música foi o grande divisor de águas na minha vida. Quando comecei, ela foi um livramento, a força que me afastou de caminhos errados e me deu um propósito. Mas o meu sonho ainda não parou. Eu quero rodar o Brasil e o mundo apresentando um trabalho maduro, coerente, do jeito que essa trajetória de 15 anos merece.
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* Com supervisão e orientação de Michele Pradella