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ESTRELAS DA PERIFERIA 

Do Partenon, Hit The Kria transforma vivência em identidade 

Após hiato de dois anos, artista retorna à cena com o lançamento da mixtape "Tava com Sdd? Né", no próximo domingo

17/02/2026 - 05h00min


Rayne Sá*
Rayne Sá*
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@figuerahh Instagram/Divulgação
Musicalmente, sua trajetória sempre foi atravessada pela mistura, com o rap sendo apenas a base.

Criado no bairro Partenon, em Porto Alegre, Hit The Kria, ou Ian Kria, 31 anos, cresceu cercado pela força da cultura de comunidade. A música sempre esteve por perto: samba, charme, soul e rap faziam parte do cotidiano familiar e das ruas. Ainda criança, acompanhava a mãe em eventos do bairro e viu de perto como o hip hop ocupava as esquinas não só como diversão, mas como ferramenta de expressão e compromisso social. 

– Ali, vi shows de rap organizados pelos mais velhos, que já eram referências, como Da Guedes, Revolução RS e também a banda Ultramen. Eu frequentava esses e outros eventos com a minha mãe, e essa vivência moldou minha visão – explica. 

O primeiro passo veio de forma espontânea, com a composição da música Mó Cilada, escrita a partir da rotina da Rua C e que acabou virando um hino local e o levou ao primeiro palco.  

– O divisor de águas foi um evento da Negra Jaque. Eu nunca tinha cantado em público, mas meus amigos me incentivaram a subir no palco para apresentar essa única música.

A resposta da comunidade foi imediata e abriu caminho para integrar a formação clássica do grupo Real Família, experiência que marcou a virada como artista. Foi ali que o rap deixou de ser apenas pessoal e passou a ter peso profissional para Ian.  

Com o tempo, a inquietação falou mais alto. Da vontade de ir além da música, Ian,  PF Kria e DJ Drey fundaram o coletivo Kria Partenon, pensado em um movimento que unia som, visual e atitude. O objetivo era mostrar que a periferia também cria tendência, estilo e narrativa própria. Em 2018, o grupo lançou o EP Quem Mandou Convidar?  

– A real importância do grupo foi mostrar para o guri da vila que ele podia ser o que quisesse. A gente quebrou aquele preconceito de que o rap gaúcho tinha que ser só cara fechada e reclamação. Mostramos que o rap também é estilo, comportamento e autoestima. O jovem da periferia viu que ele não precisa só consumir o que vem de fora, ele pode ser o dono da sua própria história e da sua própria marca – conta.  

Versatilidade  

Musicalmente, sua trajetória sempre foi atravessada pela mistura, com o rap sendo apenas a base. As raízes musicais de Ian são um reflexo das festas de família onde o samba e o pagode dos primos sempre estavam presentes. 

– Aos 18 anos, após atravessar uma fase pessoal caótica e de muita reflexão, decidi que não precisava escolher um gênero só. Passei a ouvir conscientemente tudo o que eu amava, me permitindo crescer musicalmente para incorporar todas essas referências – revela ele.  

Foi através dessa consciência que hoje possui um currículo extenso de sucessos, como Festa na Favela, Melhoria e Não Curte Minha Vida. Além disso, tem uma trajetória marcada pela presença em palcos fundamentais da cultura hip-hop, como o Festival Quilombo e o Cohab Só Rap.  

Recomeços  

Em 2024, após anos de estrada, Ian decidiu fazer uma pausa na carreira, a qual define como “o silêncio necessário para tratar a arte como ela merece”. A falta de estrutura, o pouco retorno financeiro e a sensação de estagnação o levaram a repensar caminhos. Mudou de cidade, silenciou e usou o tempo para se reorganizar criativamente e pessoalmente. 

– Precisei desse tempo para questionar onde estava o erro. Cheguei a duvidar se era artista o suficiente. O caos da cidade, somado a essas frustrações, me forçou a mudar o rumo, a rota e a própria cidade. Mudar para Florianópolis me trouxe uma nova visão.

Após dois anos de hiato, o retorno à cena será no próximo domingo, com o lançamento da mixtape Tava Com Sdd, Né?, e o single de destaque Mudei, que funciona como um recado direto: 

– É o meu manifesto de que o corre nunca parou, ele só mudou de forma. O título carrega a certeza de que deixei um legado musical que as pessoas ainda lembram. Mais do que uma apresentação do meu amadurecimento artístico e pessoal, esse projeto é a prova de que tudo se reestrutura, mas a essência nunca morre. 

Hoje, após 15 anos de caminhada, Ian segue fazendo música movido pela vontade de transformar vivência em registro e levar o nome do Partenon cada vez mais longe. 

– A música foi o grande divisor de águas na minha vida. Quando comecei, ela foi um livramento, a força que me afastou de caminhos errados e me deu um propósito. Mas o meu sonho ainda não parou. Eu quero rodar o Brasil e o mundo apresentando um trabalho maduro, coerente, do jeito que essa trajetória de 15 anos merece.

Aqui, o espaço é todo seu!

/// Para participar da seção, mande um histórico da sua banda, dupla ou do seu trabalho solo, músicas, vídeos e telefone de contato para michele.pradella@diariogaucho.com.br

/// Entre em contato com a artista pelo Instagram: @iankria_

* Com supervisão e orientação de Michele Pradella


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