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Folia aos 60+

"É o que me faz feliz": velha guarda mantém viva a tradição do Carnaval de Porto Alegre

Memória coletiva, resistência cultural e compromisso emocional mantêm acesa a chama da festa na Capital

15/02/2026 - 15h56min


Leonardo Martins
Leonardo Martins
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Bruno Todeschini/Agencia RBS
Para a velha guarda das escolas de samba de Porto Alegre, o Carnaval é pertencimento.

O Carnaval é a expressão da nossa alegria. O ruído, o barulho, o tantã espancam a tristeza que há nas nossas almas, atordoam-nos e nos enchem de prazer

LIMA BARRETO (1881-1922)

Trecho do livro O Morcego

O som vem de longe. Primeiro, o grave do tambor vibra no peito. Depois, a caixa marca o tempo, o repique chama, o tamborim responde. Antes mesmo de a escola dobrar a esquina, já se reconhece o anúncio: é Carnaval.

Para a velha guarda das escolas de samba de Porto Alegre, a festa é muito mais que apenas o desfile. É trajetória compartilhada, senso de pertencimento e permanência.

Uma história construída ao longo de décadas por homens e mulheres que começaram ainda crianças, quando os instrumentos eram mais pesados, os ensaios varavam a noite e o compromisso se provava na quadra.

São 50, às vezes 60 anos de avenida. Gente que viu o Carnaval passar pelo Centro, que formou gerações na bateria e que segue presente, mesmo diante das mudanças de formato, público e estrutura.

Esta é a história de dois deles.

Tem gente que é do futebol, da pescaria, das artes marciais. Eu sou do Carnaval. Me preparo um ano para passar numa hora. É quase uma fração de segundo. Mas é o que me faz feliz

NILTON DEOCLIDES PEREIRA

Velha guarda de Bambas da Orgia

Quase seis décadas de bateria

Bruno Todeschini/Agencia RBS
Mestre Nilton já viu o Carnaval mudar de endereço, de formato e de geração, mas garante que a essência permanece a mesma.

Na sede da Sociedade Beneficente Cultural Bambas da Orgia, na Rua Voluntários da Pátria, em Porto Alegre, Nilton Deoclides Pereira, o Mestre Nilton, 74 anos, fala com a serenidade e a experiência de quem já viu o Carnaval mudar de endereço, de formato e de geração, mas garante que a essência permanece a mesma.

Bambas, fundada em 6 de maio de 1940, é a mais antiga escola de samba da Capital e a segunda maior campeã, com 21 títulos. Foi ali que Nilton construiu boa parte de sua trajetória como mestre de bateria. Mas a inspiração veio de outro lugar.

— Eu sou oriundo de banda marcial — conta.

Aos 15 anos, estudante do Colégio São Pedro, começou a tocar influenciado pelo pai, clarinetista. Naquele período, as escolas de samba ainda tinham instrumentos de sopro. Desfilava entre trompetes, trombones e clarinetes, até que, aos poucos, foi atraído pelo núcleo rítmico.

Em 1972, recebeu a oportunidade de ser ensaiador, função que hoje corresponde ao mestre de bateria, na Fidalgos e Aristocratas.

A partir dali, passou por Império da Zona Norte, Gondoleiros, Floresta Aurora, Imperadores do Samba e, principalmente, Bambas da Orgia, onde permaneceu 18 anos à frente da bateria. Depois, assumiu cargos administrativos até chegar à presidência, em 2020.

Se há uma marca que reconhece no próprio trabalho, é o peso.

— Uma bateria pesada, consistente. Batia do lado de dentro das pessoas. O cara se mexia mesmo — relembra.

Nos anos 1980 e 1990, ouvir a bateria de Bambas era identificar a escola antes mesmo do anúncio oficial. Havia uma assinatura sonora, uma personalidade rítmica construída no grave dos surdos e na cadência firme.

Carnavais para a História

Entre tantos carnavais, alguns ficaram marcados. O primeiro, em 1979, com o enredo campeão Era negro o céu de Palmares, pois seus deuses eram da África. O de 1989, também campeão, com Sai de baixo, que nesse saco tem gato.

Há ainda Festa de Batuque, em 1995, frequentemente citado como um dos maiores sambas da história do Carnaval de Porto Alegre.

Curiosamente, apesar do reconhecimento, Bambas da Orgia não conquistou o título naquele ano. Perdeu por um ponto. Mesmo sem o campeonato, o desfile ficou consagrado.

— Cada Carnaval é uma história — resume Nilton.

Dissabor de julgar e os "mestres do mestre"

Bruno Todeschini/Agencia RBS
Mestre Nilton afirma que o "peso" da bateria é a marca de seu trabalho.

Mestre Nilton faz uma confissão: prefere ser julgado a julgar. Depois de atuar como jurado na avenida em 1999 e 2000, percebeu que aquele não era o seu lugar.

— É mais confortável estar do outro lado. O que eu gosto é da competição, do envolvimento, da construção. Ali na pista você faz parte da história. Na mesa, só dá a nota — afirma.

Para ele, julgar exige distanciamento técnico e frieza. Já a bateria pede entrega, convivência diária e liderança. É no ensaio, no ajuste fino de andamento, na conversa com ritmista, que se sente realizado.

Mas o destino o colocou na maior rival, a Imperadores do Samba, em 1996, quando acabou dispensado pela Bambas. Na maior campeã de Porto Alegre, foi compositor de sambas-enredo. No início dos anos 2000, retornou a Bambas da Orgia para reafirmar sua identidade.

— Adoro o meu Carnaval — resume.

Na bateria, encontrou referências que considera decisivas. Uma delas é o professor Waldemar de Moura Lima, o Pernambuco, hoje com 90 anos.

— Eu tive o privilégio de ver o Pernambuco trabalhar no Trevo de Ouro, no Pirilampo. Escolas que já não existem mais, mas que marcaram época. Ele tinha uma formação diferenciada, uma visão artística muito ampla — conta.

Outra referência é Carlos Alberto Barcelos, o Roxo, que dá nome à passarela do samba da Capital.

— O Roxo eu enxergava 10 anos na frente. Era organização, harmonia, pensamento de conjunto — destaca.

Nilton também cita o Mestre Cy (Darcy Gonçalves), da Acadêmicos da Orgia, a quem chama de "muso inspirador".

— Aquele baixinho fazia chover para cima com a bateria — diz, sorrindo.

Da Restinga para a avenida

Luciano da Conceição/Arquivo pessoal
Mestre Luciano (D) é cria da Restinga, que abriga a terceira maior campeã do Carnaval de Porto Alegre.

Se Nilton carrega a tradição da escola mais antiga, Mestre Luciano da Conceição, 53 anos, é cria da Restinga. O bairro da Zona Sul abriga a Estado Maior da Restinga, terceira maior campeã de Porto Alegre, com 10 títulos.

Luciano cresceu nas proximidades do clube Cecores, onde a agremiação surgiu como Unidos da Restinga, em 1977.

Nos intervalos dos ensaios, a gente pegava os instrumentos e ia bater. Era curiosidade de aprender. Hoje a gurizada tem videogame, celular. Naquela época, a diversão era o ritmo

LUCIANO DA CONCEIÇÃO

Velha guarda da Estado Maior da Restinga

O primeiro desfile tocando foi em 1987, ano do primeiro título da escola, com o enredo Fantástica Odisseia do Samba no Mundo Fantástico do Sistema Solar.

A primeira oportunidade de comandar a bateria veio em um momento delicado da escola, o que transformou a estreia em um teste de resistência.

— Em 1997 eu recebi uma oportunidade de ser mestre, mas a escola estava meio quebrada. E não foi muito boa a minha estreia. Me jogaram para os leões, foi na fogueira mesmo — relembra.

Luciano da Conceição/Arquivo pessoal
Primeiro desfile tocando foi em 1987, ano do primeiro título da escola.

Sem espaço para vaidade, ele optou por permanecer onde sempre se sentiu pertencente, mesmo que isso significasse voltar a posições menos visíveis dentro da bateria.

— Como eu sou da Restinga, não tinha problema nenhum em retornar a ser ritmista ou auxiliar. Eu queria era estar ali. Foi o que aconteceu. Fui segundo, terceiro, quarto, quinto auxiliar. Depois me aclamaram diretor — explica.

Luciano também fala em peso. Para ele, as baterias antigas tinham outra densidade sonora.

— A bateria da Restinga era ouvida dois quilômetros antes. Ouvia e já sabia: é a Restinga. Um surdo de terceira era de 28 polegadas. Hoje é de 18. A tônica muda. Antes era grave. Era peso — explica.

Ele reconhece a modernização, com instrumentos mais leves, técnicas difundidas pela internet e arranjos inspirados no Rio de Janeiro, mas alerta para o risco de perda da identidade regional.

— O Rio Grande do Sul é diferente do Rio de Janeiro. Não podemos abandonar nossa essência — defende.

Para ele, a principal diferença entre o Carnaval de ontem e o de hoje está no grau de envolvimento.

— Antigamente era mais amor pela escola. Hoje tem muita rede social. O pessoal aprende pelo YouTube e aparece apenas para desfilar. Não sou contra, mas a essência não pode acabar — ressalta.

Velha guarda como projeto

Luciano da Conceição/Arquivo pessoal
Mestre Luciano (D) fundou a velha guarda de bateria da Estado Maior da Restinga.

A preocupação com a memória levou Luciano a fundar, há cerca de 10 anos, a velha guarda da bateria da Restinga. A proposta era reunir antigos ritmistas que haviam sido afastados pela renovação natural das gerações.

Com apoio interno, instrumentos emprestados e apresentações pelo interior para arrecadar recursos, a ala conquistou sala própria, organização e protagonismo. Hoje, atua oficialmente como velha guarda da escola.

— Escola não tem dono. É raiz. Tu começas, teus filhos continuam, depois vêm os netos — reforça.

Centro, Porto Seco e futuro

Os dois mestres convergem em um ponto sensível: a relação do Carnaval com a cidade.

Nilton lembra do período em que os desfiles eram realizados em áreas mais centrais, com maior presença popular.

Duda Fortes/Agencia RBS
O Complexo Cultural do Porto Seco é onde passam as escolas de samba atualmente.

Hoje, os desfiles ocorrem no Complexo Cultural do Porto Seco, na Zona Norte, a 20 quilômetros do antigo sambódromo (Avenida Augusto de Carvalho, próximo à Rótula das Cuias) e quase no limite municipal com Alvorada.

Por lá, há estrutura funcional, com barracões integrados à pista e logística mais eficiente, mas menor circulação espontânea de público.

— Em todas as capitais, o Carnaval é no Centro. No Rio, em São Paulo, em Florianópolis. Em Porto Alegre já foi, e era bom. Agora não é mais — observa.

Luciano concorda com a possibilidade de retorno ao Centro, desde que haja estrutura equivalente. Para ele, a questão não é apenas geográfica, mas política e financeira

Cita a redução de investimentos e o enfraquecimento de eventos tradicionais, como as "muambas" — apresentações pré-carnavalescas em que as escolas desfilam pelas ruas para "esquentar" a comunidade e testar bateria, harmonia e samba-enredo —, além da menor cobertura da imprensa.

— Nos anos 1980, nosso Carnaval foi o segundo do Brasil.

Ambos sentem que a imprensa se afastou e que o poder público enxerga as escolas como moeda de troca política, e não como cultura. Luciano, porém, faz uma autocrítica: 

— Muito do que acontece é por culpa da gente, do Carnaval. Se nós fôssemos mais fortes em cobrar, teríamos mais do que temos.

O que é o Carnaval?

Duda Fortes/Agencia RBS
Para a velha guarda, a lealdade e o pertencimento é o que mantêm o Carnaval de Porto Alegre vivo.

A pergunta aparece quando a conversa já se encaminha para o fim, depois de memórias, críticas e risadas. O que, afinal, é o Carnaval para quem dedicou décadas à avenida? 

Nilton não hesita. Antes de responder, organiza a ideia como quem compara escolhas de vida .Ele faz questão de frisar que nunca dependeu financeiramente da festa. É aposentado da prefeitura, tem formação, construiu carreira fora da avenida.

É hobby, é diversão. É fazer o que a gente gosta enquanto pode — observa.

para Luciano, o Carnaval não ocupa apenas um espaço no calendário; estrutura o ano. A rotina se reorganiza quando os primeiros ensaios começam, quando a quadra volta a encher, quando o surdo reaparece como trilha sonora das noites.

É como Ano Novo, Páscoa, Natal. Quando começam os ensaios técnicos, eu já estou vivendo o Carnaval

LUCIANO DA CONCEIÇÃO

Velha guarda da Estado Maior da Restinga

Para eles, Carnaval não é só folia e entusiasmo, mas, principalmente, identidade. Antes do título de "mestres", Nilton e Luciano são figuras que passaram a vida dentro das escolas de samba.

A velha guarda do Carnaval de Porto Alegre carrega mais do que experiência acumulada. Carrega pertencimento, uma lealdade que não se encerra quando o desfile termina.

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