Desigualdade ambiental
"Entre comer e comprar ventilador, a gente escolhe comer": como a população de baixa renda enfrenta o calor
Com casas pouco resistentes às altas temperaturas, escassez de áreas verdes e infraestrutura deficitária, bairros periféricos de Porto Alegre são mais impactados que outros no verão


Quando a reportagem chega ao Morro da Cruz, na zona leste de Porto Alegre, Rosimeri Morais de Aguirre Gomes não está dentro de casa. Aos 54 anos, a educadora social tenta se refrescar do lado de fora, à sombra de uma árvore na encosta onde vive, em busca de algum alívio para o calor escaldante de 36ºC daquele início de tarde. Em dias assim, ficar na residência não é uma opção.
— Eu brinco que a minha casa é o forno da Rosi, de tão quente que é.
A residência na qual a educadora vive com dois dos nove filhos foi construída com materiais reciclados de baixo isolamento térmico doados há mais de 15 anos, depois que sua antiga residência pegou fogo. A solução era para ser temporária, pois o "prazo de validade" da casa ecológica seria de quatro anos. Mas o tempo passou, e a condição de construir uma moradia mais resistente nunca chegou.
O espaço conta com um quarto, dividido entre mãe e filhos, uma cozinha integrada e um banheiro. Não há ventilação cruzada nem sombra para dissipar o calor que se acumula na estrutura do imóvel, onde a sensação térmica parece bem mais elevada do que na rua.
— Meus filhos reclamam do calor e me bate uma tristeza. Queria poder dar conforto para eles, um quarto com ar-condicionado. Ao mesmo tempo, penso que já sobrevivi a coisas bem piores do que o calor — reflete Rosimeri, revelando ser uma sobrevivente da violência doméstica e ex-moradora de rua.
— O meu sonho era ter a minha casa com tudo ajeitadinho. Ter um ambiente fresquinho, uma televisão grande, uma mesa para sentar e conversar com todo mundo, saber como foi o dia. São coisas que eu nunca tive — diz.
Clima afeta mais os pobres
A educadora social está entre os milhões de brasileiros que enfrentam diariamente os efeitos da desigualdade ambiental. O termo é usado para expressar como a crise climática, apesar de ser uma emergência global, atinge de forma mais contundente a população mais pobre. É o que explica Renata Padilha, do Movimento Eco pelo Clima:
— As pessoas são impactadas pelas mudanças climáticas conforme o lugar em que vivem e a condição econômica que têm. Quem vive em bairros periféricos convive com infraestruturas precárias e pouca arborização, habita moradias feitas de materiais que não são resistentes ao calor e dispõe de menos recursos de conforto térmico.
No caso de Rosimeri, não há nenhum recurso à disposição: em meados de novembro, a família perdeu o único ventilador que tinha. A precariedade da rede elétrica do imóvel queimou o aparelho, e ela não teve como comprar outro. A ideia é esperar o inverno, quando os preços costumam cair, suportando o desconforto de enfrentar o verão sem equipamento de refrigeração.
Algumas pessoas têm um ar-condicionado em cada peça. Eu não tenho nem ventilador.
ROSIMERI MORAIS DE AGUIRRE GOMES
Educadora social, 54 anos
— Quem olha de fora pensa que é fácil, que vivemos assim porque queremos, mas, entre comer e comprar um ventilador, a gente escolhe comer — desabafa.

Segundo Rosimeri, a maior dificuldade é sentida durante a noite. O cansaço físico esbarra no calorão, que impede o corpo de descansar adequadamente, levando a família a conviver com a privação de sono.
— Às vezes, são 3h e estamos embaixo do chuveiro gelado. Meu guri chega a se deitar direto no chão, que acaba sendo mais fresco. E é a noite inteira fugindo dos mosquitos — relata ela, que vive em uma área de encosta cercada por matagais e pontos de esgoto a céu aberto, propícia para a proliferação de insetos.
Medo de incêndio
A noite também é o período mais sensível do dia para o casal de autônomos Clovis Augusto Rodrigues Alves, 56 anos, e Daiane Rodrigues Guterres, 43. Moradores da Vila Pinto, no bairro Bom Jesus, eles vivem de aluguel em uma casa de madeira com estrutura deteriorada, fiação exposta e rede elétrica precária.
O imóvel dispõe de um ar-condicionado antigo, mas o casal prefere não ligar o aparelho devido ao risco de curto-circuito.
Tenho muito medo de um dia a gente estar dormindo e acordar com tudo pegando fogo.
DAIANE RODRIGUES GUTERRES
Autônoma, 43 anos
— O ar-condicionado é velho, a rede elétrica não dá para confiar e a casa é de madeira. É a combinação perfeita para um acidente. Prefiro me virar com o ventilador, que pelo menos o risco é menor — relata Daiane.
O ventilador também é improvisado. Parte da estrutura do equipamento está quebrada, restando apenas as hélices e o suporte dos botões. Para funcionar, o aparelho é amarrado sobre uma cadeira.
— Está enjambrado, mas é potente — garante Clovis.
— O problema é que, depois de um tempo, o vento começa a sair quente. Tem dias que nem o ventilador resolve — pontua Daiane.
Arborização abaixo da ideal
Quando isso acontece, a saída é buscar outras formas de se refrescar. Durante o dia, o casal toma vários banhos de mangueira e divide com os vizinhos a sombra rara de uma árvore próxima à residência.
O bairro Bom Jesus, onde vivem, está entre as áreas menos arborizadas da Capital, conforme dados da prefeitura de Porto Alegre. A cobertura arbórea da localidade é de 14,52%, menos da metade do percentual de 30% tido como ideal pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus).
A realidade é comum a outras comunidades periféricas da cidade. Um levantamento do IBGE mostra que, em Porto Alegre, a discrepância no acesso à arborização é uma das mais acentuadas entre as capitais brasileiras. O percentual de moradores de periferia vivendo em vias com árvores é de 33,1%, enquanto fora desses locais o índice salta para 83,4%.
Contatada pela reportagem, a prefeitura de Porto Alegre informou, em nota, que "possui um planejamento estruturado para ampliar e qualificar a arborização urbana".
Segundo a administração municipal, entre as ações previstas está "a ampliação da cobertura de copa arbórea em vias públicas, com a meta de alcançar 30% de cobertura por bairro até 2050, com marcos intermediários de 24% até 2030 e 27% até 2040" (leia a nota completa ao final).

Distribuição das árvores nos territórios
Conforme a professora Eugênia Aumond Kuhn, do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a distribuição de árvores sobre os territórios é um fator-chave para entender a desigualdade ambiental.
Eugênia desenvolve, em parceria com a mestranda Carolina Cristófoli Falcão, um estudo sobre o calor extremo na Capital, analisando a variação na temperatura superficial dos bairros entre 2023 e 2025.
Observamos diferenças impressionantes dentro de Porto Alegre, com variações de cerca de 10ºC entre áreas arborizadas e regiões sem vegetação.
EUGÊNIA AUMOND KUHN
Professora do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da UFRGS
— Essa questão está diretamente relacionada à desigualdade ambiental, porque o risco climático não é definido apenas pela ameaça do calor: é também pela capacidade da população de se adaptar a ele, que acaba sendo menor na periferia, por conta das vulnerabilidades territoriais, sociais e econômicas.
No bairro Bom Jesus, onde moram Clovis e Daiane, a temperatura superficial média registrada pelo estudo foi de 41,9ºC. Já no Extremo-Sul, onde as taxas de arborização chegam perto de 70%, segundo os dados da prefeitura, a temperatura superficial média encontrada foi de 33,9ºC.
Impactos na saúde
A exposição às altas temperaturas ameaça também a saúde da população. Um estudo realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade de Lisboa mostra que, entre os anos 2000 e 2018, quase 50 mil pessoas morreram no Brasil por conta de doenças associadas ou agravadas pelo calor extremo.
Os pesquisadores analisaram as mortes registradas nas 14 áreas metropolitanas mais populosas do país, incluindo Porto Alegre. A capital gaúcha teve a segunda maior taxa média de mortes ligadas às altas temperaturas, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro.
As vítimas mais frequentes são pretos, pardos, pessoas com menores índices de escolaridade e pessoas de baixa renda, o que a pesquisa conclui estar ligado à desigualdade ambiental.

Para quem enfrenta na prática os efeitos desse problema, os dados são reflexo da realidade. Quando a reportagem visitou a casa de Clovis e Daiane no bairro Bom Jesus no dia mais quente do ano até então, com a temperatura superando os 37ºC, o autônomo passou mal por conta do calor.
Eu tenho problema de pressão e, quando está muito quente, descompensa tudo. A impressão que dá é que a cada verão está ficando pior.
CLOVIS AUGUSTO RODRIGUES ALVES
Autônomo, 56 anos
A percepção de Clovis é verídica. Conforme dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a temperatura média dos verões brasileiros vem subindo ano após ano.
Na temporada 2024/2025, por exemplo, houve um acréscimo de 0,34°C em relação à média histórica do período de 1991 a 2020. As maiores temperaturas máximas foram observadas no Rio Grande do Sul, que teve a atuação de três ondas de calor.
Infraestrutura deficitária
Para a paraibana Antônia Maria Nunes Rocha da Silva, que há quatro anos vive em Porto Alegre, o verão gaúcho é "pior" que o nordestino:
— Lá, tem sombra, tem mar, tem rio. Aqui, não tem nem uma brisa, é um calor de rachar.
A recicladora de 41 anos mora na comunidade conhecida como Beco dos Cafunchos, no bairro Agronomia. O acesso à casa na qual vive com o companheiro se dá por uma rua de chão batido permeada pela rede de água e esgoto, com canos quebrados em diversos pontos.

Segundo Antônia, em períodos chuvosos, o esgoto se espalha pela via, descrita por ela como "uma correnteza". Já nos dias mais quentes, o odor fétido chega às residências (leia o que diz a prefeitura ao final).
A gente sofre muito nessa comunidade. Durante o verão, às vezes passamos dias sem água.
ANTÔNIA MARIA NUNES ROCHA DA SILVA
Recicladora, 41 anos
Luiz Henrique Lima, diretor do Centro de Educação Ambiental (CEA), instituição do bairro Bom Jesus que atua há mais de 30 anos no desenvolvimento sustentável de periferias, defende que a falta de saneamento adequado é uma das expressões mais gritantes da desigualdade ambiental.
— Não dá para você pensar em justiça climática se as pessoas tiverem um esgoto a céu aberto correndo do lado da casa delas. Porto Alegre se diz a "capital da inovação", mas ainda não conseguiu resolver completamente o problema do saneamento, uma demanda que se arrasta desde a década de 1980 em algumas regiões — reflete.
Conforme dados do Ranking do Saneamento 2025, realizado pelo Instituto Trata Brasil, Porto Alegre atinge 91,76% de coleta de esgoto, percentual que coloca a cidade entre os municípios cuja coleta é considerada universalizada, de acordo com as metas estabelecidas no novo Marco Legal do Saneamento. Já no âmbito do tratamento de esgoto, o percentual cai para 42,66%, indicando, conforme o ranking, que nem todo esgoto coletado recebe a destinação correta, podendo correr em valões e redes improvisadas.
De acordo com a prefeitura, "no âmbito do esgotamento sanitário, que tem cobertura deficitária na Capital, uma série de iniciativas está em andamento para viabilizar a universalização dos serviços (cobertura de 90%) até 2033".
Entre as ações está "a implantação de novas redes coletoras de esgoto em áreas hoje desassistidas", que, conforme o município, "será a prioridade da empresa que assumirá a operação do sistema" ao fim da concessão parcial do Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae).
Residências pouco resistentes
Enquanto na área externa a infraestrutura é precária, dentro de casa Antônia não tem ventilador, tampouco ar-condicionado. Ela especula sobre o valor de um aparelho de climatização e confidencia que nunca lidou com equipamentos do tipo.
— Já trabalhei de diarista em casa que tinha ar-condicionado, mas ficava só olhando. Tenho até medo de mexer — conta a recicladora.

A residência de Antônia foi erguida pelo próprio marido, que é pedreiro. A estrutura é feita de tijolos, mas há pouca ventilação, de modo que, dentro do imóvel, a temperatura parece ser mais elevada.
Segundo a arquiteta Karol Rosa de Almeida, empreendedora social na Kopa Coletiva — Arquitetura Popular, esta é uma realidade comum à maioria das residências situadas em áreas de periferia. As casas são, em geral, autoconstruídas, sem supervisão técnica especializada e com materiais de baixa resistência ao calor, que são mais baratos.
— Somado a isso, a gente tem construções muito próximas umas das outras, devido à necessidade de aproveitar ao máximo o terreno, e casas que não necessariamente atendem às necessidades da família, com muitas pessoas vivendo em uma metragem limitada. Tudo isso interfere no conforto térmico que o imóvel vai oferecer — acrescenta.
Sem conseguir refúgio para o calor dentro de casa, Antônia recorre à criatividade para enfrentar o verão. Durante o dia, utiliza a "piscina comunitária" da cooperativa de reciclagem na qual trabalha. Trata-se, na verdade, de uma caixa d'água, usada pelas recicladoras para se refrescarem em meio à separação dos materiais.

Durante a visita da reportagem, com o termômetro marcando 35ºC, Antônia não resistiu a um mergulho.
— É assim que a gente fica — diz, mostrando que as colegas também estão molhadas. — Eu queria ter uma condição melhor, mas não tive as mesmas oportunidades que outras pessoas tiveram. Uns têm mais oportunidades, outros têm menos. A vida é assim — conclui.
Leia a segunda parte da reportagem:
O que diz a prefeitura de Porto Alegre
Sobre a arborização na cidade:
A Prefeitura de Porto Alegre possui um planejamento estruturado para ampliar e qualificar a arborização urbana. Uma das principais ferramentas é o Plano Diretor de Arborização Urbana, que estabelece métodos e diretrizes para a preservação, manejo e expansão das árvores na cidade, a partir de critérios técnicos e também das demandas e manifestações de interesse das comunidades locais.
Além disso, o município conta com o Plano de Ação Climática de Porto Alegre de 2024, que organiza estratégias, metas e ações para o enfrentamento das mudanças climáticas até 2050. Entre suas diretrizes está a ampliação da cobertura de copa arbórea em vias públicas, com a meta de alcançar 30% de cobertura por bairro até 2050, com marcos intermediários de 24% até 2030 e 27% até 2040.
Sobre a situação do saneamento básico na cidade:
O serviço de abastecimento de água, operado pelo Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), é considerado universal em Porto Alegre — onde a cobertura da rede é superior a 99%. Já no âmbito do esgotamento sanitário, que tem cobertura deficitária na Capital, uma série de iniciativas está em andamento para viabilizar a universalização dos serviços (cobertura de 90%) até 2033.
O Dmae já atua na regularização das ligações de esgoto no 4º Distrito e Centro Histórico, por meio do projeto Centro+4D. O investimento é de R$ 42,4 milhões. As bacias dos bairros Anchieta e Humaitá, que integram o Sistema de Esgotamento Sanitário (SES) Navegantes, também passarão por grandes intervenções nos próximos anos, com orçamento de R$ 121 milhões.
Outros R$ 23,9 milhões estão sendo investidos na recuperação das estruturas danificadas pela cheia histórica de 2024 — incluindo a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Sarandi, que voltará a operar em fevereiro, e diversas Estações de Bombeamento de Esgoto (Ebes). Na área do Arroio Dilúvio, o Dmae passará a usar a técnica de coleta em tempo seco para melhorar as condições do curso d'água.
A implantação de novas redes coletoras de esgoto, em áreas hoje desassistidas, será a prioridade da empresa que assumirá a operação do sistema ao fim do processo de concessão parcial do Departamento. A estimativa é de que o investimento necessário para atender às disposições do Marco Legal do Saneamento supere R$ 3,2 bilhões.
Sobre a situação específica da região do Beco dos Cafunchos:
O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informa que, para uma análise técnica precisa sobre a situação de saneamento no Beco dos Cafunchos, é necessário o endereço completo dos imóveis, a fim de permitir o cruzamento das informações com o cadastro da rede existente. De forma geral, há duas possibilidades para a situação relatada: a existência de uma rede informal de esgotamento sanitário ou a ocorrência de ligações irregulares, quando o esgoto doméstico é direcionado indevidamente para a rede de drenagem pluvial, em vez da rede cloacal.
Caso seja constatada a inexistência de rede formal, a implantação ou extensão da rede de esgotamento sanitário deve ser solicitada pela comunidade por meio do Orçamento Participativo (OP), juntamente com as obras de infraestrutura viária necessárias, como pavimentação, meios-fios e calçadas. Se o problema estiver relacionado a ligações domiciliares irregulares, cabe aos próprios moradores providenciar a regularização. O Dmae é responsável pela operação e manutenção da rede pública, enquanto as ligações dos imóveis à rede são de responsabilidade dos proprietários.