Integração
“Não à violência, não à guerra”: refugiados e migrantes disputam torneio de softbol e kickbol em Porto Alegre
Competição começou neste domingo, com jogos no campo da Praça Harrysson Curtys Testa, no bairro Anchieta


Confraternização e entusiasmo definem a interação entre os participantes do Campeonato Metropolitano de Softball e Kickimbal. O torneio começou na manhã deste domingo (8), no campo esportivo da Praça Harrysson Curtys Testa, no bairro Anchieta, em Porto Alegre. No local, nove equipes disputam de forma simultânea jogos nessas duas modalidades — com características semelhantes ao beisebol —, até o final da tarde.
O céu estava ensolarado e fazia 26°C, quando os times femininos do Panteras, de Caxias do Sul, e Esmeralda, de Canoas, inauguraram a competição. As mulheres da Serra venceram as adversárias da Região Metropolitana por 8 a 0.
Organizada pela Superliga de Softball e pela Liga de Kickimbal, com apoio da Associação Fórum de Migrantes-RS, a competição envolve migrantes e refugiados de países como Cuba e Venezuela.
Acompanhar a movimentação dos jogadores e os jogos é como imergir nessas culturas. A língua mais escutada é o espanhol, assim como as músicas. Tendas com empanadas e bebidas típicas e carro de som podem ser vistos na praça, que conta com banheiros químicos e uma ambulância para o caso de alguma emergência. O evento é gratuito e aberto ao público.
O boliviano Mario Jaime Fuentes Barba, 64 anos, vive há 40 anos no Brasil. Trata-se do coordenador da Coordenação dos Povos Indígenas, Imigrantes, Refugiados e Direitos Difusos (CPIIRDD) da prefeitura da Capital.
— Atualmente, o Rio Grande do Sul conta com cerca de 130 mil migrantes e refugiados. Desses, 30 mil estão localizados em Porto Alegre — compartilha o dirigente.
Conforme o coordenador, os cubanos e venezuelanos já realizam jogos dessas modalidades na praça há dois anos.
— O objetivo maior é uma contribuição à cidade com essas práticas esportivas próprias dos migrantes. E também se tornar um atrativo para a cidade — afirma.
Antes das partidas, os organizadores fazem as marcações e medições no gramado, enquanto os atletas aquecem sob o olhar atento dos treinadores. Os uniformes possuem cores e escudos variados. Muitos confraternizam e tiram fotos com os demais participantes. Gritos e barulho de palmas tomam conta do campo.
O presidente da Liga de Kickimbal e dirigente da Associação Fórum de Migrantes-RS, o venezuelano Elias Ortiz, 29, estima que aproximadamente 80 pessoas participem dos times.
— Faz dois anos que se iniciou isso aqui. E tem se expandido por Caxias do Sul e Erechim. Tem pessoas de outros estados que querem vir participar aqui — observa Ortiz.
O porto-alegrense Davi Emerim, 25, é o proprietário e fundador do Pombas, time que joga beisebol e softball. A equipe da Capital existe desde 2021, treina geralmente no Parque Marinha do Brasil e conta com um plantel superior a 15 integrantes. Ele atua na primeira base e, às vezes, na função de receptor.
— Neste momento, esse campeonato é o nível mais alto de competição para nós. O ambiente é muito sagrado devido à comunidade que está aqui presente com força total — diz para Zero Hora.
O presidente da SuperLiga de Softbol RS, Halifer Farfan, 43, mora no Brasil há três anos e meio. Venezuelano, ele fala sobre a importância da integração entre os migrantes e refugiados.
— Para nós, é muito legal e alegre. Aqui têm crianças, adultos e famílias. É um lugar muito familiar e de amizade. E vamos seguir expandindo o esporte na Região Metropolitana.
A Venezuela está sob interferência dos Estados Unidos. No começo do ano, o governo de Donald Trump autorizou as forças armadas a capturar o presidente Nicolás Maduro.
— Nosso país tem um processo de troca política. Nós estamos fazendo esporte. Não à violência, não à guerra. Esporte e mais esporte — responde Farfan, após ser questionado sobre a situação na Venezuela.
A jogadora venezuelana Vanessa Licett, 29, já está há um ano e meio no Brasil. Ela defende o Panteras e joga kickimbal há 16 anos.
— Aqui em Porto Alegre e em Canoas, a gente vê muita organização. Temos o apoio de prefeitura, associações e fundações — enumera.
Yuleidys Moreno, 30, veio da Venezuela há três anos. Ela defende o time feminino do Reina del Éxito, que também conta com crianças, em Esteio. Ela preside ainda a Associação dos Imigrantes e Refugiados de Esteio:
— É um sentimento bom. Os jogos aqui ajudam a saúde mental, física e psicológica das mulheres. As mulheres estão acostumadas a uma vida de trabalho e a cuidar das crianças e dos maridos. Nós vemos como uma distração, melhora a saúde e conhecemos pessoas de outras nacionalidades.
O cubano Dario Miguel Morales Cabrera, 34, defende as cores do Time Asere, de Gravataí. A equipe de softball foi formada em novembro de 2025.
— O principal do evento é reunir os migrantes no Brasil. É uma comunidade que se apoia com um objetivo em comum: a prática do esporte e a solidariedade entre os povos.
O Campeonato Metropolitano de Softball e Kickimbal segue até o final de março. A disputa também contará com partidas no Parque Marechal Mascarenhas de Moraes, no Humaitá.