Vida nova
"Não vejo a hora de dormir em paz", diz sobrevivente de três cheias que recebeu casa nova no Vale do Taquari
Movimento União BR, governo estadual e prefeitura de Muçum entregaram 42 novas moradias nesta terça-feira


Depois de três enchentes e mais de dois anos de espera, a dona de casa Sirlei de Souza, 53 anos, voltou a ser dona de casa. Castigada pelas enchentes de setembro e novembro de 2023 e pela catástrofe de maio de 2024, período em que perdeu tudo o que tinha e dependeu do auxílio oficial para pagamento de aluguel, Sirlei recebeu no começo da tarde desta terça-feira (10) a chave de seu novo imóvel em Muçum, no Vale do Taquari.
A nova casa própria da sobrevivente de sucessivas cheias faz parte de um lote de 42 moradias construídas por meio de uma parceria entre a iniciativa privada e o poder público e entregues em uma cerimônia a famílias atingidas pelos eventos climáticos. O Movimento União BR, que congrega doações de empresas, construiu as residências e as equipou com móveis e eletrodomésticos. A prefeitura ofereceu o terreno, e o governo estadual montou a infraestrutura.
— É uma dupla contribuição. A primeira material, as casas que vão acolher essas famílias e mudar a vida delas, e outra moral, pela percepção de que não estávamos sozinhos. Alavancou o melhor espírito de doação de todos — afirmou o governador Eduardo Leite, que participou do evento.

A entrega da chave marcou o fim de um calvário para moradores de Muçum como Sirlei. Em setembro de 2023, o lugar onde ela vivia foi tomado pela água do Rio Taquari. Embora morasse sozinha, tomava conta de cinco netos quando o rio saltou do leito e avançou sobre as ruas, imparável.
— Até hoje as crianças ficam muito abaladas quando chove. Minha maior alegria é poder receber meus netos de novo com segurança — afirmou a dona de casa.
Em razão das repetidas cheias, ela precisou mudar de endereço três vezes até essa terça. A partir de agora, vai viver em um imóvel de alvenaria com 52 metros quadrados, com isolamento térmico, no bairro Jardim Cidade Alta — que, como o nome indica, se localiza em um ponto inatingível pelas enchentes do rio.
— Temos aqui um exemplo. É um dos primeiros bairros resilientes. Uma área fora da mancha (de inundação), com construções resilientes, antimofo, térmicas, com tudo o que as pessoas precisam para se adaptar à parte climática — afirmou a fundadora e presidente do Movimento União BR, Tatiana Monteiro de Barros.
Além das 42 casas concedidas, outras oito estão em fase final de reparos no mesmo local, o que totalizará 50 moradias garantidas por meio da parceria público-privada. Mais 66 unidades seguem em construção no município próximo de Bom Retiro do Sul. Leite afirmou que a demora nas entregas se explica pela complexidade desse tipo de iniciativa:
— Tem de identificar a área, preparar a área, fazer os projetos. Não adianta construir onde é mais fácil, tem de ver onde as pessoas estão dispostas a morar.
O governo estadual concluiu, até o momento, perto de 10% das cerca de 2 mil novas residências previstas para atender vítimas das cheias recentes no Rio Grande do Sul por meio de iniciativas do Piratini focadas no Interior. O governo federal atua em maior grau na Região Metropolitana por meio do programa Compra Assistida (que garante moradias já prontas aos beneficiados ao adquiri-las no mercado imobiliário).
Leite promete acelerar os repasses a partir de agora por terem sido superadas etapas como definição de áreas e construção de infraestrutura. O Piratini prevê destinar cerca de R$ 700 milhões em diferentes programas de moradia.
— Devemos chegar a 30%, 40% (do previsto) até o final do primeiro semestre, e entregar a totalidade, ou quase a totalidade, até o final do ano — projetou o governador.
Momentos antes de abrir a porta de sua nova casa, Sirlei de Souza já imaginava como seria sua nova vida:
— Vai ser um novo começo pra mim. Não vejo a hora de cercar o meu pátio, deitar na minha cama e dormir em paz.