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Um sol para cada um

Onda de calor no RS: o que está por trás das máximas elevadas e quando vem o alívio

Auge do fenômeno é esperado entre quinta-feira (5) e sexta-feira (6), com termômetros próximos ou acima de 40 ºC em várias regiões do Estado

04/02/2026 - 09h41min


Leonardo Martins
Leonardo Martins
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Jonathan Heckler/Agencia RBS
Além de repouso e sombra, é recomendado não sair na rua em horários de pico de sol sem proteção.

O Rio Grande do Sul atravessa mais um episódio de calor intenso, com temperaturas acima da média para esta época do ano e alerta vermelho emitido pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para parte do Estado. 

O pico da onda de calor deve ocorrer entre quinta-feira (5) e sexta-feira (6), com projeções que indicam máximas próximas ou até superiores a 40ºC em regiões do Oeste, especialmente no Noroeste e nas Missões.

Conforme imagens de satélite, é possível visualizar a progressão da onda de calor pelo Estado até sua dissipação, prevista entre sábado (7) e domingo (8).

Saiba mais

O que é uma onda de calor

Uma onda de calor é definida pela persistência de temperaturas muito acima da média climatológica de uma região por vários dias consecutivos. 

No Brasil, os critérios mais utilizados consideram valores pelo menos 5ºC acima da média histórica por um período mínimo de três a cinco dias.

Não se trata apenas de "dias quentes", comuns no verão. O diferencial está na duração, na intensidade e na dificuldade de resfriamento, inclusive durante a noite, o que aumenta os riscos à saúde e ao ambiente.

Bloqueio atmosférico

O principal mecanismo por trás de uma onda de calor é a atuação de um sistema de alta pressão atmosférica em médios níveis da atmosfera. 

Esse sistema funciona como um verdadeiro bloqueio, muitas vezes descrito pelos meteorologistas como uma "cúpula" ou "tampa", que impede a circulação normal do ar.

Quando essa alta pressão se instala sobre uma região:

  • frentes frias ficam bloqueadas e não conseguem avançar
  • a formação de nuvens é inibida
  • a chuva praticamente desaparece
  • o ar quente fica retido próximo à superfície por vários dias

Esse bloqueio é essencial para explicar por que o calor não se dissipa rapidamente e se acumula dia após dia.

O ar que desce e esquenta

Além de bloquear sistemas de alívio térmico, a alta pressão provoca um movimento descendente do ar, chamado de subsidência. Nesse processo, os ventos se deslocam verticalmente de cima para baixo na atmosfera.

À medida que o ar desce, ele é comprimido e aquecido. O resultado é um aquecimento adicional da superfície, associado a um ambiente mais seco e com céu limpo.

Sem nuvens, a radiação solar incide de forma direta durante todo o dia, potencializando ainda mais a elevação das temperaturas.

Por que o calor se intensifica no sul do Brasil?

Segundo o meteorologista do Inmet Marcelo Schneider, alguns fatores regionais explicam a intensificação do calor no Rio Grande do Sul nesta semana.

Um deles é a distribuição da umidade no continente. Nos últimos dias, a faixa responsável pela formação de nuvens e chuvas – chamada "canal de umidade" – ficou mais concentrada na Região Central e no sudeste do Brasil. Nessas áreas, a maior presença de nuvens ajudou a manter as temperaturas mais amenas.

Enquanto isso, regiões como o norte da Argentina, o Paraguai, o sul da Bolívia e o oeste do Rio Grande do Sul ficaram sob domínio de ar seco, sem chuva, permitindo um aquecimento progressivo da superfície.

Essa massa de ar quente, inicialmente mais intensa no norte da Argentina, desloca-se gradualmente em direção ao território gaúcho, ganhando força ao longo dos dias.

Cenário no Rio Grande do Sul

Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet)/Reprodução
Parte do Estado está em alerta vermelho para elevação de até 5°C acima da média nos termômetros até sábado (7).

De acordo com o Inmet, a metade oeste do Estado é a mais afetada pela atual onda de calor. A projeção indica temperaturas acima de 38ºC a partir de quarta-feira (4), com pico entre quinta e sexta, quando os termômetros podem beirar ou superar os 40ºC em alguns municípios.

Em Porto Alegre e na Região Metropolitana, o calor também é significativo, mas menos extremo. As máximas devem ficar entre 34ºC e 35ºC, com algum alívio no fim da tarde devido à brisa marítima, que ajuda a reduzir a sensação térmica.

Segundo Schneider, o comportamento da atmosfera nos próximos dias segue um padrão clássico de ondas de calor no Sul do país.

— Entre quarta e quinta-feira, deve se formar e se intensificar um bloqueio atmosférico, associado a um sistema de alta pressão — explica.

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Céu aberto e muita incidência de sol redobram atenção nos cuidados com a saúde e a pele, principalmente.

Esse sistema reforça a massa de ar quente que já está sobre o oeste do Rio Grande do Sul, próximo à fronteira com o Uruguai. À medida que a alta pressão se desloca lentamente de oeste para leste, ocorre também uma mudança na direção dos ventos.

O vento, que antes soprava de leste e nordeste, passa a vir de norte e noroeste, trazendo ainda mais ar quente da Argentina para o Estado, principalmente para as regiões Central e Oeste.

É o ciclo habitual antes da chegada de uma frente fria. Um ou dois dias antes, ocorre o pico do calor, que deve acontecer entre quinta e sexta-feira

MARCELO SCHNEIDER

Meteorologista do Inmet

Os efeitos de uma onda de calor persistente

A persistência é uma das marcas mais perigosas das ondas de calor. Como o bloqueio atmosférico impede a entrada de frentes frias e sistemas de chuva, o calor se acumula tanto durante o dia quanto à noite.

Com noites mais quentes, o organismo humano tem mais dificuldade para se recuperar do estresse térmico, aumentando o risco de desidratação, exaustão pelo calor e problemas cardiovasculares, sobretudo entre idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.

Além disso, a ausência prolongada de chuva seca o solo, reduz a evaporação e elimina um dos poucos mecanismos naturais de resfriamento da superfície.

Fatores que contribuem para as ondas de calor

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Muito asfalto e concreto contribuem para formação de ilhas de calor.

Especialistas apontam que as ondas de calor têm se tornado mais frequentes, longas e severas.

O Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), indica que o aumento da concentração de gases de efeito estufa elevou a temperatura média do planeta e criou um ambiente mais favorável a extremos climáticos, como períodos prolongados de calor intenso.

Além das mudanças climáticas, fatores locais contribuem para a intensificação do fenômeno. A urbanização, com grande concentração de asfalto e concreto e poucas áreas verdes, favorece a formação de ilhas de calor, que retêm energia durante o dia e dificultam o resfriamento noturno.

Fenômenos climáticos globais, como o El Niño, também podem alterar padrões de circulação atmosférica e potencializar ondas de calor.

Como a onda de calor se dissipa

Nenhuma onda de calor termina sozinha. Para romper o bloqueio atmosférico, é necessário um mecanismo externo capaz de reorganizar a circulação do ar.

No caso do Rio Grande do Sul, esse papel será desempenhado por uma frente fria que avança a partir do sul do continente. Segundo o Inmet, os primeiros efeitos começam a ser sentidos na sexta-feira, especialmente a partir do meio da tarde.

— Na sexta-feira, nós vamos ter um calor muito forte até o meio da tarde. E aí vem uma frente fria que muda o tempo. Da tarde para a noite, essa frente fria traz um refresco — explica Schneider.

A frente fria deve provocar aumento de nebulosidade, queda de temperatura, pancadas de chuva e rajadas de vento. Em algumas regiões, os volumes de precipitação podem variar entre 40 e 50 milímetros, com possibilidade de temporais isolados.

Durante o sábado e o domingo, a tendência é de temperaturas mais amenas em todo o Estado, marcando o fim do ciclo de calor extremo.

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