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"A cultura gaúcha também pertence às mulheres", afirma Marianita Ortaça, patrona dos Festejos Farroupilhas 2026
Filha de Pedro Ortaça, o último Tronco Missioneiro, artista construiu trajetória que honra tradições e abre caminhos


Nascida em São Luiz Gonzaga, na região das Missões, Marianita Ortaça, 38 anos, construiu uma trajetória que cruza cultura, educação, espiritualidade e identidade feminina. Psicóloga, palestrante, artista e empreendedora, ela foi escolhida como patrona dos Festejos Farroupilhas de 2026, reconhecimento que projeta sua história e seu território para o centro das celebrações do Rio Grande do Sul.
Filha de Pedro Ortaça, um dos maiores nomes da cultura gaúcha, e de Rosemari Kutter Ortaça, Marianita cresceu imersa no universo missioneiro. Desde os oito anos, acompanha o pai nos palcos, honrando a tradição e, ao mesmo tempo, rompendo paradigmas ao tocar instrumentos historicamente associados aos homens, como o bombo leguero e a gaita de oito baixos.
A escolha dela como patrona vai ao encontro da temática escolhida para os Festejos deste ano, que é a Herança Jesuítica e Guarani no Rio Grande do Sul: 400 anos de cultura e tradição, que marca o quadricentenário das Missões. Em entrevista a GZH, Marianita fala sobre seguir o trabalho do pai, protagonismo feminino e também os planos para os Festejos.
Leia a entrevista com Marianita Ortaça
O que representa ser escolhida patrona dos Festejos Farroupilhas de 2026?
Para mim, significa representar uma história, um povo e um solo que considero sagrado. Ser patrona é honrar o legado do meu amado pai, Pedro Ortaça, o último Tronco, um dos grandes guardiões da cultura missioneira, mas também é afirmar a força e o protagonismo da mulher gaúcha.
Você cresceu imersa na cultura missioneira. De que forma essa origem molda sua atuação como patrona?
Aprendi a amar essa terra ouvindo e presenciando o amor do meu pai pelas Missões, pelos povos guaranis e pela nossa história. Desde pequena, escutei canções que falam de pertencimento, memória e identidade. Acredito profundamente no grito de Sepé Tiaraju — "Esta terra tem dono" —porque ele representa dignidade e respeito às raízes. As Missões nos ensinam que cultura também é espiritualidade, comunidade e propósito de vida. É esse espírito que pretendo levar para os festejos.
Sendo filha de Pedro Ortaça, como o legado familiar influencia sua forma de representar a cultura gaúcha hoje?
Ser filha do Pedro Ortaça é um grande orgulho e uma grande responsabilidade. Ele me ensina todos os dias sobre força, fé, resiliência e missão de vida. Sempre nos ensinou que cultura não é apenas algo para se cantar, mas para se viver, respeitar e preservar. Isso me inspira a representar a cultura gaúcha com autenticidade, amor pelas raízes e abertura para o presente e o futuro.
Em que momento você percebeu que também se tornaria uma porta-voz da cultura missioneira?
Nunca percebi. Apenas segui meu coração. Levei as Missões comigo em todos os contextos: nos palcos, na sala de aula, no empreendedorismo, na psicoterapia. Não almejei ser porta-voz; vivi com verdade. Foi um reflexo.

Ao tocar instrumentos tradicionalmente associados aos homens, que mensagem você acredita passar para outras mulheres?
Uma mensagem de liberdade e ousadia para escolher e ocupar espaços. Comecei a tocar gaita aos oito anos e bombo leguero aos 16, quando isso ainda causava estranhamento. Hoje vejo que foi uma forma de abrir caminho. A cultura gaúcha também pertence às mulheres.
Como pretende levar a cultura das Missões para o centro das celebrações farroupilhas?
As Missões fazem parte da essência do Rio Grande do Sul. Pretendo valorizar a história dos povos guaranis, a memória das Reduções Jesuíticas e o legado dos grandes criadores da música missioneira, como Pedro Ortaça, Jayme Caetano Braun, Noel Guarani e Cenair Maicá.
De que maneira a Psicologia contribui para sua visão de tradição e identidade?
A Psicologia ensina que identidade é pertencimento. A cultura fortalece a autoestima de um povo, nos lembra quem somos e de onde viemos. Isso é fundamental para construir um futuro com consciência e propósito.
Que diálogo você espera ampliar como patrona dos festejos?
Quero ampliar diálogos que inspirem. Boas conversas, histórias que conectem tradição, empreendedorismo, saúde emocional e espiritualidade. É isso que sempre me moveu.
* Com orientação e supervisão de Júlia Endress