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Atores negros gaúchos comentam sobre a vitória de Michael B. Jordan no Oscar
Nas sextas-feiras, o colunista Émerson Santos escreve sobre educação, cultura, inovação e toda a diversidade presente nas comunidades


O que faz de um acontecimento algo histórico? O que dá a ele peso suficiente para seguir sendo comentado mesmo após ter ocorrido? Na noite do último domingo, o ator norte-americano Michael B. Jordan foi “coroado”, ao receber o troféu de Melhor Ator no Oscar por sua atuação no aclamadíssimo Pecadores.
Em 98 edições da premiação, B. Jordan é apenas o sexto homem negro a receber a estatueta na categoria. Ele lembrou isso em sua fala ao mencionar, um a um, os cinco outros atores que vieram antes dele.
Ao receber a estatueta, em um breve discurso, conseguiu tocar em assuntos que contemplam não apenas as suas vivências, mas que também dizem respeito a outras pessoas negras que, como ele, buscam diariamente reconhecimento e espaço para os seus trabalhos. Em especial, outros atores.
Voltando às perguntas, então: que simbolismo tem para um jovem artista, seja qual for o canto do mundo em que more, ver a imagem de Michael B. Jordan sendo reconhecido? Uma marca que aparece com frequência nas falas do ator, e que também esteve no seu discurso, é a de buscar dar o melhor de si, continuar melhorando, para assim se superar e, ao mesmo tempo, honrar os seus ancestrais. As pessoas que vieram antes dele, que abriram caminho para que hoje tenha o seu espaço.
— Eu sempre vou encorajar outros artistas a não ficarem nos lugares que outros dizem que são os lugares deles. O que tenho a dizer é: sonhe grande e seja gentil — falou o ator em uma coletiva de imprensa, logo após a premiação. — Quero ser um exemplo para as próximas gerações.
E mesmo com a fala que mostra alguém consciente de sua própria trajetória e esforço, ele não deixa de agradecer às pessoas que passaram por seu caminho. Logo no início do discurso, menciona o diretor da produção, Ryan Coogler, resumindo: “Você me deu oportunidade, um espaço”. Essa é uma mensagem que destaca a necessidade de dar a chance de os artistas mostrarem os seus talentos.
Seguindo na busca por uma resposta às perguntas que faço neste texto, por que não ouvir então os jovens artistas negros aqui da nossa terra para saber o que simbolizou para eles essa premiação? Pessoas que, mesmo tão distantes geograficamente do norte-americano, encontram pontos em comum para falar sobre trajetória, representatividade e o fazer artístico.
Um pouco do olhar de cada artista
Phill Coutinho
Ator é cria do Morro da Cruz, em Porto Alegre.

Quando Michael B. Jordan relembra os homens negros que já ganharam um Oscar, é para lembrar que a gente ainda tá aqui, a gente está fazendo arte. Também mostra que, apesar de serem poucos os momentos em que nós tivemos o poder de estar lá em cima do palco, a gente só conseguiu estar aqui fazendo arte porque conseguimos enxergar outros iguais a nós nas telas.
O Michael B. Jordan ao falar sobre si mesmo com esse empoderamento é porque ele sabe do seu ótimo trabalho, sabe que ele é bom. Ele só precisava da oportunidade. Então, eu acho muito importante esse lance da representatividade, mas, num contexto prático, esse prêmio também abre a possibilidade de o mercado dar mais oportunidades de outras histórias serem contadas, de outras pessoas serem ouvidas.
E, por consequência, a gente vai conseguindo expandir essas áreas para que outros atores negros e outras pessoas negras também consigam atingir esses espaços.
Bruno Fernandes
Ator cresceu no bairro Mathias Velho, em Canoas.

Quando a gente tem uma fala que reverencia as pessoas negras que tiveram destaque, que tiveram um talento reconhecido, a gente se inspira para pensar que talvez possamos também fazer a diferença, cada um com a sua vida.
O Michael, ao ganhar esse prêmio, sendo o sexto homem que ganhou como ator principal em quase cem anos de Oscar, isso é histórico e tem de ser lembrado, tem de ser trazido de novo à tona, para que a gente saiba o caminho que percorreu até chegar ali no alto.
Isso pode nos ajudar a querer dar sempre o nosso melhor e a querer conquistar novas coisas na nossa carreira. Então, quanto mais oportunidades a gente tem e mais vezes a gente consegue desenvolver um personagem real, a gente está provando para nós mesmos que conseguimos e podemos fazer.
São tão poucos que, toda vez que um ator ou uma atriz negra ganha um prêmio de atuação, eu vibro muito, porque a gente se reconhece por essa questão racial.
Gabriel Faryas
Ator criado na Restinga, zona sul da Capital.

Eu acho legal, no filme, como aparece essa questão da ancestralidade. É um estágio de tamanha apropriação da própria história a ponto de você se permitir criar uma história de vampiro em cima disso.
Eu acho que a gente já não está tanto naquela fase, enquanto movimento artístico negro, de preencher lacunas. Já tem pessoas negras ocupando espaços e sendo criativas, imaginativas e muito poéticas, que é o caso do filme.
E a calmaria que Michael B. Jordan traz naquele discurso demonstra que ele também está apropriado a esse lugar. Ele está confiante. Ou seja, “sei o quanto trabalhei para estar nessa produção”.
Enquanto ator preto, eu me reconheço naquele lugar. Por que eu, aqui de Porto Alegre, não posso ter um dia um reconhecimento internacional com o meu trabalho? A gente se permite ousar. Então, para mim, vê-lo é uma mensagem que me diz: “Continue”. Para outros artistas pode ser “É por esse caminho”, ou ainda “Valeu a pena”.