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Comércio irregular 

Centro de Porto Alegre volta a estar tomado por camelôs, mesmo com promessa de fiscalização mais rígida

Prefeito Sebastião Melo afirmou, mais de uma vez, que ambulantes não poderiam vender mercadorias nos calçadões após conclusão da revitalização do Quadrilátero Central 

10/03/2026 - 09h57min


Guilherme Gonçalves
Guilherme Gonçalves
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Barracas e lonas estendidas sobre o novo calçadão da Rua dos Andradas escondem parte da revitalização do Centro Histórico e servem de vitrine para comércios irregulares que vendem brinquedos, roupas e eletrônicos, entre outros produtos. 

A volta da presença ostensiva de camelôs no coração da Capital é criticada por frequentadores e entidades lojistas, que dizem viver um flashback de décadas passadas. Ainda que, em 2022, no início das obras de revitalização do Quadrilátero Central, o prefeito Sebastião Melo tenha prometido que, quando os trabalhos ficassem prontos, ambulantes não poderiam mais usar as ruas do Centro Histórico para vender produtos

— Quando o camelódromo (Pop Center) foi construído, tinha cliente para todo mundo no Centro. Agora, a disputa com os camelôs ficou ainda mais injusta. Eu pago imposto, eles não — diz o comerciante Amir Shan, dono de uma loja de roupas no Centro Histórico. 

Melo manteve a afirmação ao passo que as intervenções ocorriam, ressaltando, inclusive, que esse era o seu compromisso e que vinha avisando aos ambulantes. Porém, findados os trabalhos no mês passado, a oferta nas calçadas segue a pleno, principalmente na Rua da Praia e na Avenida Borges de Medeiros. 

O entorno do abrigo dos bondes, na Praça XV de Novembro, também está tomado de ambulantes. Ali, eles vendem produtos usados encontrados no lixo, como bolsas, sapatos e bonecas. Até aparelhos de ginástica são anunciados na calçada. Alguns estendem lençóis, roupas e toalhas em grades, o que indica que podem estar morando no local. 

Quem fiscaliza o espaço é a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos. Procurada pela reportagem, a pasta disse que envia "constantemente" equipes ao local para coibir esses atos. A Brigada Militar, que inclusive tem um posto junto ao antigo abrigo dos bondes, diz o mesmo e acrescenta que recebe diversas queixas de ameaças feitas por estes ambulantes a frequentadores da região. 


Comerciantes no entorno dos locais onde os camelôs atuam acusam a prefeitura de ser conivente com a venda de produtos nas calçadas. Procurada, a gestão municipal diz que equipes circulam diariamente pela região central realizando ações de fiscalização. 

"A expectativa é que o trabalho seja reforçado com a unificação do plano de carreira dos agentes de fiscalização e com a realização de concurso público para a contratação de 50 novos fiscais", diz trecho de nota enviada a Zero Hora.

Ainda de acordo com a prefeitura, em 2025 foram registradas 184 apreensões na região do Centro Histórico, no eixo das Rua dos Andradas, Avenida Borges de Medeiros e entorno do Mercado Público. Neste ano, já foram mais de 20 apreensões nas mesmas regiões. 

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Andradas e Borges de Medeiros são as vias com maior presença de camelôs.

Ambulantes indígenas 

De acordo com o secretário geral do Governo de Porto Alegre, André Coronel, os atuais vendedores na Rua dos Andradas não podem ser retirados pela prefeitura por serem indígenas. Para este caso, a gestão municipal diz que há conversas com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para providenciar a realocação dessa população. 

No ano passado, a prefeitura chegou a levantar a ideia de construir um centro para venda de produtos de ambulantes indígenas na Rua José Montaury. A proposta, porém, foi recusada pelos vendedores informais. 

— A gente sempre trabalha, em um primeiro momento, de forma orientativa. Tentamos uma interlocução com o Ministério Público Federal para construir uma solução para essas pessoas. Levamos isso para muitas reuniões — afirma Coronel. 

Sempre foi comum que famílias indígenas vendessem artesanato em ruas do Centro Histórico, em especial em datas comemorativas. Ao circular pela Andradas nesta semana, a reportagem verificou que não há somente ambulantes indígenas. Também foi difícil de achar artesanato. A maioria das peças expostas são brinquedos falsificados e eletrônicos de procedência duvidosa.

Zero Hora entrou em contato com a Funai, mas não obteve um posicionamento da instituição até a mais recente atualização desta reportagem. O espaço para manifestação segue aberto.

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Prefeitura diz que há somente ambulantes indígenas vendendo em ruas do Centro. Reportagem de Zero Hora viu que não é bem assim.

— Quando a informalidade cresce sem controle, cria-se uma concorrência claramente desigual. Enquanto alguns empreendedores assumem todos os custos e responsabilidades da atividade econômica formal, outros passam a atuar sem as mesmas obrigações, ocupando espaços públicos e competindo diretamente pelos mesmos consumidores — afirma o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL-POA), Carlos Klein. 

Lugar de sobra

Em 2009, o então prefeito José Fogaça criou um centro comercial para abrigar camelôs que tomavam conta das ruas de Porto Alegre. O espaço, apelidado de "camelódromo" e "shopping dos ambulantes" foi cedido, após licitação, para uma empresa privada administrar.

Depois, o espaço veio ser chamado de Centro Popular de Compras (POP Center). Prestes completar 17 anos em 2026, o centro comercial ainda abriga ambulantes que decidiram  se regulamentar no passado — a maioria vende roupas, brinquedos e eletrônicos. Contudo, o local está hoje com mais de 200 lojas desocupas

Guilherme Gonçalves/Agência RBS
Pop Center foi criado para abrigar ambulantes e retirá-los das calçadas de Porto Alegre.

De acordo com a CEO do Pop Center, Elaine Deboni, já houve diversas tentativas de atrair ambulantes que estão hoje nas ruas para venderem seus produtos no local: 

— Aqui dentro devem atuar dentro da lei. Estamos com esses espaços vazios porque vendedores se aposentara ou por causa da enchente. Não fomos atingidos, mas alguns que estavam aqui perderam tudo e foram para o interior — conta Elaine. 

— Já tentamos de tudo para trazer esses novos ambulantes. Eles não querem. A gente senta para conversar e eles nem ouvem a proposta. Se fazem que não entendem o que a gente diz. Ainda são violentos com os fiscais — completa a CEO do Pop Center. 

Hoje, o aluguel de um espaço no Pop Center parte de R$ 64 pelo metro quadrado. O pagamento deve ser feito semanalmente. Um projeto de lei enviado pelo prefeito Sebastião Melo à Câmara de Vereadores autoriza que microempresários e microempreendedores individuais (MEIs) ocupem lojas vazias do Pop Center. 

Guilherme Gonçalves/Agência RBS
Pop Center está com mais de 200 espaços para lojas vazios.

Presidente da Federação das Associações Gaúchas do Varejo (FAGV), Vilson Noer lembra do efeito da criação do camelódromo para o comércio do Centro Histórico. A ideia do shopping para ambulantes surgiu em viagens para outros Estados junto com o vereador Idenir Cecchim, ex-secretário municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic) na gestão de Fogaça. 

— A Rua da Praia já foi um dos pontos mais caros de Porto Alegre. A presença de ambulantes afastou o nível de clientes que conseguimos atrair depois que os camelôs saíram das ruas, que eram da classe média — diz Noer. 

O representante varejista diz que, na época, enquanto presidente da CDL-POA, ele e outros interlocutores conseguiram atrair marcas como Renner, Marisa, Riachuelo, Hering e Beagle para a Rua dos Andradas. Nos últimos três anos, todas elas fecharam lojas na rua. Dessas, somente a Marisa mantém ainda uma das duas operações que tinha na via. 

— Não adianta criar ruas bonitas, calçadas legais e encher de ambulantes e camelôs. No fim de tarde não se consegue nem caminhar. Falta vontade politica — conclui Noer. 

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