Comparação
Chuva recorde e ocupação de áreas de risco aproximam tragédias no RS e em Minas Gerais, dizem especialistas
Estudiosos afirmam que os eventos meteorológicos que causaram precipitação nos dois Estados tiveram origens distintas


Os eventos extremos que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 e a Zona da Mata em Minas Gerais em fevereiro de 2026 causaram inundações, destruição e mortes. Segundo especialistas, a análise meteorológica indica que os fenômenos tiveram origens distintas, mas apresentam similaridades: a persistência da chuva e a ocupação em áreas de risco.
Segundo Enner Herenio de Alcântara, especialista em desastres naturais e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no RS, a quantidade atípica de chuva foi motivada por frentes frias que sofreram um bloqueio atmosférico, além da ocorrência de ciclones extratropicais comuns na região.
Já em Minas Gerais, a precipitação esteve ligada a sistemas típicos do verão tropical, organizados pela Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). Em Juiz de Fora, município mineiro mais afetado, choveu em dois dias uma quantidade superior à esperada para o mês de fevereiro.
Em maio de 2024, Caxias do Sul, na Serra, registrou 845 milímetros, quando a média histórica para o mês é 131,4 milímetros; em Porto Alegre, o mesmo mês foi o mais chuvoso desde 1916.
— Em ambos os casos, o fator determinante não foi apenas a intensidade pontual da chuva, mas a combinação entre volumes elevados e permanência do sistema. A literatura científica mostra que a persistência atmosférica é um dos principais ingredientes para desastres hidrometeorológicos — disse Alcântara.
O meteorologista José Carlos Figueiredo, do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), também da Unesp, explica que as diferenças são possíveis devido à extensão do território brasileiro.
— De outubro a março, ocorre um fenômeno chamado Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN), que vem da África e causa grandes quantidades de chuva no Sudeste e Centro-Oeste. É o que vimos em Minas Gerais. No Rio Grande do Sul, os principais fenômenos que geram chuva forte são as frentes frias, que vêm do Polo Sul. Em meteorologia, pouca coisa é relacionada diretamente — pontua.
Segundo Giovanni Dolif, meteorologista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), apesar de diferentes, os dois eventos compartilharam o mesmo combustível: os chamados "rios voadores", correntes de vapor d’água na atmosfera que transportam grandes volumes de umidade por milhares de quilômetros.
— Os dois eventos tinham um canal de transporte de umidade que causou chuva nas duas regiões durante dias — pontua.
Também há diferenças nas características geográficas das duas regiões. O relevo acidentado mineiro favoreceu enxurradas e deslizamentos de terra.
Já no território gaúcho, marcado por planícies banhadas por rios, a chuva resultou em inundações com elevação lenta, resultado do escoamento da água de zonas mais altas para corpos hídricos como o Rio Taquari e a bacia do Guaíba.
Mudanças climáticas
Questionados sobre a influência do aquecimento global causado pela ação humana, os especialistas deram respostas distintas. Para Enner Herenio de Alcântara, a alta na temperatura da Terra verificada nos últimos anos pode ajudar a explicar os desastres naturais.
— Tanto no Sudeste quanto no Sul, há evidências de que o aquecimento global tem aumentado a capacidade da atmosfera de reter vapor d’água, o que potencializa extremos de precipitação — disse.
José Carlos Figueiredo é cauteloso ao relacionar o aumento da temperatura no planeta aos desastres no Estado e em Minas Gerais.
— A Terra naturalmente aquece, não é só a gente (a humanidade) que participa. Se não houvesse ninguém, o planeta esquentaria também, depois esfriaria. O clima nunca foi comportado, é variável. Sempre teve alterações e vai continuar tendo — comentou.
Áreas de risco
Os especialistas concordam que os dois eventos extremos compartilham características que explicam o alcance dos danos: ambos atingiram fortemente áreas de risco.
— Em Minas Gerais, a presença de áreas urbanas em encostas íngremes aumenta o risco de deslizamentos. No Rio Grande do Sul, a ocupação de planícies de inundação e margens de rios potencializa o impacto de cheias prolongadas. A vulnerabilidade não depende apenas do volume de chuva, mas da forma como o território está ocupado — afirma Enner Herenio de Alcântara, professor da Unesp.
Segundo os especialistas, mesmo quando o sistema meteorológico é semelhante, cidades com sistemas de drenagem eficazes, controle de ocupação em áreas de risco e infraestrutura resiliente tendem a apresentar menos perdas humanas e materiais.
— Ao ocupar uma área, você desmata, tira a vegetação cujas raízes seguram o solo. Se uma ocupação fica em uma área de baixada, a drenagem pode não dar vazão à água, que vai subir e causar uma inundação. Se o terreno é inclinado, ocorrem enxurradas que arrastam tudo. Se não tiver pessoas em situação de vulnerabilidade, a chuva, por mais extrema que seja, não vai causar problema nenhum — diz Giovanni Dolif, meteorologista do Cemaden.
*Colaborou Carolina Dill