Notícias



Vídeo

Com 18 imóveis fechados em 500 metros, entorno do Olímpico acumula relatos de abandono, vandalismo e medo; assista

Moradores e comerciantes de vias próximas à estrutura deteriorada vivem rotina de insegurança; furtos e depredações multiplicam número de espaços vazios

24/03/2026 - 09h42min


Marcelo Gonzatto
Marcelo Gonzatto
Enviar E-mail

No meio da noite de um domingo, no começo de março, o gerente de produção Ênio Vianna, 32 anos, recebeu um telefonema. O sistema de monitoramento de uma empresa de vigilância havia detectado ameaça na gráfica onde ele trabalha, na Avenida Carlos Barbosa, no bairro Azenha, em Porto Alegre. Um homem estava arrancando a caixa de luz do imóvel para roubar fios e peças de metal. Quando chegou ao local, deparou com o equipamento destruído. Em outras três oportunidades, ladrões levaram a fiação da campainha.

— É todo o tempo isso. Semana passada, invadiram uma antiga vidraçaria ali do outro lado da rua — indigna-se Vianna.

Esse tipo de relato é frequente no entorno do antigo Estádio Olímpico, que deixou de receber jogos do Grêmio no final de 2012 e, por conta de impasses legais, até hoje se deteriora à espera de um novo destino. O fechamento reduziu a circulação de pessoas nas quadras próximas, multiplicou a sensação de insegurança e leva a um progressivo esvaziamento urbano. Em um trecho de apenas 500 metros da Carlos Barbosa, Zero Hora identificou pelo menos 18 imóveis fechados — em sua maioria antigos estabelecimentos comerciais, alguns deles danificados por arrombamentos e atos de vandalismo.

Antigo ponto de acesso ao estádio, a avenida é hoje um dos pontos que mais sofre com a falta de aproveitamento da área do velho estádio — principalmente entre a Azenha e a Travessa Mato Grosso. Nesse intervalo, há um amplo galpão comercial de fachada envidraçada, onde se prende uma grande placa de "aluga-se" e através da qual se observa um rombo no forro.

Derrubaram para levar os fios de luz. Eu só trabalho de porta fechada. Infelizmente, a região morreu junto com o Olímpico.

CLEONICE FAGUNDES

Comerciante e moradora da região

A comerciante Cleonice Fagundes, 63 anos, proprietária de uma vidraçaria na região há mais de quatro décadas e moradora do local, afirma que já sofreu duas tentativas de assalto ao longo dos últimos anos. Por conta disso, depois que escurece, não se arrisca mais a percorrer a pé os cerca de 200 metros até o estacionamento onde deixa seu carro. 

— Mesmo quando não tinha jogo, havia mais movimento nas ruas próximas. Gente que vinha visitar o estádio, excursões de colégio, gente que trabalhava ali. Com a queda de movimento e a falta de segurança, muita gente foi fechando as portas — afirma a empresária.

Em uma esquina próxima, na calçada oposta, um restaurante desativado ainda mantém as marcas de um incêndio recente. Conforme a vizinhança, um grupo de pessoas teria feito uma fogueira na parede externa do estabelecimento, mas o fogo acabou se alastrando para o telhado.

Duda Fortes/Agencia RBS
Cleonice Fagundes trabalha há mais de quatro décadas na área

Casas abandonadas são alvo de invasores

Por conta desse cenário, proliferam casas e terrenos abandonados em quadras próximas, e parte dos moradores procura outro lugar para viver. 

O bancário Diego Silva Figini, 41 anos, conta que vem sondando outros endereços na mesma zona da cidade, mas mais afastados do Olímpico. Enquanto não faz a mudança, recorre a algumas estratégias devido ao sentimento de insegurança. Para evitar que a esposa e a filha de 17 anos precisem caminhar duas quadras até a parada de ônibus localizada ao lado do estádio, na Avenida Gastão Mazeron, deixa sempre o carro com elas. Junto com dezenas de outros vizinhos, o morador da Rua Teixeira de Carvalho participa ainda de grupos de WhatsApp destinados a servir como espaço para avisos de segurança — um se chama "Eurico Lara — alertas" (em referência a uma rua próxima) e outro, "Eurico Lara — Emergência".

— Usamos para trocar mensagens sobre coisas suspeitas. Para entrar, é preciso ser indicado por alguém. É o que podemos fazer para ajudar uns aos outros — conta Figini.

No dia 23 de janeiro, por exemplo, foi enviada a mensagem: "3 fortes suspeitos subindo pelo final da Eurico para a Teixeira". No dia seguinte, um vizinho comentou: "Não sei se são os mesmos, pois 3 assaltaram um rapaz aqui na Eurico, na praça, e um estava com uma faca de serra".

Conforme o bancário, o fechamento do Olímpico atraiu usuários de drogas que se abrigam em volta do estádio ou se escondem no interior da área — apesar da presença de segurança privada. A suspeita é de que realizem furtos para sustentar a dependência química. Recentemente, Figini testemunhou da sua janela um grupo de homens que roubou a fiação de energia de uma casa abandonada e colocou fogo no material para separar o metal. As labaredas se espalharam e danificaram boa parte do imóvel. A Brigada Militar e os bombeiros foram chamados, mas os ladrões fugiram.

Na José de Alencar, próximo ao antigo acesso conhecido como Largo dos Campeões, a situação é semelhante. Lado a lado, há uma casa e um terreno abandonados com placas de "vende-se" nos portões. Por conta desse cenário, o vizinho do Olímpico Érico Fabres, 48 anos, lamenta a saída do Grêmio das proximidades — mesmo que, no braço direito, o colorado fanático traga uma tatuagem com o símbolo do Inter, arquirrival do Tricolor.

Os imóveis desvalorizaram bastante por conta disso tudo, infelizmente. Volta e meia, tem gente tentando invadir essas casas.

ÉRICO FABRES

Morador da região

As responsabilidades por imóveis abandonados

  • Proprietários — Devem evitar ocupações irregulares ou uso indevido, mantendo condições mínimas de segurança, e prevenir riscos de incêndio, desabamento, acúmulo de lixo ou focos de doenças.
  • Prefeitura — Pode notificar o proprietário ou aplicar multa  quando o imóvel representar algum tipo de risco à segurança geral.
  • Brigada Militar — Responde pela segurança das áreas públicas. Pode entrar em um imóvel privado apenas em caso de flagrante delito ou emergência, ou com mandado judicial.

Impasse impede demolição de estádio

Duda Fortes/Agencia RBS
Questões jurídicas e financeiras paralisam derrubada da estrutura.

O nó burocrático que impede a demolição do Olímpico e a destinação da área para um novo empreendimento é difícil de desatar. A ideia original era que o antigo estádio seria entregue a empreendedores em troca da construção da nova Arena, erguida na Zona Norte. Porém, a troca das chaves ainda não ocorreu devido a impasses jurídicos e financeiros envolvendo temas como dívidas tributárias e a necessidade de realizar obras complementares no entorno da Arena. 

As negociações envolvem o clube, iniciativa privada (empresas Karagounis e OAS 26), prefeitura e Ministério Público. As tratativas seguem em andamento, sem previsão de se encerrarem.

O que diz o Grêmio

"O Grêmio informa que todas as condições para a realização da permuta de propriedade da área do Olímpico pelo terreno da Arena já foram implementadas por parte do Clube, que aguarda das empresas permutantes Karagounis e OAS 26 a consecução e conclusão do contrato. O Grêmio vem adotando todas as medidas necessárias para tanto, já tendo notificado as empresas permutantes neste sentido. O Grêmio ressalta ainda que, até a conclusão desse processo, mantém segurança armada por 24h diariamente no local, garantindo o controle de acesso à propriedade".

O que diz a prefeitura

"A Prefeitura de Porto Alegre segue atuando como intermediadora e facilitadora das negociações envolvendo o futuro da área do antigo Estádio Olímpico. As tratativas com todas as partes envolvidas - incluindo empresas privadas e com a participação do Ministério Público - permanecem em andamento. Desde o ano passado, o Município já intermediou dezenas de reuniões com o objetivo de construir uma solução consensual para os impasses existentes, incluindo questões tributárias e contrapartidas remanescentes."

O objetivo da Prefeitura é avançar em uma solução definitiva que permita destravar as intervenções urbanísticas tanto no entorno da Arena quanto na área do antigo Estádio Olímpico, iniciativas consideradas de interesse coletivo para a cidade. A administração municipal reforça que mantém diálogo permanente com todos os envolvidos e conduz o processo com transparência, buscando viabilizar um desfecho que traga benefícios urbanísticos, econômicos e sociais para Porto Alegre.

O que diz a Brigada Militar

A respeito dos relatos de insegurança no entorno do Estádio Olímpico, no bairro Medianeira, informamos que, no ano de 2026, foram registrados seis casos de furto qualificado mediante arrombamento em toda a região, o que representa uma média aproximada de duas ocorrências mensais. Embora haja a percepção de aumento da insegurança por parte de moradores e comerciantes, especialmente em vias como a Avenida Carlos Barbosa, destacamos que a situação encontra-se sob controle.

O policiamento na região é realizado de forma contínua, com emprego diuturno de ações ostensivas e preventivas. Entre as medidas adotadas, destacam-se o reforço de patrulhamento noturno e a realização de operações conjuntas com outros órgãos de segurança pública. As ações têm como foco a repressão e prevenção de crimes patrimoniais, incluindo furtos mediante arrombamento, furtos de fios e outras ocorrências correlatas. Ressaltamos que seguimos atentos às demandas da comunidade e permanecemos à disposição para esclarecimentos.

O que diz a Karagounis

A Karagounis Participações S.A. informou que não se manifestaria neste momento. Zero Hora apurou, porém, que há expectativa de novos avanços no impasse envolvendo a destinação da área do Olímpico nas próximas semanas.

Últimas Notícias