Vídeo
Com 18 imóveis fechados em 500 metros, entorno do Olímpico acumula relatos de abandono, vandalismo e medo; assista
Moradores e comerciantes de vias próximas à estrutura deteriorada vivem rotina de insegurança; furtos e depredações multiplicam número de espaços vazios

No meio da noite de um domingo, no começo de março, o gerente de produção Ênio Vianna, 32 anos, recebeu um telefonema. O sistema de monitoramento de uma empresa de vigilância havia detectado ameaça na gráfica onde ele trabalha, na Avenida Carlos Barbosa, no bairro Azenha, em Porto Alegre. Um homem estava arrancando a caixa de luz do imóvel para roubar fios e peças de metal. Quando chegou ao local, deparou com o equipamento destruído. Em outras três oportunidades, ladrões levaram a fiação da campainha.
— É todo o tempo isso. Semana passada, invadiram uma antiga vidraçaria ali do outro lado da rua — indigna-se Vianna.
Esse tipo de relato é frequente no entorno do antigo Estádio Olímpico, que deixou de receber jogos do Grêmio no final de 2012 e, por conta de impasses legais, até hoje se deteriora à espera de um novo destino. O fechamento reduziu a circulação de pessoas nas quadras próximas, multiplicou a sensação de insegurança e leva a um progressivo esvaziamento urbano. Em um trecho de apenas 500 metros da Carlos Barbosa, Zero Hora identificou pelo menos 18 imóveis fechados — em sua maioria antigos estabelecimentos comerciais, alguns deles danificados por arrombamentos e atos de vandalismo.
Antigo ponto de acesso ao estádio, a avenida é hoje um dos pontos que mais sofre com a falta de aproveitamento da área do velho estádio — principalmente entre a Azenha e a Travessa Mato Grosso. Nesse intervalo, há um amplo galpão comercial de fachada envidraçada, onde se prende uma grande placa de "aluga-se" e através da qual se observa um rombo no forro.
Derrubaram para levar os fios de luz. Eu só trabalho de porta fechada. Infelizmente, a região morreu junto com o Olímpico.
CLEONICE FAGUNDES
Comerciante e moradora da região
A comerciante Cleonice Fagundes, 63 anos, proprietária de uma vidraçaria na região há mais de quatro décadas e moradora do local, afirma que já sofreu duas tentativas de assalto ao longo dos últimos anos. Por conta disso, depois que escurece, não se arrisca mais a percorrer a pé os cerca de 200 metros até o estacionamento onde deixa seu carro.
— Mesmo quando não tinha jogo, havia mais movimento nas ruas próximas. Gente que vinha visitar o estádio, excursões de colégio, gente que trabalhava ali. Com a queda de movimento e a falta de segurança, muita gente foi fechando as portas — afirma a empresária.
Em uma esquina próxima, na calçada oposta, um restaurante desativado ainda mantém as marcas de um incêndio recente. Conforme a vizinhança, um grupo de pessoas teria feito uma fogueira na parede externa do estabelecimento, mas o fogo acabou se alastrando para o telhado.

Casas abandonadas são alvo de invasores
Por conta desse cenário, proliferam casas e terrenos abandonados em quadras próximas, e parte dos moradores procura outro lugar para viver.
O bancário Diego Silva Figini, 41 anos, conta que vem sondando outros endereços na mesma zona da cidade, mas mais afastados do Olímpico. Enquanto não faz a mudança, recorre a algumas estratégias devido ao sentimento de insegurança. Para evitar que a esposa e a filha de 17 anos precisem caminhar duas quadras até a parada de ônibus localizada ao lado do estádio, na Avenida Gastão Mazeron, deixa sempre o carro com elas. Junto com dezenas de outros vizinhos, o morador da Rua Teixeira de Carvalho participa ainda de grupos de WhatsApp destinados a servir como espaço para avisos de segurança — um se chama "Eurico Lara — alertas" (em referência a uma rua próxima) e outro, "Eurico Lara — Emergência".
— Usamos para trocar mensagens sobre coisas suspeitas. Para entrar, é preciso ser indicado por alguém. É o que podemos fazer para ajudar uns aos outros — conta Figini.
No dia 23 de janeiro, por exemplo, foi enviada a mensagem: "3 fortes suspeitos subindo pelo final da Eurico para a Teixeira". No dia seguinte, um vizinho comentou: "Não sei se são os mesmos, pois 3 assaltaram um rapaz aqui na Eurico, na praça, e um estava com uma faca de serra".
Conforme o bancário, o fechamento do Olímpico atraiu usuários de drogas que se abrigam em volta do estádio ou se escondem no interior da área — apesar da presença de segurança privada. A suspeita é de que realizem furtos para sustentar a dependência química. Recentemente, Figini testemunhou da sua janela um grupo de homens que roubou a fiação de energia de uma casa abandonada e colocou fogo no material para separar o metal. As labaredas se espalharam e danificaram boa parte do imóvel. A Brigada Militar e os bombeiros foram chamados, mas os ladrões fugiram.
Na José de Alencar, próximo ao antigo acesso conhecido como Largo dos Campeões, a situação é semelhante. Lado a lado, há uma casa e um terreno abandonados com placas de "vende-se" nos portões. Por conta desse cenário, o vizinho do Olímpico Érico Fabres, 48 anos, lamenta a saída do Grêmio das proximidades — mesmo que, no braço direito, o colorado fanático traga uma tatuagem com o símbolo do Inter, arquirrival do Tricolor.
Os imóveis desvalorizaram bastante por conta disso tudo, infelizmente. Volta e meia, tem gente tentando invadir essas casas.
ÉRICO FABRES
Morador da região
As responsabilidades por imóveis abandonados
- Proprietários — Devem evitar ocupações irregulares ou uso indevido, mantendo condições mínimas de segurança, e prevenir riscos de incêndio, desabamento, acúmulo de lixo ou focos de doenças.
- Prefeitura — Pode notificar o proprietário ou aplicar multa quando o imóvel representar algum tipo de risco à segurança geral.
- Brigada Militar — Responde pela segurança das áreas públicas. Pode entrar em um imóvel privado apenas em caso de flagrante delito ou emergência, ou com mandado judicial.
Impasse impede demolição de estádio

O nó burocrático que impede a demolição do Olímpico e a destinação da área para um novo empreendimento é difícil de desatar. A ideia original era que o antigo estádio seria entregue a empreendedores em troca da construção da nova Arena, erguida na Zona Norte. Porém, a troca das chaves ainda não ocorreu devido a impasses jurídicos e financeiros envolvendo temas como dívidas tributárias e a necessidade de realizar obras complementares no entorno da Arena.
As negociações envolvem o clube, iniciativa privada (empresas Karagounis e OAS 26), prefeitura e Ministério Público. As tratativas seguem em andamento, sem previsão de se encerrarem.
O que diz o Grêmio
"O Grêmio informa que todas as condições para a realização da permuta de propriedade da área do Olímpico pelo terreno da Arena já foram implementadas por parte do Clube, que aguarda das empresas permutantes Karagounis e OAS 26 a consecução e conclusão do contrato. O Grêmio vem adotando todas as medidas necessárias para tanto, já tendo notificado as empresas permutantes neste sentido. O Grêmio ressalta ainda que, até a conclusão desse processo, mantém segurança armada por 24h diariamente no local, garantindo o controle de acesso à propriedade".
O que diz a prefeitura
"A Prefeitura de Porto Alegre segue atuando como intermediadora e facilitadora das negociações envolvendo o futuro da área do antigo Estádio Olímpico. As tratativas com todas as partes envolvidas - incluindo empresas privadas e com a participação do Ministério Público - permanecem em andamento. Desde o ano passado, o Município já intermediou dezenas de reuniões com o objetivo de construir uma solução consensual para os impasses existentes, incluindo questões tributárias e contrapartidas remanescentes."
O objetivo da Prefeitura é avançar em uma solução definitiva que permita destravar as intervenções urbanísticas tanto no entorno da Arena quanto na área do antigo Estádio Olímpico, iniciativas consideradas de interesse coletivo para a cidade. A administração municipal reforça que mantém diálogo permanente com todos os envolvidos e conduz o processo com transparência, buscando viabilizar um desfecho que traga benefícios urbanísticos, econômicos e sociais para Porto Alegre.
O que diz a Brigada Militar
A respeito dos relatos de insegurança no entorno do Estádio Olímpico, no bairro Medianeira, informamos que, no ano de 2026, foram registrados seis casos de furto qualificado mediante arrombamento em toda a região, o que representa uma média aproximada de duas ocorrências mensais. Embora haja a percepção de aumento da insegurança por parte de moradores e comerciantes, especialmente em vias como a Avenida Carlos Barbosa, destacamos que a situação encontra-se sob controle.
O policiamento na região é realizado de forma contínua, com emprego diuturno de ações ostensivas e preventivas. Entre as medidas adotadas, destacam-se o reforço de patrulhamento noturno e a realização de operações conjuntas com outros órgãos de segurança pública. As ações têm como foco a repressão e prevenção de crimes patrimoniais, incluindo furtos mediante arrombamento, furtos de fios e outras ocorrências correlatas. Ressaltamos que seguimos atentos às demandas da comunidade e permanecemos à disposição para esclarecimentos.
O que diz a Karagounis
A Karagounis Participações S.A. informou que não se manifestaria neste momento. Zero Hora apurou, porém, que há expectativa de novos avanços no impasse envolvendo a destinação da área do Olímpico nas próximas semanas.