RETRATOS DA VIDA
“Se manter entretida faz bem”: iniciativa oferece novos aprendizados
O projeto 3ª Idade Ativa, que promove cursos de diferentes áreas, está nos últimos dias de inscrições abertas para o primeiro semestre


Os corredores do prédio Anexo da Escola Técnica Parobé, em Porto Alegre, abrigam turmas um pouco diferentes do habitual. Entre música, trabalhos manuais e um idioma diferente, o projeto 3ª Idade Ativa oferece cursos acessíveis para o público.
Com inscrições abertas até dia 31 de março, a iniciativa tem vagas para cursos de línguas, incluindo inglês, francês, italiano e espanhol, além de aulas artísticas de canto, teatro, violão e encadernação e restauração.
O projeto é desenvolvido desde 1991, quando iniciou com uma parceria entre a Secretaria de Educação e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Com o nome Projeto Escola Industrial Aberta para Terceira Idade, a ação abrangia, inicialmente, cursos voltados à área industrial, como mecânica de automóveis e informática. Com o passar dos anos, o projeto foi se adaptando.
As atividades têm o propósito de manter a educação para além da idade e, mais do que isso, buscam transmitir e incentivar um novo desejo aos alunos.
– É uma extensão da vida deles, um projeto de vida. Muitos ainda cuidam de netos, são o apoio da família. Então, isso aqui funciona como uma atividade de produção de conhecimento – descreve Clóvis Pessin, 70 anos, professor de violão desde 1995 e coordenador do 3ª Idade Ativa.
Vitalidade
Criado com o intuito de atender pessoas acima dos 50 anos, o projeto chegou a ter 180 alunos. Porém, sofreu um impacto após a pandemia. Clóvis relembra que houve um afastamento no retorno à normalidade.
Atualmente, o projeto funciona de forma independente, com valores abaixo do mercado, e se mantém com o apoio da Escola Parobé, que cede o espaço. Para manter a iniciativa viável e atrair novos participantes, também são aceitas inscrições de pessoas abaixo dos 40 anos, embora o foco siga sendo a terceira idade.
Hoje, as aulas ocorrem de segunda a quinta-feira, no turno da tarde, e o projeto adota presença flexível.
Ensino entre gerações
A convivência entre diferentes idades é uma das marcas do projeto. Na sala de encadernação, a professora Sônia Russo, 78 anos, representa uma trajetória construída dentro do próprio curso. Ela começou como aluna há mais de duas décadas e, após anos de prática, passou a ensinar.
– É um trabalho que ensina a ter calma, porque não adianta correr – afirma.
Já nas aulas de francês, a professora Luana Muniagurria, 24 anos, traz um olhar mais jovem, que também aprende com as alunas. Estudante de Letras da UFRGS, ela destaca a troca dentro de sala de aula:
– É uma troca muito rica. Eu aprendo muito com elas e elas aprendem comigo.
Apesar da diferença de gerações, o objetivo em comum aproxima docentes e alunos: o aprendizado contínuo.
Vivendo na prática
A aluna Enilda Benfica, 83 anos, vive na prática os ensinamentos das aulas. Ela está no projeto há cerca de quatro anos e conta que sempre teve vontade de retomar os estudos em francês.
A aposentada relembra que teve contato com o idioma na escola e que, ao voltar a estudar, a memória foi sendo reativada.
– A gente tem o francês no ouvido. As coisas vão voltando lentamente – relata.
Após esse período, Enilda destaca a evolução no aprendizado e a satisfação em conseguir se comunicar em uma viagem para a França, mesmo que de forma simples.
– A gente consegue uma comunicação razoável, mas eu não ia falar de filosofia com ninguém... Então me virei por lá – brinca.
Para além do idioma, ela ressalta o impacto do curso na rotina e deixa um incentivo para quem pensa em começar:
– É importante se manter entretida com atividades que fazem a autoestima ficar bem.
*Com orientação e supervisão de Émerson Santos