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Esporotricose: doença em gatos exige atenção

Histórias de felinos acolhidos ajudam a entender micose que cresce na Capital e que possui notificação obrigatória no SUS

18/03/2026 - 14h41min


Henrique Moreira
Henrique Moreira
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Jonathan Heckler/Agencia RBS
Pretinho está em tratamento e precisa ficar isolado de outros gatos.

O primeiro gato chegou após um pedido de ajuda em um grupo de WhatsApp há dois anos. Chamava-se Vitório. Andrieli Lopes, 29 anos, que já resgatava cães, disse que poderia cuidar dele por um tempo até encontrar um adotante. Sem experiência com gatos, acreditava ser algo pontual. Vitório morreu pouco tempo depois e a perda mudou o rumo da história.

– Quando perdi o Vitório, pensei que a morte dele não poderia ser em vão. Foi aí que decidi acolher gatos e ampliar o projeto que já tinha – conta.

Desde então, o projeto Resgatados da Seca passou a receber os felinos. Muitos chegam debilitados ou assustados e, em vários casos, as feridas na pele indicam um diagnóstico que Andrieli aprendeu a reconhecer: a esporotricose, infecção causada por fungos do gênero Sporothrix, capaz de afetar animais e humanos.

Dominique, com cerca de três anos, que tem Imunodeficiência Felina (FIV), foi um dos gatos que passou por ali. Chegou com lesões de esporotricose, dificuldade para caminhar e precisou ficar isolado de outros animais e amputar uma das patas. Meses depois, recuperado da doença, aprendeu a viver a nova realidade com mais tranquilidade, e hoje aguarda um adotante.

– Eles chegam muito mal. Quando melhoram e voltam a comer e beber água, a gente entende que valeu a pena – diz Andrieli.

A doença

A esporotricose é uma micose que pode ser transmitida pelo contato com ferimentos. É um fungo e vive em solo e matéria orgânica contaminados e, por muito tempo, foi conhecido como “doença do jardineiro”, comum entre pessoas que manipulavam terra e plantas sem proteção.

Especialistas destacam que a doença não nasce com os gatos. Assim como jardineiros podem se infectar ao ter contato com terra contaminada, felinos também podem adquirir o fungo ao cavar terra ou entrar em contato com matéria orgânica contaminada.

– Durante muitos anos, os casos eram associados a pessoas que trabalhavam com terra e plantas. Nos últimos anos, observamos aumento relacionado ao contato com animais infectados – afirma Renan Rangel Bonamigo, preceptor de dermatologia no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).

Para a médica veterinária e professora na UniRitter Mariana Caetano Teixeira, o comportamento natural dos felinos ajuda a explicar:

– Quando o gato cava a terra, pode carregar o fungo nas unhas. Se houver arranhão ou mordida, o microrganismo pode ser inoculado na pele humana ou de outros animais.

Casos

Dados da prefeitura de Porto Alegre, de outubro de 2025, indicam 276 registros em 2025, com aumento de 140% em relação a 2024, quando foram registrados 167 casos em humanos. 

O aumento dos diagnósticos no país levou o Ministério da Saúde a incluir a esporotricose humana na lista nacional de doenças de notificação compulsória em janeiro deste ano. Isso significa que os serviços de saúde são obrigados a informar os casos às autoridades sanitárias.

A Capital fornece tratamento via SUS e também conta com a Unidade de Saúde Animal Victória, localizada na Estrada Bérico José Bernardes, 3.489, para pessoas cadastradas no CadÚnico, que, somente neste ano, tratou mais de 90 gatos com a doença, segundo o Gabinete da Causa Animal.

Enquanto os números ajudam a dimensionar o problema, na casa de Andrieli a doença aparece de forma concreta. Exige meses de tratamento e cuidados. A melhora começa com um gesto simples: o animal volta a respirar melhor.

– Quando eles melhoram, a gente lembra o motivo de começar – diz Andrieli.

A médica veterinária, Mariana, faz um alerta:

Abandono é crime. E é pior quando o animal está doente. A doença é curável e tem tratamento.

Sinais, cuidados e doações

Procure atendimento médico se notar um dos sintomas:

/// Em humanos: nódulos ou feridas na pele que não cicatrizam ou lesões que podem surgir após arranhão ou mordida.

/// Procure atendimento veterinário ao perceber os sintomas em gatos: feridas na pele, principalmente no rosto, patas ou cauda e lesões que aumentam ou não cicatrizam.

/// O ideal é que os tutores mantenham o animal em um ambiente sem acesso à rua, para diminuir as chances de contágio entre animais e humanos.

Como ajudar Andrieli

/// A cuidadora tem mais de 15 gatos e resgata outros em situação de abandono e maus-tratos. O projeto é mantido com apoio da comunidade.

/// As doações ajudam a custear ração, medicamentos, granulado sanitário (tipo madeirinha), consultas e tratamentos veterinários.

/// Também é possível oferecer um lar temporário para os animais.

/// O Pix para ajudar é o telefone celular. Saiba como doar ou contatar: Instagram @resgatadosdaseca ou (51) 99250-6288.


* Com orientação e supervisão de Émerson Santos






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